segunda-feira, 8 de julho de 2013

Eles, os vândalos



Boa parte da crônica e da classe política teve enorme dificuldade em lidar com os recentes protestos pelo País não só em função de suas reivindicações difusas. Mas também por ter de encarar uma alteridade igualmente difusa em seu perfil. Um dos maiores pesadelos do homem moderno decidiu ir às ruas: o outro. E não havia um rosto disponível. Nem mesmo a tradição sebastianista de nossa cultura se fez valer: não havia salvadores nem mártires à mão.

Havia anarquistas de diversos matizes e aproveitadores de diferentes origens. Mas havia (e há), sobretudo, o estudante que passou a ter um novo padrão de exigência em relação ao País, a partir da melhora de sua própria condição de vida. O adolescente que experimentou as ruas e a discussão política pela primeira vez. O jovem da periferia, em seu desabafo violento contra a mesma polícia e a mesma institucionalidade que lhe esculacham diariamente nas sombras do tal estado de direito.
Entre tantos outros.

Desse caldo heterogêneo, emergiu a figura do “vândalo”, da “minoria baderneira”, apanágio de certa cobertura midiática ao lidar com essa alteridade sem rosto. A mesma cobertura que não consegue enxergar como tal outros vândalos cuja atuação está na raiz de todo esse “excesso” represado até então. Vândalos como Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, presidentes do Poder Legislativo, despudorados ao fazer turismo em aviões da FAB. Como Garibaldi Alves, ministro igualmente surpreendido custeando seu lazer com recursos públicos. E até, ora vejam, vândalos como Joaquim Barbosa, constrangedoramente flagrado em seus passeios às custas do erário – num dos quais renovou o afeto com o amigo Luciano Huck, apresentador global que é, ora vejam também, patrão de seu filho.

Nos últimos dias, o melhor jornalismo não foi aquele que correu apavorado da anomia dos “vândalos” de rua e se refugiou na comodidade de um imaginário institucionalizado e preconceituoso. O melhor jornalismo tem sido aquele que vem dando um rosto aos verdadeiros vândalos em atividade no País.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O "violêro" de volta a Fortaleza

Elomar: bachianas sertanejas
“Apois pro cantadô i violero/ só hai treis coisa nesse mundo vão/ amô, furria, viola, nunca dinhêro/ viola, furria, amô, dinhêro não”.
O refrão costura as longas estrofes de “O Violêro”, que abre o primeiro LP de Elomar, Das barranca do Rio Gavião, lançado há quarenta anos e já editado em CD. O disco sucedeu o compacto de 1968 e jogou o trovador baiano em definitivo no mundo da MPB. Na bagagem, Elomar trouxe seu violão rebuscado, embalando um cancioneiro que recendia a idade média e aos improvisos dos cantadores nordestinos. No repertório, já antecipava alguns de seus clássicos, como “O pidido”, “Zefinha”, “Cantiga de Amigo” e “Incelença prum amor ritirante”, uma das mais belas músicas da história da MPB. “Quem sabe não vai ser lá, no barato das galáxias e da música de Elomar, que eu vou acabar amarrando um bode definitivo e ficar curtindo uma de pastor de estrelas...”, escrevia um Vinícius de Moraes encantado com a figura caatingueira de Elomar no texto que acompanhava o encarte do disco. Elomar - cuja missão, segundo ele próprio, é “chiqueirar e pastorar, tangerino de ovelhas e bodes” - formou-se arquiteto, é fazendeiro no interior da Bahia e fez 75 anos em 2012. Quem nunca ouviu falar do homem pode, a partir desse disco - e desses shows este fim de semana em Fortaleza -, começar a se apaixonar por seu blues nordestino e suas bachianas sertanejas.


* Por ocasião dos shows de Elomar em Fortaleza, reescrevi, para o jornal O POVO, um texto já publicado aqui nesta porteira eletrônica.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A metamorfose (Poemetes araújos - XXII)

Male and female (1942), de Jackson Pollock

Certo dia, acordou
saudoso de intensidades
              outrora sonhadas.
Ou, talvez, tenha
despertado após sonhar com
              intensidades já saudosas.
Em si, restou-lhe
abandonar um lar,
trair um país,
              sabotar sorrisos.
Restou esquecer a palavra no altar;
e virar sentido
em busca de altar
para sua palavra.

Quis saber dos atores para além
das cortinas.
Quis saber dos poetas em
suas esquinas.
Rasgou o livro da formalidade.
Restou-lhe ele próprio, saudoso
de um sonho de que já esquecera.
Restaram-lhe essas escaras,
esse vagar pesado,
essas queimaduras de paixão
               de terceiro grau.
Restou-lhe espiar
amores alheios, sem
saber que,
desde antes,
era o amor que lhe espiava:
               pacato, resignado.

Monumento ao soldado morto,
e desconhecido,
perdeu uma guerra que lutou
de trás pra frente.
Médico, fez-se paciente.
E ficou, à mão, sem qualquer verdade.

Resultado:
segue já não tão convicto
em suas dúvidas sobre
a felicidade.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

