domingo, 13 de setembro de 2009

Diálogos Possíveis: Lúcio Flávio Chaves Holanda


Algumas provocações para Lúcio Flávio Chaves Holanda, pesquisador e escritor, autor de Um retrato em branco e preto (2004), livro sobre o Ceará Sporting Club que se tornou uma importante referência sobre a história do futebol cearense. 


Talabarte - Você acompanha futebol há quase 40 anos. Qual a sua reação diante de argumentos como "o futebol foi perdendo o brilho", "hoje não se fabricam mais craques como antigamente", "o futebol de outrora era mais bem jogado", etc?

Lúcio FlávioO tempo não para..., 39 anos que acompanho futebol e quase 50 de idade... não há como negar: Estou ficando velho! E um dos sintomas de quem está avançando na idade é dizer que “não se fazem mais coisas boas como antigamente...”. É tudo verdade! Quem viu Zé Eduardo, Edmar, Serginho “Amizade”, Artur, Samuel, Da Costa, Amilton Melo, Lúcio Flávio, Chinesinho, Louro, Croinha, Mimi... (pra não falar numa outra porção deles) jogar – o futebol de hoje não tem mais brilho algum. Os meias, volantes e zagueiros de hoje não calçariam as chuteiras de nenhum jogador que citei anteriormente. Craques – no verdadeiro sentido da palavra – nos dias de hoje, se contam nos dedos. Eu devo ser um dos poucos admiradores do chamado “futebol-arte”, futebol cadenciado, futebol bem mais jogado que esse de hoje onde impera o preparo físico e a correria desenfreada (o chamado futebol força, que o gaúcho Eduardo Bueno tanto enaltece e eu abomino). Prefiro ver uma Seleção Brasileira de 1982, comandada por Telê Santana, que não ganhou o Mundial, que assistir algum jogo da Seleão de 2002, capitaneanda pelo Felipão que ganhou a Copa, mas com jogadores mascarados como Roberto Carlos, Cafu (e Ronaldo, em 2006, gordo que nem uma baleia, dizendo que “estava em forma” e fazendo aquela lambança toda – e por conta deste último Mundial, não quero mais acordo com Seleção Brasileira!).

 

Talabarte - Você é um dos raros pesquisadores sobre a história do futebol cearense. Por que a memória dos nossos gramados desperta tão pouco interesse entre os pesquisadores?

Lúcio Flávio - Se você me permitir discordar, não acho que sou “um dos raros” – tem aí o Alberto Damasceno, o Nirez Azevedo, só o Aírton de Farias tem uns 4 livros. Existem mais pessoas cuidando da memória de nosso pobre futebol que imaginamos. Uma vez em conversa com o Rafael Luis, para uma matéria que ele estava fazendo sobre futebol em um jornal de nossa cidade, ele me falou que existem (salvo engano...) pra mais de 30 livros narrando histórias do futebol cearense. Embora concorde que isso é pouco para um assunto tão vasto e que conta muito de nossos costumes. Mas, talvez, isso tenha a ver com a falta de vontade de ler dos torcedores, de um modo geral. Às vezes acho que os torcedores se limitam a lerem as colunas diárias dos cronistas esportivos – que tem mais fofocas (do tipo “liguem os fios” ou “há alguma coisa no ar”...) que fatos. Escrever um livro com mais de 200 páginas dá trabalho. São meses a fio coletando dados, checando datas (e mesmo assim, enganos acontecem), fazendo a difícil escolha do que vai entrar e do que vai ficar de fora, até o fechamento final da publicação. A gente que faz algum tipo de pesquisa e quer que esse material chegue às mãos dos torcedores, muitas vezes, ficamos com a sensação de que somente “uns gatos pingados” (entre eles, os amigos) vão ler. A maioria dos torcedores se ligam no momento atual de seu time, acho que eles não dão a devida importância para a história/memória que esta merece. Acho que se eles demonstrassem uma maior avidez por leitura, talvez os pesquisadores escrevessem mais... não sei se é por aí, mas acho que tem um pouco disso - falta de interesse em ler (em tempo: atualmente, tem uma amiga – a Jô de Castro – que está fazendo uma tese de doutorado sobre futebol e eu fiquei surpreso com a relação de títulos escritos sobre futebol nos últimos 10/15 anos que ela me mostrou... mas, não tratam muito de história, estão mais na área da sociologia, da antropologia... mas isso é ótimo!).

 

Talabarte - Quais as principais dificuldades para um pesquisador que, como você, atua na contra-mão dessa tradição de esquecimento?

