terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encaixotando Beth Carvalho


Ao lado de Nara Leão, foi Beth Carvalho quem promoveu o encontro da MPB "oficial" que se produzia entre o Rebouças e o mar, naquela segunda metade dos anos 60; com a música brasileira que pulsava nos morros e comunidades do subúrbio carioca. A partir desse encontro, como se sabe, o samba viveu um novo período de estandartização como música nacional, alimentada por um conjunto de compositores "de morro" (Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, Zuzuca do Salgueiro, Monarco, etc.) que estreitavam as relações com os novos nomes da indústria fonográfica. Mas enquanto Nara continuou dialogando com diferentes perspectivas da música brasileira, Beth mergulhou de cabeça naquele universo, que lhe alçaria à condição de rainha: tanto pelo seu compromisso perene com o samba quanto pela descoberta de inúmeros compositores e intérpretes que ajudaria a projetar nacionalmente.
Uma caixa recentemente lançada pelo selo Discobertas, do incansável Marcelo Fróes, reúne toda a primeira década de trabalho de Beth (a maior parte dela pela gravadora Tapecar) e ajuda a contar a história dessa transição entre os padrões musicais da época (que Beth exerceu em coletâneas, trilhas de novelas e discos de festivais) e o novo/velho mundo do samba, que a cantora abraçaria em definitivo a partir de seu segundo disco, Canto por um novo dia (1972). Nesse trabalho, Beth gravou a velha (Mano Décio, Nelson Cavaquinho, Darcy da Mangueira e Manuel Santana) e a nova guarda do samba (João Nogueira, Gisa Nogueira, Martinho da Vila e Eduardo Gudin). No disco seguinte, alcançaria sucesso nacional com "1800 colinas", pérola de outro compositor "de morro", Gracia do Salgueiro. Na época, Nara já tinha retornado aos braços da bossa nova e de seus amigos velhos de "MPB", fazendo incursões bissextas pelo samba. Beth, no entanto, entregou a alma para aquela comunidade de poetas, compositores e ritmistas geniais e sofisticadamente simples. Pisou forte no chão e entrou para a eternidade de nossa música.

Abaixo, a gravação de "Se é pecado sambar", de Manoel Santana, que consta no disco Canto por um novo dia, resgatado por Fróes e reeditado na caixa.

Poemetes Araújos - XIII

Não querem ser bons,
mas pós-modernos.
Não querem ser solidários,
preferem dizer amém.
Não querem o sol,
apenas o raio.
Não querem ser velhos,
preferem-se ridículos.
Não querem o tempo,
mas a falsa glória.
Não querem a busca
nem estrelas nem caminho,
nem ritmo nem passo,
querem o muro apenas.
Não querem,
aceitam.
Não choram
nem rasgam o coração,
preferem o sorriso menor.
Há os que nem gostam de ser,
apenas têm.
Também não querem ser utópicos,
mas cínicos.
Há os que têm a boca cheia de dentes,
e o coração embotado.

Querem ser exatamente aquilo que são,
mas, se for o caso,
também preferem
ficar aquém.
O que dá no mesmo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mário Monicelli (1915-2010)



Mário Monicelli (1915-2010) era um de meus heróis do cinema italiano. Dono de uma vasta filmografia, seja como diretor seja como roteirista, ele tornou-se a maior referência da comédia italiana na segunda metade do século passado dirigindo produções como O incrível Exército de Brancaleone (1966),  Quinteto Irreverente (1975) e Parente é Serpente (1992). Na galeria pessoal deste blogueiro, Meus caros fudidíssimos amigos (1994), filme que alcançou repercussão discreta entre a crítica, é seu melhor trabalho. Monicelli faleceu hoje, aos 95 anos, depois de se atirar pela janela do hospital em que estava internado na cidade de Roma. Fim melancólico para um artista que foi um genial artesão do riso.
Abaixo, trecho de Amici Miei, traduzido no Brasil como Quinteto Irreverente.


domingo, 28 de novembro de 2010

A esperança em dez cordas


Hamilton de Holanda é um homem de seu tempo. Reinventa seu instrumento, ampliando suas possibilidades de expressão (entre elas, o auto-acompanhamento); conecta ouvintes e músicos de todo o mundo em novas plataformas tecnológicas, onde divulga seu trabalho e funda amizades; revira o baú das nossas melhores memórias musicais; e percorre os cinco continentes desbravando novas audiências e novos encontros (que vão dos venezuelanos do Ensamble Gurrufio ao ex-Led Zeppelin John Paul Jones). Não utiliza a tradição como biombo para certa auto-indulgência criativa nem vende a alma às tentações fugazes da contemporaneidade, da música de mercado e de outros faustos do tipo. Sua carreira é uma celebração permanente e otimista de nossos dias, em que utiliza como armas repertórios de todas as épocas mas também mira o futuro propondo novas composições.
Seu disco mais recente é mais um capítulo nesse caudaloso e compassado discurso sobre nosso tempo que Hamilton vem construindo há mais de quinze anos. Esperança, resumo de uma turnê pela Europa em que o brasileiro subiu em palcos da Finlândia, Áustria, França, Alemanha e Suíça acompanhado apenas de seu bandolim de dez cordas. Nas primeiras audições, lembrei-me de Keith Jarrett, pela aventura individual da improvisação; e também de Jacob, pela virtuose, pela matriz rigorosa a partir da qual Hamilton pode expandir seu som. Lembrei-me de Luperce Miranda, pela sonoridade que sugeria o encontro de dois ou três  bandolins ao mesmo tempo quando era apenas um que se projetava no palco.
Mas o som que brota do disco é fugidio a esses paradigmas. É Hamilton que se pronuncia ali, inteiro, corajoso, monumental. Contemporâneo ao revisitar a tocante "Vou vivendo", de Pixinguinha; e "Canto de Ossanha", de Vinícius e Baden. Lírico ao se debruçar sobre as notas redundantes de "O que será", de Chico; ou sobre as encruzilhadas bachianas de "7 anéis" de Gismonti. Inventivo - e quase figurativo - em suas próprias "Esperança", "Pros anjos" e "Ettiene".
Um disco para se sentir vivo e para saber da vida em nossos dias. Vida longa a Hamilton e suas cordas!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Novos Baianos

O dia em que morro descer e não for carnaval


Em dias de apreensão no Rio de Janeiro com uma nova escalada da violência em diversos pontos da Cidade (noves fora o sensacionalismo gratuito e irresponsável de parte da imprensa), lembrei-me de uma música de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro chamada "O dia em que morro descer e não for carnaval". A letra fala por si:

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual
Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O túmulo dos sambas