O velho novo Maracanã



No início era o rádio, mais precisamente a rádio Nacional, que fazia o futebol carioca - assim como o samba - galvanizar o País. Com isso, para algumas gerações de torcedores brasileiros os clubes do Rio de Janeiro eram, ao lado de suas paixões regionais, efetivamente uma paixão nacional. Até os anos 90, raros eram os torcedores que, fora de São Paulo, por exemplo, torciam para clubes paulistas. Até então, salvo as disputas locais, o Brasil parecia se dividir entre os torcedores de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. E os ídolos vinham quase todos de lá: Zizinho, Zico, Garrincha, Roberto Dinamite, Dida, Manga, Nilton Santos, Didi, Gerson, Assis etc.
Todo aquele carisma irradiado nacionalmente a partir do Rio tinha um palco, um templo que calava no coração e no imaginário de todo torcedor; o estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, patrimônio material - e imaterial, pelas suas lendas, histórias e dramas - de todo apaixonado por futebol.
“Maracanã é nossa catedral /E com a Mangueira do seu lado, é bom sinal. /É futebol! /É carnaval! /Paixão igual a do meu povo /Eu não conheço nada igual”, canta Francis Hime na letra de Paulo César Pinheiro. “Domingo, eu vou ao Maracanã /vou torcer pro time que sou fã”, arrebatava Neguinho da Beija Flor. E, durante décadas, o Brasil inteiro, mesmo o torcedor que restava a milhares de quilômetros da Cidade Maravilhosa, “ia junto” com o sambista, com foguetes e bandeiras imaginárias, sagrar-se campeão.
O jogo de hoje entre Espanha e Brasil - para o bem e para o mal - leva novos tempos ao velho Maraca. Os clubes cariocas já não desfrutam do mesmo prestígio em âmbito nacional e vivem em estado pré-falimentar. O futebol, cada vez mais elitizado, virou um business cínico e calculista e a alegria popular da geral foi expulsa da arquitetura corrente. 
A quem serve esse novo gigante de concreto, não sei ao certo. A Copa das Confederações é um torneio atípico e, em sua partida final, certamente vai lotar todos os setores do estádio. Mas fico me perguntando como será a relação entre o estádio e o torcedor em campeonatos “reais”, como os deficitários campeonatos Carioca e Brasileiro.
Jogar no Maracanã era motivo de orgulho para todo desportista. Ser campeão em seu gramado, então, a glória suprema do futebol. Nesta Copa das Confederações, entretanto, atletas espanhois e italianos, por exemplo, já esbanjaram certa indiferença em relação à mitologia e à história do estádio. E mesmo para alguns jogadores brasileiros, tenho lá minhas dúvidas se fará tanta diferença ser campeão no Maraca ou em outro estádio qualquer.
É que a reforma recente, por mais luxuosa (e imoral em seus gastos), fez do Maracanã justamente um estádio qualquer. É o mesmo tipo de estádio que poderíamos encontrar em outros países; e, para completar, ainda bem menor, não mais o maior do mundo. Algo de muito valioso se perdeu junto com seus traços arquitetônicos originais. A partir de hoje, uma nova história começa a ser escrita.
* Texto publicado no caderno de Esportes do O POVO, edição de domingo, dia 30 de junho de 2013

FHC e o chá dos "umbigos delirantes"


A Academia Brasileira de Letras (ABL) – desde muito tempo – deixou de ser uma instituição relevante. Há anos, seu protagonismo se restringe a intervir nas cotações do mercado nacional de vaidades, afagando políticos e empresários. Vigora no casarão da avenida Presidente Wilson uma economia simbólica estéril e anacrônica que deixa para a história não mais que uma embolorada galeria de encômios casuístas. A ABL é a casa da burocracia do elogio fácil; um porfioso Baile da Ilha Fiscal da “inteligência” nacional.
Na semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito “imortal”. Cadeira 36, cujo patrono é Afonso Celso – aquele do Por que me ufano do meu país. FHC, o superlativo de PhD, como definiu Millôr Fernandes. O intelectual que, chegando ao poder, pediu aos brasileiros que esquecessem o que havia escrito. O sociólogo outrora elevado à condição de “príncipe da sociologia”, mas que carrega em seu currículo graves acusações de plágio, sobretudo na formulação da sua “Teoria da Dependência”, cujas ideias centrais teriam sido despudoradamente copiadas de autores como Ruy Mauro Marini. Sem falar em sua “Mein Kampf” tropical, a biografia A soma e o resto, mesmo título de um livro do marxista francês Henri Lefebvre.
Não creio que cada país tenha os “imortais” que mereça. A Academia Brasileira de Letras, há muito, não vive no Brasil real, não dialoga com sua cultura, com seu povo, com os impasses de seu tempo. Prefere convidar “umbigos delirantes” para o chá dos fardões. “O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal e fala pessimamente, as frases se contradizem entre si, é considerado o maior sociólogo brasileiro”, escreve Millôr Fernandes no genial O primado da ignorância, em que demole a escrita do ex-presidente ao analisar seu principal livro, Dependência e desenvolvimento na América Latina.
A história tratou de condenar o FHC presidente ao ostracismo - por seus malfeitos ao País. O FHC sociólogo, o próprio FHC presidente tratara de enterrar. Fico em dúvida sobre qual FHC a ABL tenta ressuscitar agora.
* Artigo publicado na página de opinião no jornal O POVO, edição de 01 de julho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Seja bem-vindo*


Quarta-feira passada, início da tarde. Amigo carioca que reside em Fortaleza vai ao jogo com a esposa e a filha. Desavisadamente, segue de táxi pelo início da Alberto Craveiro para tentar acessar o estádio. Dá de cara com o protesto justo na hora do primeiro conflito entre os manifestantes e a tropa de choque. Protege-se daqui, desvia de lá, se esconde aqui, avança mais um pouco. Mesmo desnorteado e um tanto assustado, depois de um tempo ele consegue chegar à fileira de policiais e mostrar seu ingresso.
“Seja bem-vindo à Copa das Confederações”, diz-lhe polidamente um policial da tropa de choque. Surpreso, meu amigo fica sem palavras diante da gentileza do policial, que, entre pedras, gritos, balas de borracha e gás lacrimogênio, segue com as mesuras. “O senhor siga adiante que logo irá acessar o estádio. Agora, é bom se proteger e apressar o passo porque eles (os manifestantes) estão jogando muitas pedras para o lado de cá. Tenha um bom jogo”.
Meio tragicômico (sim, e é verídico), o episódio serve para ilustrar certa mentalidade da política brasileira, principalmente em suas expressões regionais, provincianas. Muitas das quais, aliás, estão na mira difusa dos protestos que se espalharam pelo País. É o tipo de político que naturaliza nossos impasses e se revela completamente alheio às demandas reais e aos dramas concretos da nossa vida, não raro achando-se acima do bem e do mal. É a mentalidade que segue, indiferente à grita da sociedade, construindo aquários surreais, erguendo pontes inúteis, levantando estádios nababescos.
Noves fora o condenável vandalismo e a patifaria golpista e antipartidária que tentou se aproveitar das passeatas, os protestos da semana passada foram muito positivos, entre outras coisas, por fazer essa grita cotidiana tornar-se ensurdecedora para muitos. Os militantes dessa pós-política encurralaram nossos governantes para que esses passem efetivamente a nos considerar em suas planilhas, a considerar o trato transparente com o dinheiro público, a respeitar critérios republicanos etc. E agora, sim: “doa a quem doer!”. Do contrário, a tendência é que turistas e demais convidados de tais megaeventos continuem a ser recebidos nesses termos surreais.
* Texto publicado na página de Opinião do jornal O POVO - 24 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Dilma e Lula tiveram um filho rebelde?


