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quarta-feira, 19 de novembro de 2014
A reta (poemetes araújos - XXIX)
A reta é
a menor distância
entre duas certezas.
Dela, sabe-se,
mornamente,
da falta de desvios,
de ângulos,
de perspectiva.
Ela, a reta, que nunca
nos deixa
olhar de lado,
nem de
um lado
para o outro.
A reta só.
Divide.
Vaidosa,
é rastro de si mesma.
E de própria
monotonia.
A reta é o caminho mais
breve, para se
evitar
duas perguntas.
As fundamentais:
início e fim?
Mais felizes
e ardentes,
os que
sobraram -
e insistem
em arder e sobrar -
na curva.
Arquitetura (poemetes araújos - XXVIII)
(Para Romeu Duarte e Ronaldo Salgado)
Não sei do traço
nem da urdidura
da arquitetura
contemporânea.
nem da urdidura
da arquitetura
contemporânea.
Mas sei que,
se um dia,
meu barracão
idealizar,
quero um pequeno
cantinho
com generosa vista
para o bar.
se um dia,
meu barracão
idealizar,
quero um pequeno
cantinho
com generosa vista
para o bar.
terça-feira, 22 de julho de 2014
Os espinhos de Gaza (Poemetes Araújos - XXVII)
Em Gaza, as crianças,
mudas, telepáticas,
estão gritando de dor.
As meninas, cegas,
estão suplicando
aos nosso olhos:
o horror.
Os palestinos sentem
o vômito,
a delinquência,
a cirrose,
sentem o peso
da mesma mão
invisível
que outrora ergueu
rosas radioativas
sobre outros povos.
Essa mão
estúpida
agora
ajuda a despejar
espinhos de liberdade,
milhares, milhões de
espinhos de uma
tirânica liberdade,
sobre inocentes,
esperando decerto
o momento inexato para
se servir de novas
antirrosas atômicas.
Em Gaza, desde a época
da Rosa de Hiroshima,
todo um povo está tendo
sua rota alterada.
Rumo ao extermínio.
Em lenta agonia,
numa suíte anti-musical
regida pela mentira.
Enfim, pensem.
E esqueçam essa poesia.
Não é possível a poesia.
Não é possível Vinícius.
Ninguém dormirá hoje.
Não é possível dormir em Gaza.
Nem fora dela.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
A imagem (poemetes araújos - XXVI)
(Para Iana Soares)
Falta à imagem,
não a tela ou o
espelho.
Ela que é seu próprio
reflexo.
Tampouco falta-lhe
pensar-se
como luz, escrita.
Seu conceito e suas tramas
querem mais
é desarrumar o coro dos signos
e transbordar
em outras grafias,
outras
imagens.
Falta-lhe,
o registro inefável
do desejo de
registrar-se.
A imagem nunca
estará pronta:
é ponto de partida e chegada.
A imagem nunca perdoa
o desejo.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Vigilante (Poemetes Araújo XXV)
Nossa esfinge
tupiniquim
mira o mundo.
Do alto de um lindo
dorso,
intransponível
hieróglifo.
Lança seus olhos,
escoltada pela
enorme "boca banguela".
E dispara ao visitante:
devora-me ou te
decifro.
(P.S. - Foto de Steve Berg)
sábado, 3 de maio de 2014
Deserto (poemetes araújos - XXIV)
![]() |
| Foto: Fábio Lima/O POVO |
Fortaleza, esse deserto dos tártaros.
Ficção fora de lugar.
Lugar fora de si.
A não-cidade, fronteira morta:
Ceará.
Latitude irrelevante,
abandonada a humores de
pequenas políticas.
E políticos pequenos.
Eles, sim, reais,
inteiros no busto de
suas rotundas ignorâncias
(no plural, porque é cretinice demais).
Vigilantes e diligentes na
truculência e na
barbárie:
cotidianas.
O que é nosso é apenas
esse projeto de ruína.
Aqui, a regência faz-se verbo.
Dos "reizinhos".
Essa ausência:
de sombras, árvores e leveza
é estratégia,
é crime
de memória remota.
Da época do "sabe com que umbigo você está falando?"
As linhas certas sempre
erram tua escrita torta.