Todos os anos, a expectativa pelo lançamento do CD com os sambas de enredo do carnaval carioca mobiliza sambistas de todo o País. Este ano, no entanto, a espera teve um sabor especial pelas inovações no registro. Depois de uma tentativa relativamente bem sucedida no ano passado de gravar as baterias ao vivo e dar um astral diferente ao disco (que vinha se repetindo numa fórmula que destacava cordas e vozes e deixava a pulsação dos ritmistas em segundo plano), a Liesa (liga promotora do carnaval) resolveu aprimorar a proposta editando o CD com destaque às baterias e suas paradinhas e, novidade muito bacana, sem deixar intervalo entre as faixas. A audição se dá por inteiro, com o intérprete de uma escola, ao final de sua faixa, convidando o intérprete da escola seguinte e alternado seus gritos de guerra.
Diante dessas novas possibilidades e desse novo formato de gravação, alguns mestres de bateria acabaram exagerando na dose, abusando das paradinhas e bossas e quebrando o ritmo do registro - caso da Grande Rio, Porto da Pedra e Salgueiro. Outros souberam dosar o malabarismo rítmico (sem deixar de lado a virtuose das bossas) com o suingue e o balanço que a avenida exige e conseguiram realizar registros muito interessantes - caso da Beija Flor, Portela, Mocidade e União da Ilha. Tudo, no entanto, dentro da estrutura engessada de composição a que se reduziu o samba de enredo (refrão da cabeça + estrofe + refrão do meio + segunda estrofe). Boa parte dos sambas está, mais uma vez, impregnada dos clichês poéticos que ora tentam apresentar o enredo ora tentam se comunicar com o público, tentando estabelecer uma empatia cada vez mais fugaz e artificial com a plateia durante o desfile. No mais das vezes, não conseguem nem uma coisa nem outra.
Ainda assim, União da Ilha, Beija Flor e Portela, mesmo caindo nesse esquematismo, têm os melhores sambas e poderão, quem sabe, ultrapassar a posteridade cada vez mais efêmera da Sapucaí. Em geral, nos últimos anos, a passarela do carnaval - que sempre foi o túmulo dos desfiles, que, por sua própria natureza, morriam na avenida ao se consumarem - tem sido também o túmulo dos sambas de enredo.
Abaixo, aqueles que são, na opinião deste blogueiro, os melhores sambas do ano. Também vale a pena conferir, entre as escolas do grupo de acesso, o samba do Império Serrano, que fez uma bela homenagem a Vinícius de Morais.

1. União da Ilha


2. Portela


3. Beija Flor


4. Império Serrano (grupo de acesso)

Chauí, o preconceito e a informação


Em entrevista concedida ao site Carta Maior, a filósofa e professora da USP avalia que, na campanha eleitoral, a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação. Abaixo, a reprodução da entrevista.

Em entrevista ao Carta Maior, Marilena Chauí avalia a guerra eleitoral travada na disputa presidencial e chama a atenção para a dificuldade que a oposição teve em manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: “o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula”. Para a professora de Filosofia da USP, essa foi a novidade mais instigante da eleição: a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação. E esta última venceu.

Carta Maior:  Qual sua avaliação sobre a cobertura da chamada grande mídia brasileira nas eleições deste ano? Na sua opinião, houve alguma surpresa ou novidade em relação à eleição anterior?
Marilena Chauí: Eu diria que, desta vez, o cerco foi mais intenso, assumindo tons de guerra, mais do que mera polarização de opiniões políticas. Mas não foi surpresa: se considerarmos que 92% da população aprovam o governo Lula como ótimo e bom, 4% o consideram regular, restam 4% de desaprovação a qual está concentrada nos meios de comunicação. São as empresas e seus empregados que representam esses 4% e são eles quem têm o poder de fogo para a guerra. O interessante foi a dificuldade para manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou, então, para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula. Isso me parece a novidade mais instigante, isto é, uma sociedade diretamente informada pelas ações governamentais que mudaram seu modo de vida e suas perspectivas, de maneira que a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação.

CM: Passada a eleição, um dos debates que deve marcar o próximo período diz respeito à regulamentação do setor de comunicação. Como se sabe, a resistência das grandes empresas de mídia é muito forte. Como superar essa resistência?
MC: Numa democracia, o direito à informação é essencial. Tanto o direito de produzir e difundir informação como o direito de receber e ter acesso à informação. Isso se chama isegoria, palavra criada pelos inventores da democracia, os gregos, significando o direito emitir em público uma opinião para ser discutida e votada, assim como o direito de receber uma opinião para avaliá-la, aceitá-la ou rejeitá-la. Justamente por isso, em todos os países democráticos, existe regulamentação do setor de comunicação. Essa regulamentação visa assegurar a isegoria, a liberdade de expressão e o direito ao contraditório, além de diminuir, tanto quanto possível, o monopólio da informação. Evidentemente, hoje essa regulamentação encontra dificuldades postas pela estrutura oligopólica dos meios, controlados globalmente por um pequeno número de empresas transnacionais. Mas não é por ser difícil, que a regulamentação não deve ser estabelecida e defendida. Trata-se da batalha moderna entre o público e o privado.

CM: Você concorda com a seguinte afirmação: “A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo”?
MC: Se deixarmos de lado o caso óbvio das ditaduras e considerarmos apenas as repúblicas democráticas, concordo.

CM: Na sua opinião, é possível fazer alguma distinção entre os grandes veículos midiáticos, do ponto de vista de sua orientação editorial? Ou o que predomina é um pensamento único mesmo.
MC: As variações se dão no interior do pensamento único, isto é, da hegemonia pós-moderna e neoliberal. Ou seja, há setores reacionários de extrema direita, setores claramente conservadores e setores que usam “a folha de parreira”. A folha de parreira, segundo a lenda, serviu para Adão e Eva se cobrirem quando descobriram que estavam nus. Na mídia, a “folha de parreira” consiste em dar um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo. O caso do Estadão contra Maria Rita Kehl mostra que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cuíca enlutada


"Não tem um bom disco de samba que não tenha assinatura da cuíca do mestre Ovídio Brito". A frase é de Arlindo Cruz e resume a presença do percussionista nos últimos 50 anos da música brasileira. De Martinho a Marisa Monte, passando por Beth, Clara e Elza, muitos foram os medalhões que se cercaram de Ovídio para temperar seus discos. Em 2008, ele gravou seu primeiro e único CD solo, uma bela homenagem a Martinho da Vila editada pela Zambo Discos. Ovídio faleceu hoje, ao 65 anos, vítima de um acidente de carro no Rio de Janeiro nas proximidades do aeroporto Santos Dumont. Saudemos a memória do mestre.

Dia do Músico



Para saudar o Dia do Músico, comemorado hoje, um vídeo sobre o maior músico brasileiro de todos os tempos: Pixinguinha.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tim Dinter



Tim Dinter é um ilustrador alemão, integrante do coletivo de cartunistas chamado Monogatari. É um nome festejado na cena alemã de quadrinhos e já esteve no Brasil participando de palestra no Instituto Goethe de São Paulo. Em seu site, www.timdinter.de, é possível conferir uma panorâmica de sua produção.

Joca Reiners Terron

"ao longo de treze anos
minha ex-mulher guardou
folhas de árvores em meio
às páginas dos livros
que eu lia

eu nem percebia
desde então ao me deitar
e abrir um livro na cama
aquelas mesmas folhas caem
em meu rosto
tiram meu sono

à noite é sempre outono"

Via blog do autor do poema, Joca Reiners Terron

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Louis: a cinebiografia muda


Em tempos de cinema comercial cada vez mais dependente, no caso dos Estados Unidos, das extravagâncias tecnológicas, de suportes como o 3-D e de um tatibitate criativo que deixou os estúdios praticamente refém dos super-heróis dos quadrinhos, a notícia soa como um alento. Um filme mudo, preto e branco (com apenas algumas cenas coloridas), sobre a infância do maior nome do jazz, cuja exibição é acompanhada ao vivo por uma orquestra de 11 músicos regida por ninguém menos que Wynton Marsalis. Essa é a ideia de Louis, cinebiografia multimidia do Satchmo dirigida pelo estreante Dan Pritzker (mais conhecido dos colunistas de economia por ser o herdeiro milionário da rede de hotéis Hyatt e por manter um fundo milionário de incentivo a jovens talentos musicais nos EUA). O filme, com toques chaplinianos e um visual exuberante (pelo que se pode depreender do trailer), estreou em Chicago, no último mês de agosto, e desde então vem percorrendo os Estados Unidos numa turnê acompanhada com entusiasmo pelos fãs de jazz e de cinema. Na trilha, Marsalis revisita temas de Duke Ellington, Jelly Roll Morton, Charles Mingus e Louis Moreau Gottschalk, compositor do século XIX.
Simultaneamente à turnê, Pritzker finalizava a "continuação"de Louis, a cinebiografia do pioneiro Buddy Bolden, em que o diretor adotou a mesma plataforma multimidia. Juntos, os dois filmes custaram U$ 10 milhões. Perguntado se faria um projeto como este novamente, Pritzker disse que não poderia filmar histórias que não capturassem completamente sua imaginação. "É tão difícil. Não sei como as pessoas conseguem fazer isso num nível mercenário. Não sei como alguém pode se dispor a fazer algo pelo qual não seja completamente apaixonado", afirmou ao New York Times. Não deixa de ser uma declaração audaciosa, mesmo para um bilionário de pai e mãe.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Rodrigo Maia