Por Juan Arias

Ambos foram protagonistas de uma década de governo na que o Brasil se impôs como um país com vontade de mudança real

Dilma encontrou o ex-presidente Lula em São Paulo, após o estouro dos protestos na rua. Qualquer jornalista daria qualquer coisa por assistir o que os dois disseram nesse momento em que o país está em chamas. Ambos foram protagonistas de uma década de governo na que o Brasil se impôs como um país com vontade de mudança real, principalmente no âmbito social, como também no econômico.

O mundo acreditou no despertar do gigante americano, cada vez mais forte no continente e mais integrado na geopolítica mundial.

Até disseram, talvez com ênfase excessiva, que a história do Brasil se dividia em antes e depois de Lula e Dilma, o ex-torneiro sindicalista e a ex-guerrilheira que chegou à Presidência de mãos dadas ao primeiro governante operário deste país.

O Presidente Obama chegou a afirmar que Lula era o político "mais popular do mundo" e hoje em dia dizem que Dilma é a "segunda mulher mais poderosa do planeta".

A magia dos números levou para o mundo quantias invejáveis de progresso: 30 milhões de pobres sentando ao banquete da classe média, um país sem desemprego, um crescimento econômico sonhado na Europa; uma força de confiança mundial conseguiu para o Brasil a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Lula e Dilma eram como aqueles pais que se sentem orgulhosos de ver seus filhos saírem da penúria, colocarem a gravata para ingressar na universidade; levarem no bolso o celular e as chaves da moto, e até do carro.

Os filhos cresceram, conheceram mais coisas da vida e da política que os pais,utilizando muito melhor que eles os endiabrados labirintos da tecnologia da informação moderna.

E começaram a fazer perguntas aos pais. E ousaram até fazer perguntas escabrosas. E, o que foi ainda pior, até discordar deles. Inclusive chegaram ao ponto de reclamar aos pais do que ainda não tinham ganhado, ou porque o que tinham ganhado estava estragado, que o brinquedo não funcionava bem.

O pior de tudo foram as perguntas insolentes, como quase todas as que os filhos fazem aos pais quando crescem. Lula chegou a elogiar o sistema de saúde do Brasil, numa frase que hoje ele preferiria esquecer. Disse que tinha chegado "quase à perfeição", e acrescentou que "no Brasil até dava vontade de ficar doente para desfrutar de um hospital".

Os filhos um dia foram a esses hospitais e viram que era melhor estar saudáveis.

Dilma e Lula sentiram-se orgulhosos diante do mundo quando conquistaram para o país a Copa do Mundo e as Olimpíadas. E dedicaram milhares de milhões de dólares nos preparativos. E explicaram quanta beleza, alegria e turistas esses eventos iriam trazer ao Brasil.

E os filhos que subiam no ônibus, pagando caro, nas grandes cidades, sendo empurrados, alguns tentando entrar pelas janelas, eles com perigo de ser assaltados, elas de ser abusadas sexualmente; em vez de se alegrar com os estádios de primeiro mundo, ingratos, começaram a dizer: "Podemos abrir mão da Copa, mas não de transportes, escolas e hospitais dignos".

Todas essas coisas e muitas mais que apareciam nas manifestações e protestos na rua, algumas ameaçantes, como "vocês não nos representam", devem ter sido examinadas por Dilma e Lula, enquanto o dólar estava subindo e a Bolsa descendo.

Alguns filhos foram tão desagradecidos que pediram na Internet que Dilma saia da Presidência. Até a manhã de hoje mais de 140.000 pessoas já tinham assinado. É como se o filho, que já cresceu e se rebelou, pedisse que os pais fossem embora de casa. Injusto.

Não sei se vamos saber o que a Dilma e o Lula decidiram fazer ou dizer ao filho que se rebelou e prefere morar na pós-política. Ao filho que para protestar e atuar na sociedade não precisa mais aderir o sindicato ou o partido político do pai, ou ir de mãos dadas com ele para se manifestar pelas ruas em contra do patrão.

Ele sabe ir só e livremente. "Não precisamos pertencer a nenhum partido para estar indignados e protestar", podia-se ler esta manhã no facebook.

Em São Paulo, um sondeio revelou que 80% das 65.000 pessoas que saíram às ruas não pertencem a nenhum partido político.

Dilma disse hoje: " O meu governo está atento às vozes que pedem mudanças, está comprometido com a justiça social". E acresceu: "Essas vozes precisam ser ouvidas".

Também os pais quando conversam sobre os filhos que se rebelam e protestam, costumam dizer "Precisamos ouvi-los".

Sem dúvida, Dilma e Lula terão saído do encontro como essa vontade de escutar, de dialogar com os filhos rebeldes. O temor agora é que tal vez esses filhos já não queiram falar com eles. Pode ser que prefiram falar por si mesmos.

É um momento difícil e, ao mesmo tempo, apaixonante, o que está vivendo o Brasil. Os aspectos positivos do protesto, que já abraçam quase o país inteiro, poderiam servir de exemplo aos países irmãos do continente.

Somente as águas paradas que apodrecem. Só nas famílias onde parece viver a calmaria costumam surgir as maiores tragédias.

É melhor gritar do que aguentar a raiva, dizem os psicólogos.

As biografias de Lula e Dilma estão cheias de gritos e raivas.

Ninguém melhor do que eles para dirigir esses filhos rebeldes para um crescimento político que conte com que hoje em dia o mundo é outro, diferente do que eles viveram; que a política não pode se fazer como fizeram eles, mesmo que fosse à base de suor e sangue, e que os filhos querem ser mais protagonistas do que nasce do que enterradores do que já morreu.

E quanto à pretensão perigosa de algumas pessoas de botar os pais para fora de casa, por muito que a política mudasse, em democracia existe somente uma maneira legítima de fazer isso: o voto livre.

O ano próximo os brasileiros irão às urnas.

No segredo do voto poderão resolver os seus conflitos. E que sejam também eles leais com a ética política.

Ontem alguém fez essa pergunta escabrosa, desta vez aos manifestantes: "Por que os que gritam contra os políticos corruptos acabam por votar neles nas urnas?"