Lúcio FlávioO material em si. Quando ele está em biblioteca pública – e a Menezes Pimentel tem um ótimo acervo – está um pouco deteriorado, não por falta de cuidado dos funcionários... mas por conta dos usuários: eu fiquei pasmo em ver folhas de jornais arrancadas (literalmente), outras riscadas de caneta (o que é que se passa na mente de um indivíduo desse?). Um crime à nossa memória! Isso é lamentável. E quando está nas mãos de particulares, alguns criam dificuldades para mostrar, num afã de achar que “só eu possuo esse material e ninguém mais”... Qual a importância de se guardar informações, privando as pessoas em geral de ter acesso a elas? Eu prefiro que o pouco que possuo fique ao alcance de quem mostrar interesse (teve um particular que, uma vez ao procurá-lo para pesquisar em seu arquivo, na véspera de minha ida à sua casa, ele me ligou dizendo que “não havia encontrado o material”... estranho, não?!... quando eu liguei ele deu o “ok”, mas quando ia consultar seu material ele preferiu “guardar para si”... não fui eu que perdi com isso, foram os torcedores em geral, porque seria um material que iria ser publicado). Resumo da ópera: quando o material não está danificado, está muito bem guardado.

 

Talabarte - Você é autor de um livro e de uma revista-livro sobre o Ceará Sporting Club. Que particularidades você destacaria na história do clube? O que faz do Ceará o Ceará?

Lúcio FlávioMinha resposta não vai ser exatamente o que você perguntou, vou fazer diferente. Vou contar uma história que, talvez, ajude a responder a última indagação. O primeiro jogo que fui no P.V., eu tinha 10 anos, fui levado por um tio torcedor do “Ferrim”, o time-da-estrada-de-ferro possuía um verdadeiro esquadrão – mas, já aquela época, a maioria de seus torcedores eram pessoas idosas (com radinho de pilha no ouvido e levando uma almofada embaixo do braço), conversavam mais entre si que assistiam o jogo. Posteriormente, outro tio me levou para ver algumas partidas do “Leão do Pici”, a gente ia pras cadeiras cativas. Mesmo criança, eu percebi algo na torcida tricolor que não me agradava: quando o “Leão” fazia um gol, sua torcida se voltava para os torcedores do outro time e fazia aquele aceno com a mão acenando, dizendo: “Podem ir embora, pobreza!... que vocês hoje vão apanhar é de goleada!...”. Achava estranho eles darem mais valor a menosprezar a torcida adversária que comemorar o gol feito por sua equipe. Quando fui ver um jogo do “Alvinegro de Porangabuçu”, tudo mudou. Quem fez essa diferença foi a torcida. Enquanto a do “Ferrim” era de senhores carecas, barrigudos e de camiseta; a do “Leão” era de pais com seus garotos bem banhados e excesso de talco no cangote, que não queriam muita proximidade com a ralé; a do “Vovô” era a alegria em forma de gente – cheia de papudinhos, desdentados, magricelos, camisas rasgadas... mas, por tudo fazia festa. Quando o time fazia um gol, a alegria era geral. Abraçava quem não conhecia, ria de felicidade, era um carnaval nas arquibancadas. Essa imagem foi a que guardei. Quando eu cresci é que compreendi que aquela mundiça era o “povo”. A torcida era de gente do povo. Talvez seja isso uma das coisas que faz do “Ceará ser o Ceará” – uma de suas particularidades: Quando o time ganhava um campeonato, a cidade se modificava. O povo, a raia miúda, ia pra rua. Era toda uma enorme massa a comemorar. Quando outro time ganhava, “the day after”, a cidade já tinha voltado à sua rotina diária e parecia que nada tinha acontecido.


Talabarte - Qual o melhor jogador que você já viu em ação em nossos estádios?

Lúcio Flávio - Essa resposta é pêi-bufe: Zé Eduardo. Noutros assuntos, é difícil escolher um único nome – na música, no teatro, na dança... quem é o melhor cantor, quem é omelhor ator... – mas, ao vivo, “in loco”, no velho P.V. véi de guerra, meus olhos sempre vão procurar pelo “Super-Zé”... pena que não vão encontrar outro igual.

 

Talabarte - Qual o pior?

Lúcio Flávio - Aí não dá pra dizer quem é o... essa não dá pra responder num único nome. Mas um dos piores que vi jogar (se é que isso é possível!?!... já que era tão ruim mesmo) foi um volante que passou há pouco tempo pelo “Alvinegro de Porangabuçu” chamado Pansera (até o nome é de lascar...), esse não deixou saudade! Queria saber quem foi que indicou esse cara?!?... só pode ter sido por sacanagem ou querer lascar o clube.

 

Talabarte - A favor ou contra as torcidas organizadas?