(Via blog do Guilherme Scalzilli)

A travessia de Sam Rivers


Super moderna, a capa. Uma grande angular estourada: o saxofone gordo em primeiro plano, o artista no centro da "bola" e o que parece ser um prédio em obras (ou mesmo um edifício pronto) como pano de fundo. No entrelaçado de signos, uma alegoria: o delicado (des)equilíbrio que a época - primeira metade dos anos 60, quando o disco foi gravado - propunha para o jazz. Um gênero acomodado pela auto-indulgência da obra "pronta" do repertório canônico e, ao mesmo tempo, tensionado pela obra "em construção" do experimentalismo do hard-bop e do free jazz. A música-cenário contra a música-protagonista. Um embate que tumultuava o enquadramento do mainstream, que abria novos ângulos, novas fronteiras nas franjas da tradição.
O rock havia conseguido desequilibrar o coro dos contentes no âmbito dos costumes, de fora pra dentro da música. O jazz tinha a própria música como campo de batalha, queria operar a revolução por dentro da gramática musical, queria criar rotas alternativas para se ir de dentro pra fora da música. O rock implodiu (e empobreceu a arquitetura musical disponível), o jazz queria a explosão - e a reconstrução permanentemente dos estilhaços criativos.
Nessa luta, importava mais o caminho, o processo, a pesquisa, do que propriamente os resultados alcançados. Muitos dos últimos discos de Coltrane ou a maior parte dos discos de Ornette Coleman retratam essa procura, que em vez de nos levar a algum lugar "final", pronto, acabado, nos colocam no centro de um furacão permanente, no centro de um devir. O risco é sempre a cacofonia, o isolamento, o ostracismo; mas o sabor e o colorido da aventura compensam a aposta.
O saxofonista (e multi-instrumentista) Sam Rivers também foi desses desbravadores. Tome-se este Fuchsia Swing Song (algo como Canção do swing magenta), seu primeiro disco pela Blue Note, lançado em 1964. Ao seu lado, escoltando suas melodias e seus improvisos, um trio iluminado: Tomy Williams na bateria, Jaki Byard no piano e Ron Carter no baixo. Tentando amarrar as pontas de um hard bop mais comercial com uma proposta mais abstrata de composição, ele nos oferece um conjunto de seis faixas que, pelas soluções inesperadas, pela angulosidade das composições, praticamente não se incorporaram ao songbook de outros bandleaders. No entanto, retomam a seu modo o movimento de descontrução/reconstrução da etimologia musical do jazz e, virtuosamente, seguem sua travessia entre paradigmas estéticos. Da obra "pronta", o disco parte para a obra "aberta", "inacabada", e desta novamente para um cânone que se realimentará do processo e, logo, perderá a condição de cânone, numa semiose infinita e cíclica que é a história possível a ser escrita em se tratando de manifestações tão abstratas quanto o hard-bop ou o free-jazz. Talvez por isso poucos lembrem da música de Sam River como artista de frente. Mas como reter uma imagem acústica de algo que se propõe a ser borrão, a ser rascunho de si mesmo? A ser passo e não pose?
A biografia de Rivers ainda chamaria atenção pelo Studio RivBea, que foi um ponto importante de resistência do jazz em Nova York nos anos 70 (período em que muita gente arribou para a Europa para tentar a vida diante de um mercado americano com casas de show e gravações cada vez mais restritas) e que teve o jazzista como proprietário. Também por sua carreira como professor de jazz nas mais conceituadas escolas de música dos Estados Unidos. O conjunto de sua discografia é bastante desigual e raros são os discos que ombreiam a coragem e o vigor deste registro carmim de seu "debut" pela Blue Note.
No link, a música que dá nome ao disco: "Fuchsia Swing Song"



Abaixo, o registro de um ensaio da RivBea All Star Orchestra (projeto desenvolvido por Rivers nos anos 90).

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dez nós na madeira

Hoje é o aniversário de 69 anos de João Nogueira. Para saudar a memória e a obra deste que foi um dos maiores cantores e compositores do samba, o Talabarte percorre dez discos fundamentais em sua discografia.

1. João Nogueira (1972)
LP de estreia do sambista. Até então, João Nogueira havia chamado a atenção da crítica e do mercado ao ser gravado por Elizeth Cardoso ("Corrente de Aço") e lançara apenas compactos e registros espalhados em algumas coletâneas. Ironicamente, foi um dos últimos discos de sua discografia a ser lançado em CD. No repertório, João revela suas inúmeras virtudes como intérprete, abordando com maestria composições de Casquinha ("Maria Sambamba"), Wilson Batista ("Mãe Solteira"), Garça ("7o. dia"), Silas de Oliveira ("Heróis da Liberdade") e Egberto Gismonti ("P'rum Samba"); e se reafirma como compositor, embora com resultados desiguais no disco (que traz "Beto Navalha", "Mariana da Gente" e "Alô, Madureira" como exemplos de bons sambas; e outros nem tão inspirados).



2. E lá vou eu (1974)
Nesse disco, a parceria com Paulo César Pinheiro já estava funcionando a pleno vapor. A linda "E lá vou eu", que deu nome ao LP; e as irresistíveis "Batendo à porta" e "Eu hein Rosa" entraram  para o repertório atemporal do samba. Ainda da dupla, o disco traz a nostálgica "Braço de boneca" e o sarcástico "Partido Rico". Gisa Nogueira, irmã que virou parceira, aparece com "Eu sei Portela" e  "Meu canto sem paz", bela composição que ainda merece ser melhor descoberta. De punho próprio, João assina "Tempo à beça" e "Sonho de um bamba", que se eternizou em sua homenagem à Portela. "Do jeito que o rei mandou" é resultado da parceria entre João e Zé Catimba e seria recriada 30 anos depois por Marcelo D2. "De rosas e coisas amigas", do sempre inspirado Ivor Lancelotti; e "Gago apaixonado",  que ganharia sua versão definitiva na voz de João, completam o disco.



3. Vem quem tem (1975)
Disco que deu sequência ao sucesso do LP lançado um ano antes. A parceria com Paulo Cesar Pinheiro se limitou a apenas uma música, mas por se tratar de "Mineira", homenagem antológica a Clara Nunes, ainda assim justificaria todo o disco. Novos parceiros cruzam o caminho de João, como Claudio Jorge ("Samba da Bandola", "Chorando pelos dedos" e "Pra fugir nunca mais") e Eugênio Monteiro, co-autor de "Nó na madeira", que fez o disco vender feito água. "Amor de malandro", de Alcides Malandro Histórico e Monarco, recolocam a Velha Guarda da Portela no repertório do sambista -  que já havia gravado samba de Casquinha em seu LP de estreia. Lancelotti aparece novamente, com "Seu caminho de abre", e João banca sozinho "Convênio com o cupido", "Albatrozes" e "O homem de um braço só", homenagem ao bicheiro Natal, então presidente da Portela.