Seria um ótimo cartaz para os próximos protestos nas ruas.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A revolta dos crocs


Nota divulgada pelo Governo do Estado para a imprensa - em que sugere que milícias querem se infiltrar na manifestação do próximo dia 13 - acaba de potencializar a marmota que é esse movimento "Fortaleza Apavorada". Algo que tinha tudo para ser mais uma dessas pífias manifestações contra a violência (e nunca a favor da justiça social) - ou, como diz brilhantemente um amigo, a "revolta dos crocs" - acaba de ganhar efetividade. 
Já é um movimento vitorioso, porque obrigou o Governo a fazer seu principal pronunciamento sobre a (in)segurança pública até agora - na nota, o Palácio da Abolição admite que o crime chegou a níveis "intoleráveis" em Fortaleza. E tudo, mais uma vez, pela inaptidão da atual gestão para o diálogo; sem falar, obviamente, na incompetência para lidar com a questão da violência urbana. Qualquer crítica, qualquer contraponto, são sempre vistos pelo Governo como movimentos conspiratórios, articulações políticas sub-reptícias, bandeiras partidarizadas. É a crítica "ad hominem" levada ao paroxismo da paranoia. 
A nota , obtusa, tem o claro objetivo de apavorar ainda mais os "apavorados". A estratégia palaciana para esvaziar a passeata talvez dê certo. Talvez não. A nota pode ter despertado o interesse de quem, até então, estava dando de ombros para o tal movimento. Vejamos... 

Nós que nos amávamos tanto (e amávamos tanto o jornalismo...)



Nós jornalistas vivemos uma terrível esquizofrenia. Teoricamente, por termos curso superior, nos vemos como profissionais liberais; mas, ao contrário de dentistas, arquitetos, advogados, etc, somos obrigados a alienar nossa força de trabalho porque não podemos, afinal de contas, montar um jornal, uma TV, uma rádio para cada um de nós. Por outro lado, as promessas da internet ainda não vingaram como realidade pecuniária. O que temos, por enquanto, é apenas uma farra libertária, que é ótima como (um início de) democratização da informação, mas que ainda não se consolidou como mercado de trabalho.
Pelo menos toda uma geração ainda nos separa de uma nova realidade de produção da informação (independente, liberal e com rendimentos decentes) no mundo digital. Até lá, na internet, com raríssimas exceções, reinará um quase diletantismo. Por ora, seguiremos como funcionários, peões com jornadas de trabalho extenuantes e sob imensa pressão. Seguiremos como trabalhadores de baixa renda, numa profissão que passa por uma histórica crise estrutural; nosso desemprego é estrutural. Há os que se acham algo além por conviverem de perto com os poderosos da política e/ou os donos do poder econômico. São cínicos ou ingênuos. Ou tudo isso junto. Ou coisa pior...
O debate sobre o diploma me parece um falso debate. De um lado, há os que querem nivelar por baixo a discussão e acabar com sua obrigatoriedade - são os que defendem o bundalelê no mercado. Pois penso que devemos nivelar essa discussão por cima e fazer do jornalismo um curso de pós-graduação. Quer ser jornalista?! Forme-se em direito ou economia ou história ou computação ou engenharia ou o que for e faça uma especialização em jornalismo. Isso iria elevar decisivamente o nível da nossa produção e criar uma outra realidade de mercado.
A nosso favor, por enquanto, ainda temos o fato de que somos fundamentais para a democracia e para o chamado estado de direito. Somos fundamentais para restituir ao debate público o espírito crítico. Somos imprescindíveis para dar voz a quem não consegue se manifestar publicamente. Ainda somos... Entretanto, somos todos, indistintamente, proletários. E isso parece nos causar um desconforto, parece criar um tabu, ensejar um recalque que embaça nossa capacidade de articulação e de mobilização. Some-se a isso, como é o caso do Ceará, um sindicalismo pífio e personalista e, voilà, eis o nosso dia-a-dia.
Enfim, sou apaixonado pelo que faço e tenho sincero orgulho de ser jornalista. Seguirei com meu ofício por acreditar realmente nessa missão. Mas talvez daqui a algum tempo tenha de procurar outra profissão para pagar minhas contas e, quem sabe, também custear meu ofício. Como o advogado que é apaixonado pela marcenaria; ou o engenheiro que também é cozinheiro; ou o médico que também é poeta.
Poderei me reinventar (creio que terei de me reinventar) e passar a ser outra coisa, mas seguirei sendo jornalista. Isso me cria enormes problemas e dificuldades, mas me dá uma imensa alegria.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Poemetes Araújos XXI

Um pesadelo
noite adentro;
um grito rompe
a vigília:
risco n'água
nesse Atlântico
imemorial
de solidão.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Spike Jones, um gênio "criminosamente" gaiato


Pelo menos vinte anos antes de, por aqui, os Mutantes satirizarem impiedosamente o clássico seresteiro "Chão de Estrelas", Spike Jones (1911-1965) já era craque na arte de caricaturizar e desconstruir "standards" do cancioneiro norte-americano. Sua orquestra reunia alguns dos melhores músicos de seu tempo e marcou época no teatro, na televisão e no mercado fonográfico - onde produzia suas marmotas na toda-poderosa e pudica RCA Victor. "O fato de a Victor lhe dar carta branca era uma homenagem à sua formidável musicalidade, mesmo que usada para fins criminosamente gaiatos", comenta Ruy Castro em seu Tempestade Ritmos. Um fenômeno que anteciparia em algumas décadas outros geniais desatinos musicais; inclusive por essas latitudes, que veriam nascer zorras como Joelho de Porco, Premeditando o Breque, Falcão e Língua de Trapo.

Poemetes Araújos XX



O que pesa
mais
no alto? Em
pleno vôo,
a dúvida:
a leveza obtusa
dessas toneladas
de aço
com asas? Ou,
solitária,
minha falta
de fé?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O amor segundo Haneke




Apenas agora assisti ao badalado e controverso Amor, de Michael Haneke. Um dos filmes mais humanos e delicados de que tenho notícia. Um libelo sobre o tema que lhe dá nome: amor romântico, mas não afetado; intenso mas gentilmente sóbrio; extraordinário mas arraigadamente cotidiano. O profundo silêncio de sua narrativa me traduziu a calma e a naturalidade diante da vida a que os amantes são tão íntimos. Não é sobre amores de conveniência, mas sobre certa conveniência do amor – expresso em sua mágica renovação na insignificância da rotina. O amor de Haneke é a cumplicidade que atravessa horas de conversas, que traduz olhares, que compartilha secretamente dores, mas primordialmente – e preciosamente – divide alegrias. Não me pareceu um filme sobre eutanásia nem “contra” o amor, como alguns chegaram a escrever. Pelo contrário. O filme celebra a vida, através da relação apaixonada dos dois idosos protagonistas. Diante do ocaso físico de Emmanuele Riva, brilhante em sua atuação, o casal tenta seguir adiante com a normalidade de um cotidiano pontuado de pequenos gestos de amor. Aquém e além dele, há apenas vaidade, rancores, frustrações; há o mundo lá fora do qual os dois não querem notícia. E é quando a doença impede por definitivo qualquer troca, qualquer cumplicidade, qualquer olhar entre os dois – que seguiam amantes delicados mesmo nos momentos mais difíceis do entrecho médico -, que se revela a atitude final. Tudo servirá como rito de passagem para as memórias que seguirão. Nada, a rigor, foi interrompido. O amor é medida certa; ele sabe de si e, em silêncio, sabe que restará.