Tristes tópicos, tristes trópicos
urbanos.
Fortaleza.
O tempo aqui
é um corruptor.
Nato.
Tua civilização é inviável.
É sempre natimorta.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Ano novo (poemetes araújos - XXIII)
Da carne, a faca
sabe
apenas a
vontade de ser
corte
e entrega.
Da faca, a carne
sabe
apenas a
vontade de ser
fio
e posse.
Da noite,
apesar da carne
e dos cortes,
sabemos
apenas
a vontade
de alguma
luz.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Poemetes Araújos XXI
Um pesadelo
noite adentro;
um grito rompe
a vigília:
risco n'água
nesse Atlântico
imemorial
de solidão.
noite adentro;
um grito rompe
a vigília:
risco n'água
nesse Atlântico
imemorial
de solidão.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Poemetes Araújos XX
O que pesa
mais
no alto? Em
pleno vôo,
a dúvida:
a leveza obtusa
dessas toneladas
de aço
com asas? Ou,
solitária,
minha falta
de fé?
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Poemetes araújos - XIX
Apesar de tudo,
apesar de tanto, de tanto tempo. Apesar desse outrora em mim, dos erros velosos
e das confusões
buarques,
meus e de
tantos eles -
pequenas
e indecisivas
postas.
Por querer
firmar essa luz,
descobrir poesia
percorrendo
intensidades dela,
em carne
e beijo,
em (mais)
amiga e
parceira, maior
e mais
bela que este.
É de luz Buenos Aires,
e será margem
de nosso instante.
E apesar desse
sempre,
nosso tango.
Apesar e por
isso.
Ao amor, ao meu
amor, a ela: ergo meu "GilGal em Bethania".
domingo, 11 de março de 2012
Poemetes araújos XVIII
![]() |
| Miguel Rondón - Aqui e agora (2010) |
Carrego certo
orgulho de meus
erros.
Aqueles que me põem
em perspectiva, os que sabem
bem de mim;
e por mim optaram.
Descaminhos, encruzilhadas,
decepções: propostos ao tempo.
Trago-os sempre
no alforje outrora
rouco de
minha garganta.
Carrego certos erros
de meu orgulho.
Aqueles que não me
inteiram, me duvidam,
me incompletam.
Há, porém, inegável hipocrisia e
almas pequenas
a cortejar nossa travessia.
Mas preferi seguir: experiência.
Em que pese.
Resisto não
mais
às imprecisões do instante.
Este oceano inteiro
que me navega.
Esse oco da palavra,
vagando entre silêncios.
Nem menos nem mais
do que eu, meço a grandeza
do agora.
Há, por demais,
o vivido e o por viver
embotando o nosso sorriso:
quero o aqui e agora.
Meus erros também - aqui e agora.
Sento-me à mesa e
faço os brindes devidos.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Poemetes araújos XVII
Mataram o professor,
governa a dor.
Mas parece
não temos que:
tempo para
seu drama.
E matarão outros:professores, engenheiros, médicos e
garis, taxistas, motoristas e
homens de bem.
Desvastarão famílias
à luz das melhores fotografias
e álbuns de lembranças:
terceira margem
da vida.
Mataremos, nós,
uns aos outros.
O sangue será
servido em falsas
tigelas de prata
aos comensais do rei,
genros e amigos
e acólitos da farsa.
A impunidade dos salões
e colunas sociais é a mãe
de todas as impunidades
e todas as putas.
Triste Ceará esse
que troca de tiranos
ao subir e descer das marés.
E constroi aquarios
para celebrar seu
atraso, sua
indigência.
Querem sufocar o grito
da família, filhas e futuro.
Mas há cordas que não cessam de vibrar;
nelas residirá alguma melodia
e resistência.
Sei porque quero que
elas existam.
Ai de ti Benfica,
essa ilha urbana
de esperança
cercada de indiferença
por todos os lados.
Que não seja em vão.
Que não sejamos vãos.
domingo, 3 de julho de 2011
Poemetes araújos - XVI
O nome dela.
Nome e sobrenome.
Fibra!
Mãe da minha filha,
ela: filha, mãe, mulher
e amor.