Lúcio FlávioPor favor, escreva minha resposta em caixa alta, negrito e sublinhado: EU SOU RADICALMENTE CONTRA!!!... Quem vai pra estádio pra brigar em vez de curtir o jogo, merece é cacete da polícia! Mesmo que não pareça (pelo que acabei de dizer), mas sou totalmente a favor dos “direitos humanos”, completamente favorável ao “princípio da dignidade da pessoa humana”... Não acho que causas/problemas sociais devam ser tratados como “caso de polícia” – mas, nesse caso da “torcida organizada” (sic!) eu abro uma exceção: Não dá pra ter diálogo com esses caras. Deviam ser proibidos de frequentar os estádios (nada de cadeia pra eles!) – mas depois de comprovação e identificação dos que provocaram tumultos/brigas, deveriam (durante o transcorrer do campeonato) se apresentar em hospitais/abrigos e prestar serviços comunitários durante a realização de cada partida. Tinham que ser extintas como tal “organização” – tentou-se isso em São Paulo através de um conhecido Promotor de Justiça, mas a coisa era mais a nível de “palanque” (tanto que o sujeito se elegeu deputado federal). Quem se “organiza” para brigar, na realidade está mais para “formação de quadrilha” – os sociólogos de plantão que me perdoem... Estou falando com uma visão bem tosca da realidade – a mim, como torcedor, não interessa se há uma disputa de “gangs” de periferia por controle de poder e isso é levado aos estádios; a mim, interessa só ver o jogo... ter a certeza de que se eu for ao estádio, eu vou conseguir voltar pra casa (inteiro). Faz uns 15 anos que não assisto a um “Clássico-Rei”, todo fim de jogo acaba virando uma batalha campal. Eu sou de um tempo em que um torcedor alvinegro passava pelo meio da torcida tricolor (e vice-cersa)... o máximo que se ouvia era uma brincadeira (“cês vão perder hoje!!!...”), mas, nada de violência. Hoje, uma cena dessas é impossível de se ver. Os “torcedores” (sic!) vão pro estádio cantar “vai levar porrada!... vai morrer!...” – isso não é coisa de quem está torcendo por um time. E a polícia (totalmente despreparada para esses casos), em vez de incentivar a “não violência”, ainda piora... Vi uma matéria de jornal, com a fotos de 2 torcedores (um com a camisa alvinegra e o outro com a camisa tricolor), que combinaram de assistir o jogo juntos nas cadeiras inferiores (onde não tem “organizada”), como forma de mostrarem que por torcerem por times rivais eles não precisam ser inimigos entre si: Pasme!... um policial foi lá e mandou que os mesmos “se separassem” porque ele “não queria confusão pra cima dele...” – dá pra acreditar nisso?... Os caras dando um exemplo de pacífica convivência (e isto deveria ser incentivado mais vezes!) e a “polícia” indo na direção contrária... Torço pra ver o dia em que não mais haverá torcida organizada nos estádios.

 

Talabarte - A crônica esportiva em nosso estado é mais torcedora do que crônica. Isso é bom ou ruim?

Lúcio FlávioIsso é pra lá de ruim, é péssimo! E é a mais pura verdade, a gente sabe até quem-é-quem (que torce pelo “Vovô” ou pelo “Leão”). Ainda tem uns que dizem abertamente que “torcem pelo I Love you, Ferrão” – me engana que eu gosto!... Se o cronista torce por algum time, como ele pode ser imparcial?... Teve um “comentarista”, que durante certo tempo se passou por “analista de futebol” em um programa local – fazia a pinta de bom-moço, ponderado, tentava ser imparcial, mas era difícil de se acreditar porque se sabia que ele era conselheiro de um dos times de nossa capital... Em “off”, posteriormente, um repórter setorista me disse que a pessoa “pagava” para participar do programa, para ser “comentarista”. É preciso separar as coisas: uma é ser cronista; outra, é ser torcedor.

 

Talabarte - Eleito presidente da CBF, qual seria sua primeira ação?

Lúcio FlávioAcabar com esse horário de jogo às 21:50h que isso é sacanagem com o torcedor!... Quando terminar a partida, o cara vai pegar ainda 2 ônibus pra chegar em casa talvez pelas 2 da madrugada... isso, se chegar vivo ou se não for assaltado. Mas, nem eu vou ser eleito presidente da CBF nem ninguém vai contrariar a Rede Globo de televisão que não aceita mudar o horário de sua novela - o torcedor que se lixe!... (talvez ela raciocine assim: Não se precisa de torcedor para o negócio do futebol”, os clubes não se sustentam mais só com as rendas, mas sim com os patrocínios das empresas... então, a presença do torcedor hoje é desnecessária!). Agora, que o Ministério Público fica totalmente omisso diante de uma questão dessas (afinal, é a segurança das pessoas que está em jogo!), como ele faz diante das confusões causadas pelas torcidas “organizadas” – isso é um fato, e, lastimável!... Como diz um desses “cronistas” de plantão: “Acorda, Ministério Público!”. Não faça de conta que isso não tem nada a ver com vocês. Tome uma atitude, faça alguma coisa de concreto.

Um comentário:

Vanessa disse...

Fico um tempo sem aparecer por aqui e quando volto só encontro coisa boa, gente boa (Lucio e Enrico)....tá mandando bem hein Cabeça!
Beijo e parabens