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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Das Redações

"Encaretadas por manuais de doutrina e comportamento, adestradas pela conduta neoliberal dos anos 1990, quando passaram a responder diretamente pelas demandas do Departamento Comercial, as redações brasileiras se desprenderam da ação política, dos movimentos sociais, do protagonismo histórico a favor dos direitos humanos e da luta contra a desigualdade. Passaram, sim, a reproduzir um universo medíocre de classe média, supostamente a favor de uma modernidade pós-muro de Berlim, onde bradar contra privatizações e a adoração ao deus mercado passou a ser encarado como esquerdismo imperdoável e anacrônico".

Leandro Fortes, jornalista, em seu blog.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Geraldo Carneiro


à semelhança
de outras noites
recordar palavras estranhas
de um velho refrão popular
à semelhança
de outros ritos
reconstruir seu ruído
escorpião ao redor da cama
à semelhança
de outros cantos
imaginar estrelas
alimentar os signos da noite
à semelhança
de outras luas
iluminar seu sono
encarcerado atrás de janelas
à semelhança de outros
sonhos
inventar a felicidade
que construímos continuamente
mesmo sem saber
que cada uma de suas muralhas
supõe a seguinte e a anterior

Poema "Muralha Chinesa", de autoria de Geraldo Carneiro

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Joca Reiners Terron

"ao longo de treze anos
minha ex-mulher guardou
folhas de árvores em meio
às páginas dos livros
que eu lia

eu nem percebia
desde então ao me deitar
e abrir um livro na cama
aquelas mesmas folhas caem
em meu rosto
tiram meu sono

à noite é sempre outono"

Via blog do autor do poema, Joca Reiners Terron

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Flávio Aguiar


"Às vezes é preciso abandonar o barco,
A luta, o carrossel, o circo inteiro,
E partir como ave migratória para o norte
Em busca de terras de verão e sol,
Mas quando isto for preciso
Que se faça com rosto limpo,
A face descoberta e voltada para a frente,
Que não haja mentiras nem tristeza.
Queimem-se as lembrancas, quebrem-se
As garrafas; enterrem-se cinzas e cacos.
Seja-se até os ossos mais frágeis
Uma ave migratória: a volta existe
Mas é outra história, e não desculpa
A permanência no ponto de partida."

Flávio Aguiar, poeta, tradutor e professor gaúcho, autor de Sol (1972) e Outros poemas (1997).

sábado, 18 de setembro de 2010

Eucanaã Ferraz


"Abra-se tudo
em grande-angular:

alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram

em salas abertas, salões,
e o que se fechara

antes desabroche
numa sucessão de estrelas

em pleno dia claro.
Abra-se o teto

do planetário, abra-se
o coração do fogo

e nele toda dor
torne a nada e

nada lhe resista
e por onde passe alastre

sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.

Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto

alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar

a mesma sandália
que as palavras e os gestos

dela, alas
a ela, que, assim

alta,
como que vai

descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes

e do medo, largando
na sua valsa

um rasto só de beleza.
Alas a ela".

"Valsa pra Graça", de Eucanaã Ferraz. Poema retirado do livro Cinemateca (Cia. das Letras, 2008)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Jorge de Lima


"Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.

Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.

Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.

Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha."

Anjo daltônico - Jorge de Lima

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fanatismo


"O fanatismo consiste em redobrar o próprio esforço quando nos esquecemos do objetivo". George Santayana (1863-1952), filósofo hispano-norte-americano.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Tudo é botequim!


"Tudo é botequim. Os esnobes podem torcer o nariz, mas esse conceito, além de instigante, tem antecedentes ilustres. O cristianismo nasceu ao redor de uma mesa em Jerusalém, com treze homens bebendo vinho e trocando provérbios. Na Idade Média, as melhores famílias europeias se estratificaram batendo canecos em volta de uma mesa redonda e limpando a boca com as costas da mão. Sem a boemia literária dos cafés do Palais Royal, talvez não houvesse a Revolução Francesa - foi de lá que, meio zuzus, eles saíram para derrubar a Bastilha. E o próprio Lenin deu tchau ao botequim defronte à sua casa, o Cabaré Voltaire, em Zurique, onde jogava xadrez com os dadaístas, e pegou aquele trem rumo à Estação Finlândia".

Ruy Castro, em trecho do livro Carnaval no fogo (Companhia das Letras). A imagem acima é do genial Lan.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ode Pacífica (José Paulo Paes)


Levei comigo um punhal,
Com mãos firmes, cautelosas,
Como se leva um segredo,
Como se leva uma rosa.

Assim armado, enfrentei
As emboscadas e os crimes.
Nos corredores do ódio,
Combati, gritei, perdi-me.

O punhal me dominava,
Fascinava-me a revolta.
(Vivemos presos à chave
Que em sigilo nos solta.)

Mas um dia de verdade,
Que nega todo punhal,
Pôs brisas na minha face,
Furtou-me às vozes do mal.

Agora, dora, a teu lado,
Estou sempre a recompor
Essa verdade tão simples,
De que me torno senhor.

Simples verdade de amor.