L'État c'est moi!



Para o filósofo Claude Leforte, o Estado Democrático é sempre maior que o Estado de Direito. Ou seja, experimenta direitos que ainda não estão incorporados ao segundo. É, segundo ele, “o teatro da contestação cujo objeto não se reduz à conservação de um pacto tacitamente estabelecido, mas que se forma a partir de focos que o poder não pode dominar inteiramente”. Vladimir Safatle, em seu inquietante A esquerda que não teme dizer seu nome, faz uma leitura muito produtiva sobre o assunto. Trata-se, portanto, de uma noção a ser sempre tensionada na relação que promove entre a Justiça e o Direito. E, longe de solapar a democracia, lembra Safatle, é algo que a funda e fortalece.

Nos termos correntes da política local, nossa desventura é que esse tensionamento, essa superação, se dá em negativo. Não pelas vias da soberania popular; mas na esteira de comezinhas conveniências pessoais, pelo devir de um projeto de poder e, pior, pela afetação de certos homens públicos. O caso do ex- governador Ciro Gomes, que ocupa uma surreal posição institucional dentro (ou fora?) da Secretaria de Segurança, é por demais emblemático. A (pouco clara) movimentação de Ciro Gomes na Instituição e suas cornetadas públicas são típicas de quem vê a legalidade como algo a posteriori, não a priori. Nessa posição, ele não age a partir dos limites institucionais; mas vai de encontro aos mesmos, redesenhando e distorcendo esses preceitos ao sabor de valores nada republicanos.  

À luz do organograma do Governo, a atuação de Ciro é tão ilegítima quanto serão criminosas, uma vez comprovadas, as supostas milícias que ora denuncia (conseguirá efetivamente provar algo sobre o assunto?). O ex-deputado age como alguém que não suporta a dialética da política e que prefere trocar a palavra política pela palavra polícia (entendida aqui como violência simbólica/estatal). Entre o Estado Democrático e o Estado de Direito, Ciro parece optar pelo Estado de Luis XIV, aquele do "L'État c'est moi". 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Jazz cinco estrelas


Mais do que por sua virtuose, Miles Davis consagrou-se no mundo do jazz por sua atinada capacidade de estimular e agenciar talentos. Em mais de 50 anos de carreira, ele foi um exímio “olheiro” musical, que soube escolher seus pares e pupilos para, a partir deles, reinventar algumas vezes a música ao longo do século XX.

Sua trajetória pode ser contada em capítulos que dão conta dos chamados “grandes quintetos” que teve a seu lado. O primeiro deles, nos anos 50, com quem gravou obras-primas como Kind of Blue (1959) – muito provavelmente o melhor disco de jazz de todos os tempos. O segundo, nos anos 60, com quem Miles viajou o mundo e alcançou um sucesso comercial até então inédito para os padrões do jazz. E, por fim, o terceiro, a chamada “lost band”, já na virada dos anos 60 para os 70, com a qual Miles levou o jazz ao desbunde e à lisergia do fusion.

Em todos eles, Davis aparece liderando um elenco de estrelas da música que, consolidadas as carreiras individuais e as mitologias subsequentes, é difícil de imaginar que um dia tocaram todas juntas. John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers, and Philly Joe Jones, no primeiro quinteto (que, em seguida, teria Cannonball Adderley, Bill Evans e Jimmy Cobb na formação em sexteto); Wayne Shorter, Ron Carter, Tony Williams e Herbie Hancock, no segundo; e Shorter, Chick Corea, Dave Holland e Jack DeJohnette, no terceiro.

Além do time estelar, outro fato é comum a quase todas essas formações: a vida efêmera. Embora tenham escrito páginas eternas da música instrumental, raramente os “ensambles” de Miles duravam mais de um ano. Em geral, bem menos que isso. Exceção feita apenas ao segundo quinteto, cujos quatro anos de existência soaram quase como uma eternidade na carreira do trompetista.

É sobre a turnê europeia de 1967 desse segundo “grande quinteto” que se debruça o primeiro volume de Bootleg Series, lançado em 2011 no exterior e que agora ganha edição nacional. A caixa, charmosa e com um belo material iconográfico, reúne três CDs e um DVD que registram apresentações do grupo em teatros e festivais na Bélgica, Dinamarca, França, Suécia e Alemanha.

Versões
À época, o jazz começava a experimentar certa decadência comercial nos Estados Unidos e o mercado europeu de shows e gravações tornou-se o salva-vidas de muitos músicos. Miles, que não era besta nem nada, ao mesmo tempo em que era sensível aos talentos que lhe brotavam ao redor, comercialmente também tinha um radar afiado – daí seus giros cada vez mais rotineiros pelo Velho Continente e seu diálogo com outras vertentes musicais, como o funk e o rock.

As gravações de Bootleg Series são todas inéditas e foram obtidas a partir de registros de TVs e de rádios europeias. O repertório é formado por alguns poucos “standards”, mas sobretudo por composições que foram (ou seriam) apresentadas nos discos de estúdio do quinteto – álbuns como E.S.P. (1965), Sorcerer (1967) e Nefertiti (1968) -, uma das fases mais brilhantes da discografia de Miles.

A maior parte das músicas se repete ao longo dos shows, a exemplo de “Agitation”, que abre quatro das cinco apresentações da caixa. Cada execução, entretanto, conduzida pela criatividade dos solistas, é carregada de sentidos e destinos particulares.

“Eu nunca me preocupei muito sobre por que ou quando Miles começava a fazer algo em particular; mas penso que ele tinha um acurado senso do que funcionaria na frente de determinada audiência”, afirma Herbie Hancock, no encarte.

A frase seria em parte desmentida pelo próprio Miles, em declaração também reproduzida no encarte: “Eu nunca penso sobre a audiência. Eu só penso sobre a banda. E se a banda está bem, eu sei que a audiência está satisfeita”.

