terça-feira, 16 de novembro de 2010

A travessia de Sam Rivers


Super moderna, a capa. Uma grande angular estourada: o saxofone gordo em primeiro plano, o artista no centro da "bola" e o que parece ser um prédio em obras (ou mesmo um edifício pronto) como pano de fundo. No entrelaçado de signos, uma alegoria: o delicado (des)equilíbrio que a época - primeira metade dos anos 60, quando o disco foi gravado - propunha para o jazz. Um gênero acomodado pela auto-indulgência da obra "pronta" do repertório canônico e, ao mesmo tempo, tensionado pela obra "em construção" do experimentalismo do hard-bop e do free jazz. A música-cenário contra a música-protagonista. Um embate que tumultuava o enquadramento do mainstream, que abria novos ângulos, novas fronteiras nas franjas da tradição.
O rock havia conseguido desequilibrar o coro dos contentes no âmbito dos costumes, de fora pra dentro da música. O jazz tinha a própria música como campo de batalha, queria operar a revolução por dentro da gramática musical, queria criar rotas alternativas para se ir de dentro pra fora da música. O rock implodiu (e empobreceu a arquitetura musical disponível), o jazz queria a explosão - e a reconstrução permanentemente dos estilhaços criativos.
Nessa luta, importava mais o caminho, o processo, a pesquisa, do que propriamente os resultados alcançados. Muitos dos últimos discos de Coltrane ou a maior parte dos discos de Ornette Coleman retratam essa procura, que em vez de nos levar a algum lugar "final", pronto, acabado, nos colocam no centro de um furacão permanente, no centro de um devir. O risco é sempre a cacofonia, o isolamento, o ostracismo; mas o sabor e o colorido da aventura compensam a aposta.
O saxofonista (e multi-instrumentista) Sam Rivers também foi desses desbravadores. Tome-se este Fuchsia Swing Song (algo como Canção do swing magenta), seu primeiro disco pela Blue Note, lançado em 1964. Ao seu lado, escoltando suas melodias e seus improvisos, um trio iluminado: Tomy Williams na bateria, Jaki Byard no piano e Ron Carter no baixo. Tentando amarrar as pontas de um hard bop mais comercial com uma proposta mais abstrata de composição, ele nos oferece um conjunto de seis faixas que, pelas soluções inesperadas, pela angulosidade das composições, praticamente não se incorporaram ao songbook de outros bandleaders. No entanto, retomam a seu modo o movimento de descontrução/reconstrução da etimologia musical do jazz e, virtuosamente, seguem sua travessia entre paradigmas estéticos. Da obra "pronta", o disco parte para a obra "aberta", "inacabada", e desta novamente para um cânone que se realimentará do processo e, logo, perderá a condição de cânone, numa semiose infinita e cíclica que é a história possível a ser escrita em se tratando de manifestações tão abstratas quanto o hard-bop ou o free-jazz. Talvez por isso poucos lembrem da música de Sam River como artista de frente. Mas como reter uma imagem acústica de algo que se propõe a ser borrão, a ser rascunho de si mesmo? A ser passo e não pose?
A biografia de Rivers ainda chamaria atenção pelo Studio RivBea, que foi um ponto importante de resistência do jazz em Nova York nos anos 70 (período em que muita gente arribou para a Europa para tentar a vida diante de um mercado americano com casas de show e gravações cada vez mais restritas) e que teve o jazzista como proprietário. Também por sua carreira como professor de jazz nas mais conceituadas escolas de música dos Estados Unidos. O conjunto de sua discografia é bastante desigual e raros são os discos que ombreiam a coragem e o vigor deste registro carmim de seu "debut" pela Blue Note.
No link, a música que dá nome ao disco: "Fuchsia Swing Song"



Abaixo, o registro de um ensaio da RivBea All Star Orchestra (projeto desenvolvido por Rivers nos anos 90).

2 comentários:

marvioli disse...

Não conhecia. Legal.

Abre Catam disse...

O disco seguinte "melifluous cacophony" é um angu que tem caroço de tão difícil de descer...