"Ode Pacífica", de José Paulo Paes. Na imagem acima, registro da performance "I like America", de Joseph Beuys.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mino e o País que FHC quebrou


No editorial de sua Carta Capital desta semana (a capa acima é de uma edição de fins dos anos 90), Mino Carta compara os governos Lula e FHC, conferindo ampla vantagem para o petista. Além de resgatar pontos vexaminosos de uma entrevista concedida pelo ex-presidente à então revista mensal em 1994 - em que FHC chega a dizer, nada mais nada menos, que o político, embora não deva necessariamente mentir, "tem de omitir" -, Carta resgata em rápidas pincelas o que foi o governo do tucano.
"Seguiram-se oito anos de governo tucano. No período, o Basil quebrou três vezes, o prórpio presidente (FHC) incumbiu-se da tarefa de desvalorizar o real depois de se reeleger à sombra da bandeira da estabilidade, da qual se apresentava como pai. Cuidara, para conquistar o segundo mandato, de comprar votos no Congresso. O país, em contrapartida, foi posto à venda. Por pouco a Petrobras não acabou nas mãos das célebres irmãs do petróleo. Negócios gigantescos foram fechados a todo custo a favor de empresários escolhidos a dedo. (...) O Brasil crescia à média anual de 2,5% com todas as consequências deste falso avanço", escreve o editor de Carta. E conclui: "A comparação entre os governos de FHC e Lula é inescapável. (...) Todos os números mostram que o governo que agora se despede saiu-se infinitamente melhor do que o anterior".
Como o Brasil - nem pessoas como a ex-petista-neo-tucana Soninha, pelo visto - não tem na extensão de sua memória uma de suas virtudes, vale conferir o texto de Mino.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Israel: a culpa e o cartório


O trecho abaixo é do artigo Israel without clichés, do historiador Tony Judt, publicado no New York Times e reproduzido no Brasil pelo Globo no último domingo. Uma proposta de discussão para além das (cada vez mais risíveis) desculpas de praxe e das facilidades acusatórias que contaminam o debate, muito mais matizado do que querem fazer crer os dois lados envolvidos na questão.

"Israel não é responsável pelo fato de que muitos de seus vizinhos mais próximos tenham negado longamente seu direito de existir. A sensação de cerco não deve ser subestimada quando tentamos compreender a qualidade delirante de muitos pronunciamentos de Israel.
Previsivelmente, o Estado adquiriu hábitos patológicos. Desses, o mais prejudicial é o seu habitual recurso à força. Como isso funcionou por muito tempo — as vitórias fáceis dos primeiros anos do país estão enraizadas na memória popular — Israel considera difícil conceber outras formas de responder.
E o fracasso das negociações de Camp David em 2000 reforçou a crença de que “não há ninguém para conversar”.
Mas há. Como as autoridades americanas reconhecem internamente, mais cedo ou mais tarde, Israel (ou alguém) terá que conversar com o Hamas. Da Argélia francesa à África do Sul, passando pelo IRA, a história se repete: o poder dominante nega a legitimidade dos “terroristas”, reforçando assim as suas mãos, para depois, então, secretamente negociar com eles e, finalmente, admitir o poder, a independência ou um lugar na mesa. Israel vai negociar com o Hamas: a única pergunta é por que não agora".

sexta-feira, 5 de março de 2010

O descomeço do verbo


"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a 
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer 
nascimentos - 
o verbo tem que pegar delírio".

Manoel de Barros, em O livro das ignorãças

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O destino


"No campo do azul vem o verão
plantar as suas nuvens.

Na cidade imperfeita
vem o dia
plantar a sua luz:
No mármore morto
dos viadutos.
No verde novo 
depois das chuvas.
Na cinza que ameaça os monumentos.

Num lance de dados se planta o destino.
O destino: a previsão da náusea dos espaços.
O destino
destruidor de nuvens.
O destino 
levando vantagem".

O destino, poema de H. Dobal, poeta piauiense.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Digo sim


Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a assamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
meu vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela
– digo sim

Digo Sim, Ferreira Gullar

P.S. - O grande poeta virou um articulista conservador e obtuso. A cada domingo é um suplício cada vez maior ler seus textos nos jornais. Mas ainda digo sim a muitos de seus poemas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os justos


"Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo."

Jorge Luis Borges, Os justos

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A luta passageira dos apáticos

"Uma das figuras mais originais e características da nossa era é a do revolucionário profissional, como foi definida pelos bolchevistas no começo do século. O militante inteiramente consagrado à atividade política, materialmente sustentado por uma organização partidária, a que em princípio deve dar adesão completa, obediência sem reservas, todo o seu pensamento e a sua ação, não devendo, como um clérigo, ter outro compromisso. A esses homens, formados segundo a mentalidade exclusivista das seitas, o nosso tempo deve algumas das realizações mais espantosas, tanto as redentoras quanto as atrozes. 
Mas é também interessante o tipo oposto, do homem sem qualquer compromisso com a revolução, que frequentemente é até contra ela, e no entanto nalgum período ou apenas nalgum instante da vida fez alguma coisa por ela: uma palavra, um ato, um artigo, uma contribuição, uma assinatura, o auxílio a um perseguido. Se fosse possível computar esses fatos ocasionais, essas atividades temporárias, talvez resultasse um total imenso de forças. Por isso, é atraente investigar os atos discordantes dos conformistas, os atos radicais dos conservadores, os períodos de lucidez revoltosa dos desinteressados, as lutas passageiras dos apáticos". 

Antonio Candido, em "Radicais de Ocasião" (ensaio incluído no volume Teresina Etc, da editora Ouro sobre Azul)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Konstantinos Kaváfis


"A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal"

Konstantinos Kaváfis, Jura

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Céu embaixo

"Janelas, escancaradas janelas do décimo sétimo andar, aqui vou eu, aqui vai toda essa minha nossa estúpida vontade de apagar a luz, única maneira decente de apagar a dor".
Paulo Leminski, Céu Embaixo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Tatibitate espiritual


"Pode o Deus onisciente, que/ sabe o futuro, encontrar/ a onipotência de/ mudar sua idéia futura?" Karen Owens.