Seja como for, o fato é que Miles, no centro do encontro, proporcionou um dos grandes momentos da história do jazz. Coisa de um genial “treinador” que, no mais das vezes, nem precisou entrar em campo para fazer seu time jogar um partidaço.

* Matéria publicada no caderno Vida & Arte (jornal O POVO), edição de 28.03.2013

quinta-feira, 14 de março de 2013

Um ateu observa a escolha do novo papa



Acompanhei o noticiário sobre a escolha do novo papa motivado por um interesse que é muito mais “cultural” do que religioso. Ateu não-praticante (porque não concordo com certo proselitismo ateísta/agnóstico corrente em nossos dias), não consigo deixar de me sensibilizar e de me emocionar com a percepção da centralidade da fé na experiência humana de tantas pessoas. Tem sido assim desde que descobri que as mitologias religiosas não repercutiam em mim como narrativas de transcendência ou de “salvação”, mas “apenas” como manifestações da cultura – posição pessoal e intransferível que, no entanto, não me impediu de me encantar com tantos rituais religiosos que acompanhei como repórter e editor.
A renúncia de Bento XVI reafirmou a força e a influência da religião no chão dos nossos dias. E me fez lembrar de um texto do teólogo Bernard Lauret, publicado recente pela revista Cult, em que ele restitui a Ratzinger um protagonismo admirável no âmbito do debate cultural. Resgatando discursos e debates em que Bento XVI tomou parte, mostra como ele foi um sacerdote que, no âmbito da crítica cultural, soube “sublinhar a complementaridade entre razão e fé”. “Ele não condena os ganhos do Iluminismo no que concerne à liberdade de consciência, à ‘coexistência de diferentes culturas religiosas’ e à separação entre estado laico e religião. Em revanche, recusa que somente os critérios da razão iluminista sejam capazes de julgar a legitimidade das tradições religiosas”, diz Lauret.
De fato, se não é suficiente analisar as manifestações da cultura apenas com os critérios religiosos, porque aí o olhar corre o risco de ficar embotado pelo fanatismo e outras “doenças” da religião; seria de se estranhar que um homem tocado pela experiência religiosa conseguisse discernir o mundo apenas pelo viés da razão. Para Ratzinger, não existe fé pura, independentemente de uma cultura. Mas o contrário, para ele, também é verdadeiro. “A missão cristã não tem por objetivo transplantar o cristianismo ocidental (fé e cultura mescladas) em outras culturas cuja dimensão religiosa seria ignorada. Essa abordagem das culturas por suas relações mútuas necessárias e o respeito das diversas tradições religiosas relativiza, de um só golpe, o cristianismo sob sua forma ocidental, e eleva ao mesmo tempo a figura de Cristo, Lógos semeado por toda parte”, defende Lauret.
Não me preocupa, portanto, se o novo papa vai ser mais ou menos conservador, mais ou menos radical ; mas se saberá conduzir sua instituição por um caminho em que a palavra de ordem não seja o “choque” de culturas e religiões. Nem o choque de direitos. Mas a tolerância e o diálogo.
Ele pode até defender que Deus não seja tirado definitivamente da vida pública. Mas terá de conviver com (e amar) “vidas” e “espaços” públicos em que o seu deus não arbitrará.

* Texto publicado no caderno especial Francisco, um novo começo publicado no jornal O POVO (14.03.2013)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A arte de estentar fachadas




Ao saber da queda de parte da estrutura da entrada do Hospital Regional Norte, em Sobral, lembrei do verso de um poema com que me deparei recentemente na Internet – cuja autoria não consegui confirmar. “Essa fachada de rocha,/ por dentro é areia movediça”, diz a poesia. E pensei em como nossa política é, em grande medida, a “arte” de ostentar fachadas.

Os semioticistas e psicanalistas de plantão talvez consigam explicar esse traço de nossa cultura. Mas o fato é que, mais do que em qualquer outra seara do debate público, é no simbolismo dos pórticos, monumentos, inaugurações e outras liturgias do gênero que nossos governantes gastam a maior parte de suas energias - e do nosso dinheiro. Um expediente que é um fim em si mesmo, um simulacro em que o “parecer ser” é (sempre) mais importante do que o “ser”.

Voltando ao caso do acidente em Sobral, penso como nosso atual governo do Estado é um típico exemplo dessa obsessão por fachadas, dessa prioridade pelo continente em detrimento do conteúdo. O hospital em questão, todos lembram , foi inaugurado com um show nababesco da cantora Ivete Sangalo, mesmo sem ter condições de funcionamento por falta de funcionários. E na mesma época em que centenas de cearenses restam à míngua no “piscinão” do HGF.

O caso é apenas um de uma longa lista de contradições semelhantes. Temos, por exemplo, as viaturas policiais mais luxuosas do País, mas vivemos uma assustadora epidemia de violência urbana. Temos também um estádio ostentador que não serve aos clubes do futebol local. Teremos em breve um aquário (!) à beira-mar enquanto milhares de sertanejos sofrem com uma seca dramática. Temos delegacias com fachadas modernas, mas condições medievais de acomodação dos presos - sem falar nas fugas recorrentes. Temos um pomposo Centro de Eventos que não previu uma passarela de acesso para os pedestres. Entre inúmeras outras estultícias.

E assim seguimos. Entre fachadas imponentes a esconder a terrível “areia movediça” da incompetência, do fisiologismo e do provincianismo.

* Artigo publicado na página de Opinião do Jornal O POVO, edição de 18.02.2013

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Joshua Redman



O virtuosismo, a surpreendente criatividade para melodias e arranjos, e uma paixão que transpira a cada compasso fazem de Redman um de meus herois de uma geração que sacodiu o chamado "west coast jazz" nos anos 90. Essas marcas pontuaram seu trabalho não só naquele momento, mas ainda hoje fazem de Redman um dos compositores e intérpretes mais intensos do cenário do jazz. Independente da "coast" em questão...

Mais sobre o cara, aqui.


 

Desejo de Natal*



Meu caro Papai Noel, essa nossa conversa é, decididamente, uma impossibilidade. Já há muito tempo, não acredito em você. Se é que algum dia, convenhamos, acreditei. Sinceramente, não lembro. Eu não acreditando, você, em contrapartida, pode se considerar desobrigado de me considerar.