4. Espelho (1977)
O sucesso da belíssima canção-título, com letra escrita por Paulo César Pinheiro em homenagem ao próprio João, acabou obscurecendo boa parte do repertório desse que é um dos melhores discos dos anos 70. Além de "Espelho", o LP passeia em alto nível pelo samba de breque ("Malandro JB"), pelo samba-exaltação ("O passado da Portela") e pelo samba sincopado ("Pimenta no Vatapá" e "Espere, oh Nega!"). A relação de João com os cultos afro-brasileiros também é evidenciada em músicas como "Batucajé" e "Dora das 7 Portas", outra supreendentemente pouco conhecida dentro da discografia do sambista. Nos vocais, João se revela mais à vontade e canta com mais leveza e suingue, acompanhado por um time de feras como Dino Sete Cordas, Wilson das Neves, Luizão Maia (o baixista do samba), Sérgio Barroso, Marçal e Edson Frederico. Discão!!!



5. Vida Boêmia (1978)
Coisas do mercado fonográfico brasileiro. Esse disco extraordinário de João Nogueira não ganhou edição em CD e ainda está confinado ao acervo dos colecionadores e dos sebos digitais. "Bares da Cidade", mais uma bela parceria com Paulo Cesar Pinheiro, abre o disco. "Do Lamas ao Capela/ e na Mem de Sá, passo no Bar Luiz/  e no Amarelinho é que eu vou terminar", canta João esbanjado emoção e gingado. Os clássicos se sucedem: "As Forças da Natureza", "Maria Rita", "Baile no Elite" (parceria de João com o endiabrado Nei Lopes) e "Recado ao poeta"(pérola da dupla PC Pinheiro / Eduardo Gudin). Cartola aparece com "A cor da esperança" ("Sinto brilhando no ar/ e sei que não é vã / A cor da esperança / A esperança no amanhã"), um dos grandes momentos do LP, que se encerra com a parceria extemporanea entre Noel Rosa e João na bem humorada "Ao meu amigo Edgard".



6. Clube do Samba (1979)
Na virada dos anos 70 para os anos 80, João Nogueira viveu uma das fases mais populares de sua carreira. À popularidade dos discos, somou-se a empatia ao movimento de resistência estética e cultural que, ao lado de outros sambistas, ele passou a encampar no Clube do Samba, agremiação que fundou e presidiu. O disco de 1979, que trouxe grandes êxitos como "Súplica", mais um golaço da dupla JN/PCP, resume bem essa fase, em que, na disputa por espaço midiático com gêneros como a discoteca e o incipiente B-Rock, o samba experimentou um de seus inúmeros renascimentos. Ao lado de Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e Martinho da Vila, João formava a infantaria dessa resistência, lotando shows, vendendo bem e produzindo bons discos, como esse emblemático Clube do Samba. Destaque também para "Nicanor Belas Artes", curiosa parceria com Chico Anysio; "Canto do trabalhador" e "Esse meu cantar".



7. Wilson, Geraldo e Noel (1981)
Disco de intérprete. Aqui, João passeia com toda sua classe e todo seu suingue pelo repertório canônico de Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa, realizando versões definitivas para muitas das composições desses três fundadores do samba urbano brasileiro. "Louco", "De babado" e "Bolinha de papel", por exemplo, que abrem o disco, são três delas. Muito à vontade diante do desafio de repaginar clássicos atemporais, João alia à afinação impecável sua divisão virtuosa, equilibrando sílabas e silêncios num jogo de alto risco para os intérpretes mais desavisados. Destaque também para "Esta noite eu tive um sonho" (que ganharia outra versão igualmente importante na voz de Marcos Sacramento), "Pedro Pedregulho" e "Samba do Meyer" (homenagem de Wilson Batista à "capital dos subúrbios da Central", bairro que também seria berço de João).



8. Pelas terras do Pau Brasil (1984)
Os anos 80 seriam um período menor em termos de qualidade dos registros fonográficos de samba. Foram raros os bons discos de samba, mesmo quando o artista em questão era João Nogueira. Em geral, os estúdios se encheram de muito teclado, muito sintetizador, muita bateria eletrônica e quase nenhuma inspiração. O samba virou uma espécie de bolero apressado. Houve, claro, caras exceções, como este disco de 84. João, já ligado ao GRES Tradição, registrou o primeiro samba-enredo da agremiação, "Xingu"; e renovou sua parceria com PCPinheiro em outras duas composições, "Vovô Sobral" (que abria alas para as eleições diretas) e a cinematográfica "Chico Preto", história de um típico anti-heroi carioca que poderia servir de roteiro para o neo-favelismo que impregnou o cinema brasileiro dos anos 90. Destaque também para "Dois de dezembro", homenagem ao dia nacional do samba assinada em parceria com Nonato Buzar e Paulo Cesar Feital.





9. Parceria (1994)
Essa celebração dos mais de vinte anos de colaboração entre João e Paulo Cesar Pinheiro é um dos melhores discos brasileiros dos anos 90. Em pouco mais de uma hora, quase duas dezenas de sucessos assinados pela dupla são revisitados num clima acústico que cobre de delicadeza o registro. A voz roufenha de Paulo Cesar Pinheiro está em uma de suas melhores fases e João, mesmo já passando por problemas de saúde, ainda era o intérprete virtuoso de outras épocas. Destaque para "Forças da Natureza", "Nos bares da Cidade", em que Pinheiro faz um contraponto acertado à voz de Nogueira (formato que acabou ficando melhor que o registro original, gravado no disco Vida Boêmia, de 78), a versão instrumental de "Batendo a Porta", e a emocionante capela de João em "Minha Missão". Pena que não há registro em vídeo desse que é um dos grandes encontros da história da MPB, viraria um DVD antológico.



10. Chico Buarque Letra & Música (1996)
Para finalizar nosso top ten nogueiriano, outro disco de intérprete. A parceria com Marinho Boffa foi um dos últimos suspiros de João diante do ostracismo dos anos 90. Um disco impecável, em que João, mesmo baqueado pelo primeiro derrame cerebral, percorre com altivez o repertório do amigo Chico Buarque, com quem, curiosamente, nunca chegou a compor (se alguém lembrar de alguma, favor informar este blogueiro). Destaque para "Bastidores", "Homenagem ao Malandro", "Sonho de um carnaval" e "Sem fantasia", em que divide os vocais com Leny Andrade num encontro memorável - e que ainda hoje, milhares de audições depois, leva este blogueiro às lágrimas.

Flávio Aguiar


"Às vezes é preciso abandonar o barco,
A luta, o carrossel, o circo inteiro,
E partir como ave migratória para o norte
Em busca de terras de verão e sol,
Mas quando isto for preciso
Que se faça com rosto limpo,
A face descoberta e voltada para a frente,
Que não haja mentiras nem tristeza.
Queimem-se as lembrancas, quebrem-se
As garrafas; enterrem-se cinzas e cacos.
Seja-se até os ossos mais frágeis
Uma ave migratória: a volta existe
Mas é outra história, e não desculpa
A permanência no ponto de partida."

Flávio Aguiar, poeta, tradutor e professor gaúcho, autor de Sol (1972) e Outros poemas (1997).

Marcel Gotlib



O vídeo acima traz uma pequena mostra do trabalho do cartunista francês Marcel Gotlib, que, no Brasil, colaborou recentemente com a revista Piauí. Vale a pena conhecer o site do homem: www.marcelgotlib.com

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Diálogos Possíveis: Ronaldo Salgado


Para o jornalista Ronaldo Salgado, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), é chegada "a hora de uma nova ordem de comunicação no Brasil". Essa nova ordem, no entendimento do acadêmico, passa pela discussão republicana dos novos direitos e deveres das empresas de comunicação em sua relação com a sociedade. Ele destaca que mecanismos como os conselhos estaduais de comunicação e o Conselho Federal de Jornalismo, que têm sido satanizados pelos grandes veículos de mídia no Brasil, são importantes na definição de um modelo brasileiro de controle social  - a exemplo do que acontece em diversos países do mundo. "(Os grandes veículos) esquecem o que está na Constituição Federal, deturpam o papel e as discussões que houve na Conferência Nacional de Comunicação e banem do noticiário as vozes favoráveis a essa discussão, de forma descarada e antiética, para dizer o mínimo", defende o professor.