É bela e linda e bela
do começo ao fim,
Verbo e advérbio.
Adjetivo não lhe supõe,
posto que sua luz
é substantiva.
Traço de ternura e humanidade.
O que poderíamos ser.
Não fomos.
No altar do que virá, ficarei eu:
a insegurança e o medo.
Se não fomos, ainda ela
soa o melhor
concerto de Brahms,
o melhor solo de Coltrane,
o melhor samba de
Paulinho,
a melhor voz de Roberto
Ribeiro, meu herói.
Ela, heroína.
Tempos diferentes os nossos:
Problema meu, que
hei de me agarrar com toda poesia
possível para dar conta
do sorriso dela.
Não deu a gente.
Pena.
Mas sempre, ela, o farol.
Fartura de ser:
Gente.
Eu, ateu.
Ela, sobre patins.
Irradiando esperanças para algo que venha.
Sentido que venha.
Verbo que venha.
: e que tem Luisa.
Espelho.
E luz!
Dela.
Obrigado: por tudo.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Poemetes araújos - XV
Amor é medida certa.
Nem obsessão, que no fanatismo
a gente esquece por que
se gosta.
Fanatismo é um meio em si mesmo,
sem início nem fim.
Amor é início e fim.
Nem também pudor,
que quem não rasga o coração,
já diz o poeta,
não tem perdão.
Não se pode ter medo do salto,
da vertigem de se estar perto,
corpo e alma na vereda.
Amor é centro,
é precisão,
calma diante do vendaval.
É o dia,
não sabe de minutos,
não dilui-se na peneira dos segundos:
é o firme!
Amor não chega nem sai,
ele é a sala, o durante.
Não é o bebê, a moça ou a mulher:
é ela.
Luisa.
E seu sorriso confirma
tudo que é vida
no meu peito.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Poemetes araújos - XIV
Tempos hostis,
celerados:
Em que os sentidos não se assentam
Não decantam
Porque já há alguém batendo à porta
vendendo um novo dia
E nem um novo dia
raiou direito.
Tempos imprecisos,
de permanente modulação:
em que se plantando,
nada dá,
apenas vento
e folhas de cor inatingível.
Porque já há alguém batendo à porta
vendendo novas sementes
E nem a chuva chegou ainda.
Tempos sombrios.
Mas há Arvo Pärt e
sua música,
arquitetura de silêncios amplos
e espaços demorados,
a nos oferecer um abrigo.
celerados:
Em que os sentidos não se assentam
Não decantam
Porque já há alguém batendo à porta
vendendo um novo dia
E nem um novo dia
raiou direito.
Tempos imprecisos,
de permanente modulação:
em que se plantando,
nada dá,
apenas vento
e folhas de cor inatingível.
Porque já há alguém batendo à porta
vendendo novas sementes
E nem a chuva chegou ainda.
Tempos sombrios.
Mas há Arvo Pärt e
sua música,
arquitetura de silêncios amplos
e espaços demorados,
a nos oferecer um abrigo.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Poemetes Araújos - XIII
Não querem ser bons,
mas pós-modernos.
Não querem ser solidários,
preferem dizer amém.
Não querem o sol,
apenas o raio.
Não querem ser velhos,
preferem-se ridículos.
Não querem o tempo,
mas a falsa glória.
Não querem a busca
nem estrelas nem caminho,
nem ritmo nem passo,
querem o muro apenas.
Não querem,
aceitam.
Não choram
nem rasgam o coração,
preferem o sorriso menor.
Há os que nem gostam de ser,
apenas têm.
Também não querem ser utópicos,
mas cínicos.
Há os que têm a boca cheia de dentes,
e o coração embotado.
Querem ser exatamente aquilo que são,
mas, se for o caso,
também preferem
ficar aquém.
O que dá no mesmo.
mas pós-modernos.
Não querem ser solidários,
preferem dizer amém.
Não querem o sol,
apenas o raio.
Não querem ser velhos,
preferem-se ridículos.
Não querem o tempo,
mas a falsa glória.
Não querem a busca
nem estrelas nem caminho,
nem ritmo nem passo,
querem o muro apenas.
Não querem,
aceitam.