Afinal, como considerar alguém que não acredita em você? E não falo aqui no sentido de lhe achar honesto ou mentiroso. Mas de lhe achar crível, de lhe entender como uma possibilidade, um devir. Não, meu caro. Acreditar em você, numa altura dessas, é algo que realmente não convém.

A nosso favor, e a favor dessa missiva, entretanto, essa desconsideração mútua nos liberta de qualquer tipo de pudor ou melindre e nos leva à franqueza completa um com o outro. A franqueza, afinal, é a medida de nossa indiferença em relação ao outro.

Para mim, você é, como o Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, alguém que, perdão pela redundância, não existe e, pior, que não sabe muito bem o que quer ser. Qual o Agilulfo derivando-se entre a banalidade de seus atos supostamente nobres e importantes, supostamente heroicos, te vejo como um cavaleiro errante a derivar-se numa noite onírica, mítica, arrebatado por tantas falsas alegrias e por tanta hipócrita solidariedade.

O Aniversariante do dia deve também estar muito incomodado com essas cínicas sentimentalidades que brotam ao fim de cada ano – mas com Ele a conversa é mais complexa e sofisticada. Com você, o papo é reto.

Tu vais ficar terceirizando a culpa alheia até quando? Se eu fosse você, pegava tuas renas e seguia na contramão dos espíritos para jogar toda essa hipocrisia de volta na cara dos caretas. Essa turma que dá carrinho e bonequinha pra criança carente no fim do ano, mas é a favor da redução da menoridade penal e da pena de morte. Que reclama da segurança, mas que, no dia-a-dia, se lixa para o que acontece nas nossas periferias.

Essa turma que fala que o Brasil é um país injusto, mas adora criminalizar movimento social. Que brinda o julgamento do mensalão, mas conta vantagem por sonegar imposto e não sabe se socorrer sem privatizar o que é público. Que defende a democracia, mas compra voto.

Que diz que ama ou odeia Fortaleza, mas não sabe da Cidade mais do que seus muros e engarrafamentos.

Como diria Tom Zé, é uma turma que faz suas orações uma vez ao dia e depois manda a consciência, junto com os lençóis, para a lavanderia. Todo ano é a mesma coisa. E aí, no fim das contas, na hora do aperto final, lá vem você socorrer os falsos moralistas. O velhinho trazendo luzinhas, trenós e presentinhos pra tudo ficar lindo. Seria apenas engraçado, não fosse melancólico. Ou trágico mesmo. Você realmente não existe!

Cazuza pedia piedade. “Senhor, piedade!” Pra essa gente careta e covarde. Eu peço franqueza. Em nossa cidade, em nossos empregos, em nossos círculos de amizade, em nossas famílias. Em nossos amores. É duro, amigo, mas é assim.

A franqueza também é a medida de nosso compromisso em relação ao outro. É a medida da nossa coragem.

* Texto publicado no jornal O POVO - edição de 24.12.2012


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Fascistada reunida

Gilberto Dimenstein menstruando na FdSP sobre um baiano assumir a secretaria de cultura de Sampa. "São, São Paulo, quanta dor!" E aí alguma coisa acontece no meu coração, pra citar outro baiano que de lá sabe tanto. E de nós sabe tanto também, por vias tortas. Penso o quanto estamos retrocedendo. E fico inquieto, aflito mesmo, com esse caldo neo-conservador-religioso-babaca-direitista-intolerante a nos levar a algo muito pior. Fascistada reunida. Do Morumbi a Atenas, via Fortal também. Fascismo de pobre dura pouco? E o cara fica naquela de "meu pai é cearense, minha mãe é baiana, meu avô é alagoano...". É que nem o lance do "tenho tantos amigos homossexuais". Preconceito recalcado. Alô Joaquinzão, "menino bom"! Pondo os lençóis da consciência da Casa Grande na lavanderia, não é malandro? Nessa altura do jogo, rapá?! Esse papo já tá qualquer coisa... Por ora, na mesma Folha, Xico Sá repõe alguma lucidez ao big picture.

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/12/11/sp-precisa-sim-importar%C2%B4-gente-de-toda-parte/

domingo, 25 de novembro de 2012

Mr. P.C

Paul Chambers, o Mr. P.C. da música de Coltrane.

Alta Ajuda


Entrevista publicada com o ensaísta Francisco Bosco (jornal O POVO, caderno Vida & Arte, edição de  10 de novembro de 2012

O critério é ético. No sentido colocado por Espinosa, da ética como um modo de vida destinado a “encontrar os afetos da alegria e evitar os da tristeza”. Foi, portanto, mirando a alegria que Francisco Bosco escolheu os textos que compõem seu novo livro, Alta Ajuda, coletânea de ensaios publicada pela editora Foz. “Uma das tarefas de hoje é discernir entre certa euforia compulsória (do tipo animadores de auditório) e a verdadeira alegria, em presença da qual é a totalidade da vida que se afirma”, ele explica em entrevista ao O POVO. Munido desse compromisso, ele selecionou 35 textos – entre os mais de 200 ensaios publicados ao longo dos últimos seis anos em jornais e revistas de todo o país – nos quais percorre problemas e situações comuns do cotidiano com a sensibilidade analítica, a engenhosidade estilística e o repertório teórico que marcaram seus livros anteriores, como o ótimo Banalogias (2009). Doutor em teoria da literatura, o flamenguista Bosco encontrou em Barthes, objeto de sua tese na UFRJ, a principal referência para olhar o cotidiano entrelaçando grandes e pequenos temas: do esvaziamento das relações amorosas ao (des)prazer de viajar, da paixão pelo futebol às indiscrições do facebook. “Minha proposta é a de abordar com espírito filosófico os problemas da existência cotidiana, comuns a qualquer pessoa. A essa proposta, José Miguel Wisnik chamou, certa vez, de alta ajuda”, ele explica na apresentação do volume. “Conforme atesta o título do livro, assinei embaixo”.

O POVO - Qual a diferença entre o Francisco Bosco autor dos textos publicados em jornais e revistas e o autor que reescreveu “impiedosamente” – como você explica na apresentação - esses textos para o livro? Francisco Bosco - A felicidade da forma é perfeita; a da ideia, imperfeita. Quando se conquista a forma, ela é irretocável (um soneto de Shakespeare, um concerto de Mozart). Mas as ideias são sempre retocáveis, elas se aproximam infinitamente (da realidade? Da verdade?). Portanto a diferença entre as ideias que publico originalmente no jornal e o modo como elas aparecem no livro é que nesse último elas estão mais aprimoradas.