Por e-mail, Ronaldo respondeu três perguntas enviadas pelo blog. As respostas seguem abaixo, na íntegra.

Talabarte - Quem perde e quem ganha com a revisão do sistema de regulação dos meios de comunicação por parte da sociedade civil que (in) existe no Brasil? Por quê? 
Ronaldo Salgado - Em verdade, essa questão é tão urgente quanto o são a reforma política, a reforma tributária e a reforma trabalhista, para ficarmos nesses três setores fundamentais para a reorganização política e socioeconômica do Brasil. Antes, cabe uma ressalva: essas reformas não podem ser vistas e analisadas somente sob a ótica da elite política e econômica do País. Urge que o conjunto da sociedade brasileira, na multiplicidade de suas entidades representativas e seus interesses específicos e gerais, seja ouvido e levado em consideração sobre o papel e a atuação dos meios de comunicação no Brasil. Daí a importância também da discussão sobre mecanismos de regulação dos meios de comunicação, principalmente o setor audiovisual – emissoras de rádio e televisão (aberta e paga), além da própria Internet. A questão de jornais e revistas também precisa ser levada em conta, mas sob outra ótica, já que, diferentemente das tevês e das emissoras de rádio – concessões públicas governamentais –, são empresas privadas, com registro na Junta Comercial. Mas cumprem um serviço de interesse público. Em um raciocínio mais ponderado, o ideal seria pensar num único vencedor: o interesse coletivo. A questão não é de controle, tutela ou submissão dos meios de comunicação a quaisquer mecanismos que sejam criados para acompanhar as produções jornalísticas, culturais ou de entretenimento, como ocorre nos países mais avançados do mundo. A questão deve ser vista sob o crivo da responsabilidade e do interesse de todos que consomem essas produções no quotidiano. Os meios de comunicação no Brasil precisam prestar contas, sim, à sociedade que serve – bem ou mal, esses serviços prestados não podem estar submetidos única e exclusivamente aos interesses, às ideologias, às vontades, aos caprichos ou à sanha de seus proprietários. Ora, quando manipulam reportagens, distorcem e sonegam informações, deturpam conteúdos, desrespeitam dignidades alheias, atentam contra os Direitos Humanos, ou, simplesmente, omitem informações à sociedade, atendendo somente aos interesses empresariais específicos de cada grupo empresarial da comunicação ou mesmo corporativos da mídia brasileira, abre-se espaço a um processo cada vez mais perverso de alienação da sociedade, nos segmentos mais desprovidos de uma consciência crítica. Ou, simplesmente, incorrem no crime de lesa-pátria por atender tão somente aos  interesses internacionais contrários à nação brasileira. Situação, aliás, vivida recentemente, quando do processo de desconstrução do Estado brasileiro que ficou conhecido como “privataria”.

Talabarte - Como você tem acompanhado a postura dos grandes veículos de comunicação em relação a esse debate? 
Ronaldo Salgado - Acompanho com tristeza, mas com minha consciência crítica em permanente estado de alerta. Afinal, a postura dos grandes veículos é, no mínimo, cínica, desrespeitosa para com os leitores, telespectadores e ouvintes de jornais, revistas, emissoras de TV e rádio. Essa postura faz gato e sapato da maior parte da população, simplesmente porque não informa com equilíbrio e isenção. Não é pautada pelo compromisso de informar com imparcialidade e eqüidistância como consta nos manuais de redação da maior parte desses veículos. Usam os atributos de imparcialidade, neutralidade, compromisso com a verdade dos fatos e atuação sob a égide da ética para conquistar audiência – ou seja, fazem uma descarada propaganda enganosa contra a sociedade, que paga por um produto jornalístico de qualidade e recebe outro completamente diferente. Veja o caso das discussões sobre o Conselho Federal de Jornalismo, há dois anos, e dos conselhos estaduais em processo de discussão preliminar no Ceará e em vários outros estados brasileiros, mais recentemente. Esquecem o que está na Constituição Federal, deturpam o papel e as discussões que houve na Conferência Nacional de Comunicação e banem do noticiário as vozes favoráveis a essa discussão, de forma descarada e antiética, para dizer o mínimo.

Talabarte - Que propostas concretas poderiam delinear esse novo modelo de regulação pública dos meios sem que isso se configure em expedientes de censura ou de cerceamento à liberdade de expressão?
Ronaldo Salgado - É necessário que os setores antagônicos nessa questão sentem-se à mesa e encarem o desafio de construir um modelo de controle social, cujo primeiro parágrafo do documento que daí vier a surgir seja: “Somos intransigentemente contrários a qualquer tipo de censura ou de cerceamento à liberdade de expressão no Brasil, submetidos que estamos à Carta Magna do País”. A partir disso, devemos nos debruçar sobre os modelos de controle social postos em prática em todo o mundo – nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, na Itália, na Alemanha, entre outros – e, de maneira crítica, racional, responsável e séria, encontrarmos o que mais bem se adéqua à realidade de um país com 27 estados federativos, além do Distrito Federal, e uma população de mais de 185 milhões vivendo em condições econômicas, sociais, políticas e culturais absurdamente diversas. Ora, essa complexidade, por si só, já nos basta para defender a urgência da discussão sobre controle social dos meios de comunicação no Brasil. Esses meios não podem ficar agindo – como o fazem muitas e muitas vezes – preocupados somente com os seus interesses familiares e\ou corporativos. É chegada a hora de uma nova ordem de comunicação no Brasil.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O avesso do avesso do avesso


"Só tocando em frente ao espelho". Para o pai do pequeno Francisco Soares de Araújo, que mais tarde viria a se consagrar no mundo do choro como o legendário Canhoto da Paraíba (foto acima), esse era o único jeito de ensinar ao filho os mistérios do violão. Mas as lições acabaram nunca acontecendo. Primeiro pela dificuldade em transpor as escalas e as bordoadas para o violão invertido de Chico Soares, que, como todo canhoto, empunhava o braço do instrumento no sentido de seu ombro direito (mas sem inverter as cordas, ao contrário da grande maioria dos canhotos). E depois pela própria genialidade do filho, que desde muito cedo solava cheio de ginga os choros e as valsas de Pixinguinha, Jacob e Ernesto Nazareth. Resumo da ópera (ou do choro): Canhoto aprendeu tudo sozinho, desenvolvendo em seu violão "pelo avesso" um estilo absolutamente particular de execução.
"Ele começa a surpreender no momento em que empunha o violão, pois, como a maioria dos canhotos, é obrigado a inverter a posição do instrumento. Só que não altera a disposição original das cordas, como era de se esperar. Em conseqüência, seu aprendizado não seguiu nenhuma escola violonística e acabou desenvolvendo uma técnica toda particular de execução que, aliada a um senso harmônico-melódico incomum, faz dele um instrumentista excepcional e extremamente original", define o crítico Ruy Fabiano no encarte do LP Canhoto da Paraíba: com mais de mil. O disco, já relançado em CD, foi produzido por Paulinho da Viola, que ao lado de nomes como Jacob do Bandolim e Ernesto Nazareth, é um dos grandes admiradores da música de Canhoto, a quem chegou a dedicar um choro.
Antes de Canhoto da Paraíba, seu homônimo paulista, Américo Jacomino, o Canhoto (1888-1927),  assombrou a Pauliceia com seu estilo gauche ao violão e,  também sem inverter as cordas, foi um dos responsáveis pelo "enobrecimento" do instrumento (até o início do século XX, considerado um acessório para malandros e bandidos) e por sua aceitação na sociedade paulistana. A projeção de Canhoto era tamanha no circuito de concertos (e shows circenses) de São Paulo que consta que o próprio Romeo Di Giorgio, por volta de 1910, teria lhe presenteado com um instrumento construído por encomenda para sua mão esquerda.
Além do paraibano e do paulistano, há na música brasileira outros canhotos famosos que acabaram "corrigindo" o estilo ao violão, Guinga e Baden Powell entre eles. Nesses casos, foi aplicada a doutrina (meio sectária) segundo a qual (e segundo alguns professores de música mais ortodoxos), se não há violino, cello ou piano para canhotos, também não poderia haver violão invertido. Mas isso é uma outra (longa, enfadonha e inócua) discussão...