Não choram
nem rasgam o coração,
preferem o sorriso menor.
Há os que nem gostam de ser,
apenas têm.
Também não querem ser utópicos,
mas cínicos.
Há os que têm a boca cheia de dentes,
e o coração embotado.
Querem ser exatamente aquilo que são,
mas, se for o caso,
também preferem
ficar aquém.
O que dá no mesmo.
sábado, 6 de novembro de 2010
Poemetes Araújos - XI
Embaço, cheiro de palavra não-dita.
Cada qual se vira na cama
e acorda:
em dias diferentes, em vidas diferentes.
Na casa, o sorriso de Leila Diniz é
ofensa
grave.
Todas as ofensas do mundo.
O desterro é virado pra dentro,
para a sala de estar.
No cabide, os sonhos,
secos e molhados,
esgarçados pelo sol
e pelo sereno,
servem apenas
de decoração.
Ali,
entre o jeans e o casaco,
entre o disco de
Coltrane e o livro
de Calvino,
está o retrato do menino
que ia mudar o mundo:
se um amor supremo numa noite de inverno.
Meio de perfil, meio constrangido.
Seus dentes combinam com o novo jogo
de travesseiros.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Poemetes Araújos - X
Minhas esperanças já não dobram
o eixo desta luz.
Não enviesam manhãs
nem
sugerem tardes oblíquas.
Meu peito até
parece
se conformar
com o anverso retilíneo
desta noite.
Não se pergunta:
de que tinta, de que matéria,
este amanhecer?
Não quero a cidade;
o sertão, não quero.
Não há mais sertão nem cidades possíveis.
Sou movido apenas
pela gravidade, fecundando
de horas esse
leito morto: espuma terçã
de pedras, Jaguaribe.
A canção que não há;
a pintura que não há;
a poesia que não há.
Ceci n'est pas une poème!
Mas ainda há o pandeiro,
meu couro rasgando essa tristeza
e fazendo tilintar em platinelas
a vontade de superar a pedra,
de superar o bicho,
de superar o Jaguaribe.
Importa;
cultura é: distanciamento
da natureza,
o homem inventando o homem,
criando novas medidas,
novas tristezas,
para se suportar.
o eixo desta luz.
Não enviesam manhãs
nem
sugerem tardes oblíquas.
Meu peito até
parece
se conformar
com o anverso retilíneo
desta noite.
Não se pergunta:
de que tinta, de que matéria,
este amanhecer?
Não quero a cidade;
o sertão, não quero.
Não há mais sertão nem cidades possíveis.
Sou movido apenas
pela gravidade, fecundando
de horas esse
leito morto: espuma terçã
de pedras, Jaguaribe.
A canção que não há;
a pintura que não há;
a poesia que não há.
Ceci n'est pas une poème!
Mas ainda há o pandeiro,
meu couro rasgando essa tristeza
e fazendo tilintar em platinelas
a vontade de superar a pedra,
de superar o bicho,
de superar o Jaguaribe.
Importa;
cultura é: distanciamento
da natureza,
o homem inventando o homem,
criando novas medidas,
novas tristezas,
para se suportar.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Poemetes Araújos - IX

Amizade é
sem gramática:
sem gramática:
transitiva direta
e sempre,
conjugando o verbo sorrir
na primeira pessoa
do plural.
Seu sujeito é o outro,
todos os predicados
do mundo.
Enreda-se em olhares,
no suor,
no suor,
força do abraço, gol e câncer.
Entranha-se,
inunda presenças
e revela
e revela
a seca da saudade.
Percorre vales da memória:
avança, escorre
entre dentes e lágrimas,
entre facas e cortes.
Espelho translúcido
que Narciso não acha feio.
O aqui e agora possível;
não lamenta o que se foi,
a amizade pode reconstruir o tempo vivido
com a luz juvenil
da orgia e da esperança.
Amigos olham o sol nascer
com a senhorial crença
no inacabado.
Amizade é fraternidade esculpida nas areias do tempo,
afirma incertezas e
canta
inconcretudes
para proclamar Dionísio,
árbitro do amanhã:
acalenta a ilusão,
de, em definitivo, estarmos todos
juntos.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Poemetes Araújos - VIII
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