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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O avesso do avesso do avesso


"Só tocando em frente ao espelho". Para o pai do pequeno Francisco Soares de Araújo, que mais tarde viria a se consagrar no mundo do choro como o legendário Canhoto da Paraíba (foto acima), esse era o único jeito de ensinar ao filho os mistérios do violão. Mas as lições acabaram nunca acontecendo. Primeiro pela dificuldade em transpor as escalas e as bordoadas para o violão invertido de Chico Soares, que, como todo canhoto, empunhava o braço do instrumento no sentido de seu ombro direito (mas sem inverter as cordas, ao contrário da grande maioria dos canhotos). E depois pela própria genialidade do filho, que desde muito cedo solava cheio de ginga os choros e as valsas de Pixinguinha, Jacob e Ernesto Nazareth. Resumo da ópera (ou do choro): Canhoto aprendeu tudo sozinho, desenvolvendo em seu violão "pelo avesso" um estilo absolutamente particular de execução.
"Ele começa a surpreender no momento em que empunha o violão, pois, como a maioria dos canhotos, é obrigado a inverter a posição do instrumento. Só que não altera a disposição original das cordas, como era de se esperar. Em conseqüência, seu aprendizado não seguiu nenhuma escola violonística e acabou desenvolvendo uma técnica toda particular de execução que, aliada a um senso harmônico-melódico incomum, faz dele um instrumentista excepcional e extremamente original", define o crítico Ruy Fabiano no encarte do LP Canhoto da Paraíba: com mais de mil. O disco, já relançado em CD, foi produzido por Paulinho da Viola, que ao lado de nomes como Jacob do Bandolim e Ernesto Nazareth, é um dos grandes admiradores da música de Canhoto, a quem chegou a dedicar um choro.
Antes de Canhoto da Paraíba, seu homônimo paulista, Américo Jacomino, o Canhoto (1888-1927),  assombrou a Pauliceia com seu estilo gauche ao violão e,  também sem inverter as cordas, foi um dos responsáveis pelo "enobrecimento" do instrumento (até o início do século XX, considerado um acessório para malandros e bandidos) e por sua aceitação na sociedade paulistana. A projeção de Canhoto era tamanha no circuito de concertos (e shows circenses) de São Paulo que consta que o próprio Romeo Di Giorgio, por volta de 1910, teria lhe presenteado com um instrumento construído por encomenda para sua mão esquerda.
Além do paraibano e do paulistano, há na música brasileira outros canhotos famosos que acabaram "corrigindo" o estilo ao violão, Guinga e Baden Powell entre eles. Nesses casos, foi aplicada a doutrina (meio sectária) segundo a qual (e segundo alguns professores de música mais ortodoxos), se não há violino, cello ou piano para canhotos, também não poderia haver violão invertido. Mas isso é uma outra (longa, enfadonha e inócua) discussão...

É bem improvável que Jimi Hendrix, que também era canhoto, tenha algum dia ouvido falar em Chico Soares e seu violão invertido. Pior para Hendrix. Mas o fato é que o maior guitarrista de todos os tempos empunhava seu instrumento da mesma maneira que o gênio paraibano. E também sem inverter as cordas. Embora usasse e abusasse de alguns "periféricos" da guitarra, chegando a reinventar funções para pedais, caixas e alavancas, era o fato de tocar seu instrumento "pelo avesso" que lhe permitiu desenvolver um estilo único como guitarrista. Desse modo podia, por exemplo, pressionar todas as seis cordas de sua Stratocaster apenas com a parte de cima de seu polegar, tocando bases e solos simultaneamente, entre outras "feitiçarias" musicais.
Embora a história da música registre outros guitarristas canhotos famosos, como Kurt Cobain (Nirvana); Tony Iommi (Black Sabath), que também não possuía as pontas de dois dedos em sua mão direita; Eric Gales, Dick Dale, Albert King e Otis Rush, ninguém foi tão influente como Jimi Hendrix. Pelo menos não ao ponto de consolidar uma escola específica que influenciou a canhotos e destros indistintamente. No Brasil, Edgard Scandurra (Ira!) é outro canhoto que toca sua guitarra às avessas, sem inverter as cordas, a la Hendrix. Não à toa freqüenta periodicamente o posto de melhor guitarrista do País.
Abaixo, um vídeo com Canhoto da Paraíba no programa Ensaio da TV Cultura (dica enviada por twitter por um grande violonista cearense, David 7 Cordas), escoltado por ninguém menos que Paulinho da Viola ao cavaco e César Farias (pai de Paulinho) ao violão.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O virtuose e o evangelho



No próximo dia 26 de setembro, completa-se uma década da morte de Baden Powell. Em julho de 1999, quando de sua passagem por Fortaleza para um show no anfiteatro do Dragão do Mar, este blogueiro, então repórter do Caderno 3 do Diário do Nordeste, entrevistou o violonista. Na época, Baden havia se convertido à igreja evangélica, o que lhe causava certo embaraço na hora de interpretar alguns seus clássicos, especialmente aqueles ligados à linhagem dos afro-sambas. "Eu posso cantar, só não faço louvar", disse. A entrevista se deu por telefone, com Baden falando de Natal, destino anterior de sua turnê pelo Nordeste. Ao final do texto recuperado da entrevista, um vídeo com uma apresentação de Baden em Paris quatro meses antes do show em Fortaleza.

