sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A ditadura dos outros


Não foi pouca a gritaria em torno da viagem de Lula a Cuba. Como sói acontecer nos setores mais conservadores da imprensa, a visita do presidente brasileiro a Fidel e o silêncio diante da morte de um dissidente do regime cubano que se encontrava em greve de fome foram amplamente condenados por um coro de colunistas e analistas que entoaram em uníssono a cantilena de que há pesos e medidas diferentes no trato de nossa diplomacia, que teria mais ou menos rigor "humanista" de acordo com a coloração ideológica do regime totalitário de plantão.
Ora, a mesmo imprensa que afirmou que o Brasil viveu não uma ditadura, mas uma "ditabranda"; os mesmos colunistas que sabotaram o debate sobre o golpe militar em Honduras e a respectiva crise democrática envolvendo o ex-presidente Zelaya; os mesmos editores que acompanham com cara de vaca pastando a política externa americana e sua intromissão em assuntos "democráticos" de outras nações; os mesmos articulistas que fizeram implodir a "comissão da verdade" proposta pelo recente Plano Nacional de Direitos Humanos e mantiveram os arquivos militares intactos.
Convenhamos, há muito pouca honestidade intelectual em jogo.

A Stasi manda lembranças
Os jornalistas que temem a abertura dos arquivos militares brasileiros e contribuíram para o fim do debate em torno da "comissão da verdade" poderiam folhear a história da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, os fantasmas que habitavam os armários da versão comunista do nosso SNI foram exorcizados num amplo museu aberto à visitação pública em Leipzig. Lá, é possível saber de ótimas histórias sobre as barrigadas da Stasi no ocaso do comunismo na Alemanha.
Uma delas dá conta de que as passeatas dos opositores ao regime comunista ganhou força com a presença dos espiões e agentes da polícia secreta. A onipresença da Stasi era tal que eles iam disfarçados às manifestações de rua para acompanhar os passos de seus investigados e acabavam aumentando significativamente o número de "manifestantes". Resultado: o que era uma dezena de pessoas gritando contra o regime acabava virando vinte pela presença dos agentes infiltrados. A grita pareceu maior do que realmente era e o movimento contestador ganhou uma força que, a priori, não tinha.
Outra boa história: quando os alemães orientais tentaram invadir a sede da Stasi nos dias que se seguiram à queda do Muro de Berlim, eles eram recebidos por agentes que, embora não pudessem conter a invasão, eram de tal modo acostumados com a burocracia da polícia secreta que pediam os documentos aos invasores. O mais engraçado é que os invasores, tão acostumados a ser monitorados pelo regime da Stasi, apresentavam os documentos pedidos pelo guarda.
O ótimo "A vida dos outros" (2006), de Floriam Donnersmarck, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, trata das ações da Stasi.

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