É bem improvável que Jimi Hendrix, que também era canhoto, tenha algum dia ouvido falar em Chico Soares e seu violão invertido. Pior para Hendrix. Mas o fato é que o maior guitarrista de todos os tempos empunhava seu instrumento da mesma maneira que o gênio paraibano. E também sem inverter as cordas. Embora usasse e abusasse de alguns "periféricos" da guitarra, chegando a reinventar funções para pedais, caixas e alavancas, era o fato de tocar seu instrumento "pelo avesso" que lhe permitiu desenvolver um estilo único como guitarrista. Desse modo podia, por exemplo, pressionar todas as seis cordas de sua Stratocaster apenas com a parte de cima de seu polegar, tocando bases e solos simultaneamente, entre outras "feitiçarias" musicais.
Embora a história da música registre outros guitarristas canhotos famosos, como Kurt Cobain (Nirvana); Tony Iommi (Black Sabath), que também não possuía as pontas de dois dedos em sua mão direita; Eric Gales, Dick Dale, Albert King e Otis Rush, ninguém foi tão influente como Jimi Hendrix. Pelo menos não ao ponto de consolidar uma escola específica que influenciou a canhotos e destros indistintamente. No Brasil, Edgard Scandurra (Ira!) é outro canhoto que toca sua guitarra às avessas, sem inverter as cordas, a la Hendrix. Não à toa freqüenta periodicamente o posto de melhor guitarrista do País.
Abaixo, um vídeo com Canhoto da Paraíba no programa Ensaio da TV Cultura (dica enviada por twitter por um grande violonista cearense, David 7 Cordas), escoltado por ninguém menos que Paulinho da Viola ao cavaco e César Farias (pai de Paulinho) ao violão.

Pixação


"O obscurantismo exibicionista levou os urubus de Nuno Ramos, dilapidando o impacto da gigantesca Bandeira branca. Enquanto isso, as panorâmicas Pixação SP (nos três pavimentos) reforçam o paradoxo insanável proposto pelos ativistas de rua. É fácil exibir documentários sobre sua rebeldia e mantê-los afastados das paredes impolutas do circuito exibidor. Mas, se o coletivo de contraventores anônimos precisa manter-se clandestino para afirmar a própria identidade, por que faz tanto esforço para invadir o ambiente da Bienal? E se esta renega os pichadores, por que se apropria de seu exemplo para forjar apologias à intervenção urbana, à Antiarte, etc?"

Comentário do escritor Guilherme Scalzilli sobre a Bienal de São Paulo.

sábado, 6 de novembro de 2010

Koln Concert: a catedral da improvisação


Bons discos podem entreter milhões de ouvintes, pela beleza de seus arranjos ou pela competência técnica de seus músicos. Discos extraordinários podem galvanizar a paixão de outros tantos, pela promessa de felicidade latente em cada faixa, pela força da interpretação, etc. Há discos, ainda mais raros, que chegam a mudar nosso jeito de escutar música, por nos propor novos sentidos, por modular nossa experiência estética em novas instâncias cognitivas e civilizatórias. Há discos, no entanto, que justificam toda uma vida. Koln Concert, o tour de force de Keith Jarrett gravado em 1975, é um deles.
Longo exercício de improvisão solo ao piano dividido em duas partes, ao longo das quais Jarrett entrelaça abordagens eruditas, jazzísticas e populares num resultado hipnótico, o disco foi gravado em difíceis condições técnicas (entre elas, um piano de som considerado insatisfatório por alguns críticos), mas ainda assim, tornou-se a catedral suntuosa do experimentalismo e, principalmente, do lirismo do pianista. Ao longo de sua carreira, Jarrett ainda iria redefinir o horizonte de possibilidades musicais para o trio de jazz, percorreria o leito seminal da canção norte-americana, dialogaria com o rock e a música pop; e levaria o experimentalismo a latitudes difíceis de se alcançar. Com o Koln Concert, ele estabeleceria um paradigma - ainda hoje insuperado - de improvisão (e beleza) ao piano.

P.S. - Da Parte I, gosto particularmente do trecho entre 6'30" e 9'.



Poemetes Araújos - XI


Embaço, cheiro de palavra não-dita.
Cada qual se vira na cama
e acorda:
em dias diferentes, em vidas diferentes.

Na casa, o sorriso de Leila Diniz é
ofensa
grave.
Todas as ofensas do mundo.
O desterro é virado pra dentro,
para a sala de estar.
No cabide, os sonhos,
secos e molhados,
esgarçados pelo sol
e pelo sereno,
servem apenas
de decoração.

Ali,
entre o jeans e o casaco,
entre o disco de
Coltrane e o livro
de Calvino,
está o retrato do menino
que ia mudar o mundo:
se um amor supremo numa noite de inverno.
Meio de perfil, meio constrangido.
Seus dentes combinam com o novo jogo
de travesseiros.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Laerte

O cartel e o pré-sal



O texto abaixo é de autoria do engenheiro Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) e vice-presidente do Clube de Engenharia; e foi publicado no site da Aepet. Um guia para aqueles que querem entender com um pouco mais de clareza o que significa o pré-sal para o futuro da economia brasileira e como a direita brasileira, articulada com o cartel internacional do petróleo, quer sangrar o País através da manutenção do modelo de Concessão (mais uma herança maldita de FHC). Passadas as eleições, PSDB, DEM, setores do PMDB e a imprensa conservadora (com a infantaria de Globo, Folha, Estadão e Veja) vão unir artilharias contra um mesmo alvo: o modelo de partilha proposto pelo Governo Lula. 