Pergunta - Como será o show de hoje à noite? (N.R. - A matéria foi publicada no dia 16 de julho de 1999).
Baden - Será um show bem brasileiro acima de tudo, com músicas do nosso patrimônio musical. De Pinxinguinha à Bossa Nova e outros clássicos da nossa música popular. Porque eu defendo as teoria de que todo grande clássico pode vir a ser popular e vice-versa. Além disso, também tem algumas músicas do seu amigo Baden Powell, minhas parcerias com o Vinícius, Paulo César Pinheiro. Mas é sempre brasileiro, uma coisa brasileira acima de tudo.

Pergunta - Uma marca dos seus shows são as conversas com o público. Essa caraterística também vai estar presente no show de logo mais?
Baden - No show eu falo bastante, conto muitas histórias. A minha vivência com o Vinícius. Eu morei um tempo na casa dele, onde nós compomos a maior parte de nossas músicas. Enfim, eu conto histórias, me sinto na obrigação de contá-las, sinto-me um professor vamos dizer assim, especialmente para os jovens. Para passar aos jovens alguma coisa do que a gente fez, porque são eles que vão levar a vida adiante. Sem os jovens, o mundo todo pára. E eu acredito muito nos jovens, acho que nós estamos prester a ver uma nova geração surgindo, que inclusive vai ser mais forte e criativa do que a geração da bossa nova. O que falta é chance de mostrar. Se eles se unissem e fizessem algo juntos, nas universidades não sei, as TVs seriam obrigadas a mostrá-los. Todos filhos da pátria.

Pergunta - Você é um artista que faz uma grande sucesso nos EUA, na Europa e até mesmo no Japão. Chega a te incomodar o fato de que a repercussão no Brasil não seja a mesma do exterior?
Baden - Não me incomodo não. Eu sou um artista que tem os pés no chão. Não sou de cartaz, como o Roberto Carlos, por exemplo, que vende milhares de discos. Eu não sou um artista da moda. Algumas músicas minhas são até conhecidas, algumas que a Elis gravou; mas a música instrumental não faz tanto sucesso com o povo. Então é uma coisa mais do que normal. A música instrumental sempre foi uma coisa muito difícil para o povo. Eles conseguem decorar as letras das músicas cantadas, mas não se interessam tanto pela música instrumental.

Pergunta - Uma notícia que repercutiu recentemente no meio musical brasileiro foi a de sua conversão à igreja evangélica. Como se deu esse processo? Qual foi o motivo da conversão?
Baden - Foi uma questão de sabedoria. Eu sempre fui muito católico e sempre me interessei muito por religião, tanto que fiz os afro-sambas com o Vinícius. Mas de tanto ler, de tanto me informar, cheguei à conclusão de que a verdade é Jesus Cristo. E fiquei maravilhado com isso. Acho que alcancei o nível mais alto na minha carreira com isso.

Pergunta - Mas como você encara hoje aquela parte de sua obra que é ligada aos afro-sambas, por exemplo?
Baden - Eu apenas não louvo, mas falo sobre isso e posso perfeitamente cantar. Louvar é que não pode. Então, algumas músicas eu não posso cantar porque são louvações. Eu não posso cantar a palavra saravá, por exemplo, porque é uma louvação ao Belzebu. Mas encaro isso naturalmente. Como eu disse, eu só não faço louvar.

Pergunta - Você costuma afirmar que, no seu caso, criador e intérprete nunca trabalham simultaneamente. Qual dos dois tem trabalhado mais atualmente?
Baden - Tudo isso tem uma fase. Quando é a fase do criador, por exemplo, eu nem pego no violão, porque aí você escreve muito. Já a fase do intérprete atrapalha a fase do criador porque eu tenho que estudar muito. De modos que acho que prefiro a composição, porque é uma coisa muito mais liberal. Mas estou atualmente na fase do intérprete.

Baden e os afro-sambas


"Afro-samba" foi a expressão adotada por Vinícius e Baden Powell para definir o conjunto de canções gravados no antológico disco homônimo de 1966. O termo é um tanto redundante se atentarmos para o aspecto miscigenado que funda a música brasileira e, no caso específico do samba, para a enorme contribuição da cultura africana à tradição do batuque e do canto aqui estabelecidos. A rigor, qualquer samba traz um carga afro em seus genes. Mas naquele contexto de efervescência da bossa nova, no entanto, o termo adquiriu um novo sentido na medida em que sinalizou para outras latitudes de nossa música que não eram apenas o cenário de mar, amor e flor que podia ser divisado nos apartamentos de Copacabana e Ipanema. E mesmo a batida do violão não era mais a de João Gilberto, com seus baixos contínuos; mas um novo furacão de notas e timbres bem ao estilo de Baden.
Baden nunca gostou do registro de 1966 – cuja qualidade sonora foi definida por ele como a pior possível, resultado do número limitado de canais (apenas dois)  disponíveis para a gravação. Tanto que, em 1990, regravou os afro-sambas para um disco promocional oferecido por um banco a seus colaboradores. Apesar da importância do novo registro, o disco levou quase vinte anos para chegar ao grande público, o que só foi possível graças à iniciativa da Biscoito Fino, que reeditou o material há alguns anos em CD (capa acima). O disco encanta pela radicalidade com que Baden e seus violão retornam a temas como “Canto de Ossanha”, “Labareda” e “Canto de Xangô”. “Os afro-sambas se eternizam e se estendem para além  da vida de seus criadores”, sintetiza o crítico Pedro Alexandre Sanches.