quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O palhaço dos reis


Nos Estados Unidos, o formato “stand up” fez a glória de nomes como George Carlin - que ridicularizava a boçalidade religiosa de seus compatriotas - e Lenny Bruce - um pioneiro que, diz-se, morreu de “overdose de polícia”, tantas e tão recorrentes eram suas prisões ao deixar o palco. Geralmente motivadas pela paranoia moralista da época. Os dois foram reis entre os palhaços, pela coragem e pela inteligência.
Rafael Bastos, que bebeu nessa fonte e foi um dos que transformaram o gênero em moda por aqui, sempre pareceu tentar seguir a trilha desses ídolos. Mas, por viver em outro país, com uma história já de si politicamente incorreta, lastreada por um atávico espírito colonialista e escravocrata, confundiu coragem com agressão gratuita, espírito crítico com graça compulsória. E humor, nos lembra Chico Anysio em entrevista à Carta Capital, “deve visar a crítica, não a graça. Ele vai ser engraçado onde puder”.
No caso de Bastos, suas performances nunca lograram uma coisa nem outra: nem a crítica nem o humor. Ainda assim, suas diatribes – que incluíam a defesa do estupro de mulheres feias – eram saudadas por seus pares (inclusive os de bancada do CQC).
Mal sabia ele que os ultrajes e a suposta contestação ao patrulhamento do politicamente correto eram apenas a embriaguez e a prepotência de um jovem diante de uma falsa concepção de liberdade. Aquela que “só existe no abuso da liberdade sem freios, sem regras, sem respeito pela liberdade do outro”, no dizer do sociólogo José de Souza Martins.
Questionamentos como a representação do Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo ao Ministério Público não lhe renderam maiores problemas. Mas eis que “Rafinha”, de forma desastrada e grosseira, ousou mexer com os “coronéis”, com os dos donos do dinheiro. Acabou demitido e teve contratos cancelados. Descobriu que, para usar a expressão de Millor Fernandes, em vez de rei dos palhaços (como o foram Bruce e Calin) era apenas um palhaço dos reis.

Artigo publicado no Jornal O POVO, edição de 13 de outubro de 2011.

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