PRÉ-SAL: É HORA DE RETOMAR A DISCUSSÃO

Passada a turbulência das eleições e reforçada a democracia, é hora de retomarmos a discussão sobre o pré-sal. Lembrando que a pressão contra a mudança da Lei 9578/97, péssima para o País, adiou a aprovação do projeto de partilha para depois das eleições. Que pressão é esta e de onde vem? Ela vem dos países desenvolvidos que não tem petróleo e calcaram as suas economias nesse produto, cada vez mais escasso e mais estratégico. Assim EUA, Europa e Ásia estão numa enorme insegurança energética. O Cartel internacional está na mesma situação. Já dominou 90% das reservas mundiais e hoje tem menos de 5%. O pré-sal é uma questão de sobrevivência para todos eles.
Outro fato importante é que os analistas sérios e independentes afirmam que estamos vivenciando o terceiro e irreversível choque mundial do petróleo: atingimos o pico de produção mundial e daqui para frente a oferta irá cair de forma drástica e irreversível.
Isto significa o recrudescimento da luta por petróleo, gerando preocupante aumento do preço do barril. Há possibilidade, inclusive, de mais um conflito mundial.
O pré-sal dá ao Brasil a possibilidade de ficar numa posição confortável. Ele pode durar mais de 40 anos proporcionando a auto-suficiência. Mas é preciso mudar a Lei 9478/97, herança de FHC, que entrega 100% do petróleo a quem produzir e esse produtor paga alguma coisa à União somente a partir da produção diária de 90.000 barris por dia, mas paga, no máximo, 20% da produção, em dinheiro, ficando com todo o petróleo.
O Governo Lula, quando soube pelos diretores da Petrobras da magnitude da descoberta do pré-sal, corretamente retirou 41 blocos do 9º leilão e criou Grupo de Trabalho para reestudar a legislação.  Esse grupo, durante um ano e meio estudou várias alternativas e apresentou quatro propostas de Projeto de Lei para a questão petróleo: 1) Fundo Social; 2) Capitalização da Petrobrás; 3) Criação da estatal Pré-sal Petróleo e 4) Mudança do contrato de Concessão para contrato de Partilha de Produção.
O mais importante deles é o 4º PL, porque muda o contrato de Concessão previsto na Lei 9478/97, artigo 26, para Partilha de produção. No primeiro, 100% da produção fica com o produtor. Na partilha, proposta do Governo Lula, o petróleo é da União e ela remunera os custos de produção em petróleo. Fizemos algumas simulações, partindo de algumas premissas como o custo de produção estimado em US$ 30 por barril e o preço do petróleo a US$ 70/barril. Sob estas premissas concluímos: na legislação vigente o Consórcio fica 100% do petróleo e paga, em dinheiro, à União, no máximo 18,8% da produção total (o percentual varia com o volume produzido. Até 90.000 nada é pago); com o PL 5938, proposto pelo Governo, cabem à União cerca de 60% da produção, em petróleo. Outro avanço do PL do Governo é que a Petrobrás será a produtora de todos os campos, o que garante a compra de equipamentos, serviços e geração de empregos de qualidade, além de desenvolver tecnologia de ponta no País.
O andamento das discussões transcorria com relativa tranqüilidade. Desconfiamos do fato do lobista cartel internacional, incrustado no IBP, ter feito oito audiências publicas no Congresso: seis no Senado e duas na Câmara. Cada audiência pública continha cinco mesas de debate; cada mesa, dois lobistas de peso. Onde estaria o resultado disto? Não foi preciso procurar muito. Examinando o substitutivo do relator Henrique Alves, vimos
O resultado: ele introduziu uma emenda que eleva os royalties para 15% e os devolve ao consórcio produtor. Ela transformaria o Brasil num imenso paraíso fiscal tornando o nosso contrato de partilha o pior do mundo. Mais grave: a participação da União na produção cai de 60% para 29%. Ou seja, o relator estuprou o projeto do Governo.
Quando o projeto chegou ao Senado, alertamos os senadores Pedro Simon e Renan Calheiros dessa anomalia. O Senador Simon fez um discurso inflamado de revolta no Senado. E, com o senador Renan, a nosso pedido, levou a informação ao presidente Lula. O senador Renan prometeu derrubar essa maldita emenda Henrique Alves.
No dia da votação no Senado, falamos com Renan e ele disse que não estava mais no controle da questão e que a decisão estava com o Senado Romero Jucá. Falamos então com o Senador: `Fique tranqüilo, disse Jucá; a emenda Ibsen e a emenda Henrique Alves estão suspensas. Elas serão votadas depois das eleições`. Com certo alivio, mas desconfiado, fomos ver o substitutivo do senador. A devolução dos royalties estava lá, Camuflada em 4 artigos. Portanto, o espírito da emenda Henrique Alves continuava.
Falamos com a assessoria do senador Simon, e, com a ajuda do deputado Ibsen eles redigiram uma emenda para neutralizar os contrabandos de Jucá. Assim, o artigo 64 do substitutivo do senador Jucá, introduzido pelo senado Simon, procura neutralizar o produto do lobby do cartel do IBP, proibindo qualquer devolução de royalty. E faz um acréscimo para neutralizar os efeitos da emenda Ibsen contra o Rio de Janeiro: já que a emenda Simon evita que a União dê de presente R$ 54 bilhões por ano para o consórcio (fruto da emenda Henrique Alves/Jucá), a união pode ressarcir o Rio e demais estados produtores dos R$ 6 bilhões que eles perdem devido à emenda Ibsen.
Finalmente, fizemos mais uma proposta para os parlamentares: mudar a Lei Kandir que isenta o petróleo do imposto de exportação. Não tem o menor sentido esse incentivo, pois o petróleo é um produto que o mundo inteiro quer e dele necessita. Logo, não é necessário incentivar sua exportação. Propusemos a extinção desse incentivo através de um projeto de Lei. Com isto, o Rio de Janeiro ganhará cerca de US$ 7 bilhões a mais.
É hora de mobilização. Quando o petróleo era apenas um sonho, foi feito o movimento `o petróleo é nosso`, o maior movimento cívico da história do nosso País. Agora que o petróleo é uma realidade que supera todas as expectativas, é hora de retomar essa mobi-lização, pois estão em jogo reservas superiores a 100 bilhões de barris, um Iraque na América Latina. É a maior chance que o Brasil já teve para deixar de ser o eterno pais do futuro e se tornar o país do agora. Com saúde, educação, empregos de qualidade, segurança, eliminando a triste condição de país mais rico e viável do planeta e ter um vergonhoso contingente de 50 milhões de miseráveis, além do terceiro pior índice de desigualdade do mundo.  O PRÉ-SAL TEM QUE SER NOSSO PARA A REDENÇÃO ECONÔMICA E SOCIAL DO BRASIL.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A imprensa que teme a verdade


Assistindo à recente entrevista de José Dirceu no Roda Viva, percebe-se como alguns "grandes" jornalistas - aqueles típicos sabujos da "grande" mídia - preferem muito mais confundir e mitificar do que efetivamente esclarecer a opinião pública. Esses, aliás, têm sido os ingrediente principais da receita jornalística servida diariamente pelo quarteto Veja/Folha/Estadão/Globo ao longo dos últimos oito anos: poucos fatos e muito preconceito; pouco compromisso com a complexidade da realidade e muita entrega aos chavões. Pesos e medidas absolutamente crueis com o campo popular e progressista e extremamente generosos com a direita entreguista, corrupta e cínica que se empulerou na oposição. Sem falar no fato de que há uma pauta sistemática que tenta ideologizar os defeitos ao mesmo tempo em que procura desfocar e desqualificar os avanços de um governo de centro-esquerda no País. Uma imprensa que, em resumo, teme a verdade.
Não quero aqui defender Dirceu, mas também não posso condená-lo previamente como o fazem muitos jornais e revistas brasileiros. E não, Augusto Nunes, as perguntas não foram melhores que as respostas. Nem de longe. Para efeito de placar, o ex-ministro ganhou de goleada.







terça-feira, 2 de novembro de 2010

O palíndromo de Yankovic


Aos que não associaram o nome à figura, Weird Al Yankovic é aquele músico e humorista malucão que ganhou popularidade nos anos 80 com algumas paródias de hits da música pop. Neste vídeo, ele reaparece numa sátira hilária e engenhosa ao clip clássico de "Subterranean Homesick Blues", de Bob Dylan. Com o detalhe: a nova letra é toda escrita em palíndromos, ou seja, aquele tipo de frase que pode ser lida ao contrário mantendo a mesma sequência de letras.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Todas as Lapas ao mesmo tempo agora