O POVO - Na apresentação do livro, você explica que há um critério ético para a seleção dos textos - no sentido dado por Espinoza, que entende a ética como um modo de vida destinado a “encontrar os afetos da alegria e evitar os da tristeza”. A alegria é uma força revolucionária para nossos dias? Francisco - Penso que existe sim um potencial revolucionário na alegria. O poder opera por meio do medo. O medo é uma forma de tristeza, como diz Espinoza, e a tristeza deixa os sujeitos sob controle. Mas uma das tarefas de hoje é discernir entre certa euforia compulsória (do tipo animadores de auditório) e a verdadeira alegria, em presença da qual é a totalidade da vida que se afirma.

O POVO - No ensaio “O Rei contra a realidade” (sobre as manias e a religiosidade de Roberto Carlos) você escreve que o idealismo religioso, seguido radicalmente, conduz a um recalque dos aspectos incômodos, porém constitutivos, da realidade. No Brasil, é evidente um acirramento de radicalismos de diversas ordens nesse campo. Qual a repercussão desse processo em nosso pensamento crítico? Francisco - Um dos modos de responder a essa pergunta é considerar que o fundamentalismo religioso é uma reação à angústia da liberdade, como diria Sartre. A época moderna é aquela do desmoronamento de todas as certezas. Ora, não é todo mundo que suporta um mundo aberto, pois é mais cômodo para o sujeito acreditar em princípios imutáveis e segui-los à risca. É uma forma perigosa de infantilidade e covardia, como se sabe. Penso que se deve lutar contra isso com todas as forças.

O POVO - Em sua origem, a imprensa libertou a educação do monopólio da Igreja, separando a figura do “homem de letras” da figura dos sacerdotes e fazendo o conhecimento circular para fora das bibliotecas dos mosteiros. Desde então, os meios de comunicação ajudaram a redefinir e a remanejar o papel do intelectual na sociedade. Quem precisa mais de quem em nossos dias: o jornalismo, dos intelectuais? Ou esses daquele? Francisco - Idealmente falando, imprensa e intelectuais cumprem a mesma função, fundamental para a democracia: fomentar o dissenso, propor novas ideias, impedir os excessos dos poderes constituídos. Na prática, a relação entre ambos é mais complicada. Um dos problemas é que o jornalismo passou a operar demais dentro de uma lógica da informação (superficial e de entretenimento), enquanto os intelectuais vivem sob a lógica do pensamento, que é densa, lenta, angustiosa. Eu, que me vejo constantemente entre essas lógicas, sei bem o quanto elas se estranham.

O POVO - Harold Bloom defende que “a verdadeira utilidade de Shakespeare ou Cervantes é aumentar nosso próprio eu crescente. O diálogo da mente consigo não é basicamente uma realidade social. Tudo o que podem nos trazer é o uso correto de nossa solidão, cuja forma final é nosso confronto com a mortalidade”. Você nada contra essa corrente e parece propor não a solidão, mas os encontros, a “afetividade da alegria”. Estou correto? Francisco - Eu concordo que a utilidade do cânone é “aumentar nosso eu crescente” (embora a frase seja um pouco redundante). Mas penso que isso tem consequências para a “realidade social”. Prefiro viver numa sociedade cheia de sujeitos pensantes, do que numa repleta de cabeças opacas. Isso tem consequências para a vida social. E talvez pudesse ter um impacto forte sobre o que considero a maior tragédia do Brasil, que é não se pensar coletivamente, como uma verdadeira sociedade, cujo bom funcionamento depende do respeito mútuo, do engajamento de todos.

O POVO - Teu trabalho como escritor é inegavelmente marcado por tua formação universitária e, no entanto, teus ensaios conseguem quebrar um tipo de postura insular que é recorrentemente denunciada entre os intelectuais da academia. Qual é o teu olhar para essa relação entre o ambiente universitário e o mundo fora da universidade? Francisco - Penso que é muito importante que a Universidade cumpra um papel, digamos, impopular: que nela se realizem pesquisas árduas, linguagens difíceis, pensamentos ambiciosos. E também é importante que haja ensaístas como eu, que proponham uma disseminação de ideias em maior escala quantitativa. A Universidade hospeda o risco da esterilidade e de uma hipertrofia teórica afastada da realidade. Mas escritores como eu convivem com o risco de limitar a intensidade de suas ideias por conta da proposta de um diálogo mais amplo. Hoje, especialmente, é preciso tomar cuidado com certa ideia de democratização: as experiências da arte e do pensamento podem deixar de ser elas mesmas quando submetidas a esse processo. E aí de nada vale democratizar algo que não vale nada.

O POVO - Por fim, como alguém tão “lúcido” pode ser flamenguista? (A pergunta foi feita em tom de brincadeira, mas o próprio Bosco insistiu para que fosse publicada) Francisco - Todo sujeito é feito de identificações, algumas “primitivas”, como dizia Freud, e outras formadas ao longo da vida (amigos, ideias etc.). Essas identificações estão sujeitas a mudanças: mudamos de ideias, de amores, de amigos. Só não mudamos de time. A identificação com um time é primitiva e costuma ser mediada pelo pai. Isso explica que a escolha de um time nada tem a ver com lucidez ou racionalidade. Como de resto todas as identificações primitivas e boa parte das que ocorrem na vida adulta. O problema, no caso, não é a falta de lucidez, mas a impossibilidade de romper a identificação. Nada é mais estranho e interdito para nós do que romper a identificação com um time: nem mudar de partido político, nem de religião, nem mesmo de sexo.

SERVIÇO Alta Ajuda O quê: novo livro de Francisco Bosco Editora: Foz (160 páginas) Quanto: R$ 34,90

Trecho 
“Roberto Carlos , então, descobre-se impedido por essa força estranha no seu psiquismo de falar e cantar certas palavras. (...) Na canção “É preciso saber viver”, o verso ‘se o bem e o mal existem’ chegou a ser substituído por ‘se o bem e o bem existem’. Não se trata de uma mera troca de palavras: é toda a dimensão negativa da experiência humana que é recalcada. O estreitamento da realidade tem como consequência necessária o estreitamento da arte. O que havia em Roberto , e que o fez merecer o título de Rei da juventude, e depois simplesmente Rei, na medida em que suas canções traduziram a experiência humana madura nos anos 70, o que havia, e se perdeu, era a aceitação da realidade. Não se pode ser artista recusando-se a olhar para ela”.