"Quem projetaria / essa elegância solta / essa alegria / (...) Lapa/ amo nosso tempo/ em ti". Os versos de Caetano Veloso iluminam não só o sentimento e o clima quase inefáveis que percorrem as ruas do boêmio bairro carioca da Lapa, meca para os amantes do samba e do choro em todo o Brasil (e para roqueiros, regueiros e raveiros de diversos matizes); mas também celebram o encontro de épocas que se atravessam e se cruzam nas dezenas de bares, botecos, galpões e sobrados que se espalham entre a ruas do Lavradio, Mem de Sá e do Riachuelo. Jovens revisitam repertórios de outros tempos e estendem a bandeira branca para o conflito de gerações que tanto constrangeu a música brasileira nos anos 80; velhos senhores e senhoras abrem os olhos e ouvidos para novas e novíssimas composições de gente como Alfredo Del Penho, Moyseis Marques, Edu Krieger, Teresa Cristina, Gallotti, Pedro Miranda e tantos outros novos gênios da raça; universitárias descoladas e neo-feministas entoam canções machistas que fizeram a glória do samba nos anos 40; reacionários de vários quadrantes da direita se permitem estufar o peito para cantar Chicos, Caetanos e quejandos saudando a igualdade das diferenças. É o mistério da Lapa, que dissolve fronteiras e gerações em nome da alegria da boa música brasileira, cada vez mais clandestina em sua própria terra (embora os grupos de jovens sambistas que vão pipocando em todo o País, muito por causa do movimento que se iniciou na própria Lapa - Evoé, Gallotti! - acendam uma alentadora esperança...).
A Orquestra Republicana - formada por músicos de diversos grupos cariocas como Tira Poeira, Garrafieira e Anjos da Lua - é um dos grupos mais tradicionais nesse novo mapa (contradição assim é a cara da Lapa) da boemia musical do bairro. Desde 2005, Gallotti, Pedro Holanda, Mariana Bernardes e cia. pilotam a gafieira moderníssima das noites de sábado no Democráticos, um charmoso e centenário sobrado localizado na Rua do Riachuelo que ferve ao som de muito partido-alto, samba sincopado, choros e valsas. Em 2008, o baile foi registrado e agora, finalmente, virou disco através do selo Bolacha Discos. No repertório, Lapas de diversas épocas se encontram. Mas o destaque é mesmo a novíssima Lapa cantada em composições de Alfredo Del-Penho ("Quebranto", "Pra Essa Gente Boa", "Noite à Lapa"), Pedro Hollanda ("Acontece", "Não Vem que Não Tem"), Eduardo Gallotti ("Partido do Homem Solteiro") e Samuel de Oliveira ("Rosa Branca Maré").  Um disco pra saudar a alegria de ser brasileiro, radicalmente brasileiro, e, como diz Caetano, saudar a alegria de viver em nosso tempo.

A força da mulher


O texto abaixo foi publicado originalmente no site da revista Carta Capital. O autor, Emiliano José, é jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. 

Uma vitória do povo brasileiro. A vitória de um projeto político. A vitória de uma mulher. Talvez isso poderia ser uma boa síntese das eleições deste domingo. O Brasil que a nova presidente encontra não é o mesmo de 2003, quando Lula assumiu. É muito melhor. No entanto, os desafios que Dilma Rousseff tem pela frente são enormes, sobretudo o de continuar a luta para diminuir a desigualdade social que ainda nos afronta, preocupação que ela manifestou sempre durante a campanha.
Tenho convicção de que a democracia está se consolidando no Brasil. Que o povo brasileiro amadurece cada vez mais. Que a cidadania cresceu. Que a consciência da nossa gente não se submete mais com tanta facilidade aos chamados meios de comunicação de massa, cujo núcleo central é escandalosamente partidarizado. Que os grotões desapareceram de nossa cena política. Que não há mais donos de votos no País, especialmente para as eleições majoritárias. Que não se subestime mais a capacidade do nosso povo.
Creio que definitivamente caiu por terra a noção da existência de formadores de opinião situados na chamada mídia hegemônica. Ou, dito de outra forma, a importância desses atores diminuiu muito. O povo reage é diante das políticas públicas, do resultado efetivo da atuação do governo face à sua vida. Por que razão o povo brasileiro iria deixar de votar numa candidata que representava a continuidade de políticas que o beneficiaram tanto nos últimos anos e trocá-la por outro, que representava tão nitidamente políticas que o prejudicaram enormemente, como o governo Fernando Henrique Cardoso?
Penso muito no desprezo que alguns daqueles que se acreditam formadores de opinião tem pelo povo brasileiro. Não se conformam com a popularidade do presidente Lula, tentam desqualificá-lo o tempo inteiro, confrontando-se com índices de aprovação superiores a 80%. E embarcaram de forma resoluta na tentativa de desqualificação da candidata Dilma Rousseff, inclusive na sordidez que envolviam os falsos dossiês sobre sua atuação política ou, ainda, sobre o odioso caso da posição diante do aborto.
O povo brasileiro elegeu Dilma com muita consciência de que apoiava um projeto político. Há aqueles que atribuem a eleição de Dilma apenas ao inegável carisma do presidente Lula, e não há dúvida de que isso contou. Parafraseando Caetano Veloso, que referiu-se a Roberto Carlos dizendo a gente sabe a quem chama de rei, o povo sabe a quem chama de líder.
Lula é o maior líder político e popular da história do Brasil. No entanto, não fosse o extraordinário governo feito nesses oito anos, com resultados nunca antes vistos, para melhor, nas condições de vida do povo brasileiro, e certamente não bastaria o carisma do presidente Lula.
O carisma se afirmou por conta, sobretudo, das políticas públicas que foram levadas a cabo pelo governo, fruto de um projeto político pensado pelo PT, desenvolvido com mais consistência entre o final dos anos 90 e início do novo milênio. Claro que esse projeto encontrou um ator singular, de uma capacidade rara, de uma intuição política fantástica, e que soube, portanto, dar consistência a tudo que havia sido pensado pelo PT.
O partido compreendeu a complexidade do Brasil. Superou quaisquer tentações isolacionistas, procurou alianças amplas e pensou uma revolução de longo prazo, uma revolução democrática, que enfrentasse a profunda desigualdade social que nos afronta há séculos, que situasse a Nação de forma soberana na arena mundial. Desde o seu nascimento, o partido havia superado a dicotomia entre socialismo e democracia. E no projeto concebido mais recentemente certamente reafirmou para si mesmo que o processo de mudanças no Brasil se daria no leito democrático, do qual nunca abriu mão.
E pôde experimentar nesses oito anos, ao lado dos partidos aliados que chamou para o projeto, o quanto é possível mudar o Brasil, as condições de vida do povo brasileiro, no exercício pleno da democracia. Tirar quase 30 milhões da pobreza absoluta e elevar mais de 30 milhões da pobreza à classe média é o maior triunfo desse projeto. Foi nele que o povo votou.
E foi a vitória de uma mulher. A vitória da mulher brasileira. O ano de 2002 marcou um fato inédito na história do Brasil: a eleição de um presidente operário. Agora, o povo brasileiro produz outro fato inédito: pela primeira vez elege uma mulher.
Nunca se viu um ataque tão descabido, tão sórdido, tão abaixo da linha de cintura à figura da mulher como foi feito pela campanha do candidato adversário. Nossas ilusões nos levaram a pensar numa campanha de bom nível, face ao passado de Serra. Foi um grave engano.
Nunca o nível baixou tanto, e contra uma mulher. E procurando buscar nos recantos obscuros da alma da sociedade brasileira os elementos que suscitassem o ódio, que alimentassem os preconceitos, que suscitassem a raiva contra a mulher, contra todas as mulheres, e especialmente contra aquelas que eventualmente tivessem que recorrer ao aborto.
E a chamaram despreparada, e a chamaram teleguiada, e quiseram-na sem vida política, e a denominaram terrorista, como se terroristas fossem todos os que resistiram à ditadura. E semearam mentiras, e fizeram milhões de telefonemas clandestinos com toda sorte de calúnias contra ela.
E ela ganhou. Ganhou a grande mulher que é Dilma, que soube superar uma doença, que não se abalou com a sordidez que se alevantou contra ela, e se torna assim a nossa primeira presidente mulher. As mulheres do Brasil estão em festa. E os homens também. Há um caldo de revolução cultural na eleição dessa mulher. Os homens viverão uma experiência nova: a mulher que sempre soube cuidar dos filhos e da casa, e que nunca deixou também de viver intensamente a vida pública, irá agora dirigir os homens e mulheres do Pais, cuidar com imenso carinho de todo o povo brasileiro, acelerando o processo de distribuição de renda iniciado com tanta firmeza pelo presidente Lula.