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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Popular, populário, popularesco




“Populário” e “popularesco” eram as expressões que, nos anos 20, Mário de Andrade utilizava para dar conta da maneira como o Brasil reinventava musicalmente a síntese étnica das “três raças”. “Populário” tratava da produção de compositores que estariam, segundo ele, comprometidos com os nossos sons “autenticamente populares”.
Já “popularesco”, era, indistintamente, a produção veiculada pelos meios de comunicação de massa. Era “submúsica, carne para alimento de rádios e discos”, que “atucanava” a “sensualidade fácil” do público.
Essa disputa de discursos sobre a “pureza” de nossa genética musical ocupou a maior parte da crítica musical brasileira ao longo do século XX. Um debate em que o povo, em geral, não tinha voz. Essa era terceirizada a procuradores teóricos que falavam em nome dos valores supostamente “populares”.
Essa tradição criou o que hoje é uma enorme dificuldade da crítica em lidar com fenômenos como o funk ou o chamado “forró de plástico”. Valesca Popozuda e quejandos, na esteira das novas possibilidade da tecnologia, dispensaram os tais procuradores e hoje falam e se legitimam de forma autônoma ao circuito crítico. Ainda que, para isso. tenham de usar letras sexistas ou consideradas agressivas à luz de certa moral pequeno-burguesa - a mesma que alimenta um ódio insano às políticas de inclusão e de justiça social.
Popozuda é a vitória de um discurso das “periferias” que, em outros tempos, por conta de nosso atavismo excludente, jamais teria vingado no “centro” (da mídia, do mercado, etc). A questão que se coloca para a crítica, entretanto, é também entender de que forma o seu “beijinho no ombro” é também uma apologia boçal de intolerância ao outro. Assim como analisar como o forró eletrônico - que desconstruiu os privilégios e os preconceitos do mercado fonográfico - segue alimentando a violência de gênero e os preconceitos contra a mulher. E assim por diante...
Nossa música popular, hoje, não cabe mais em razões naturais nem em critérios historicamente institucionalizados. Para o bem e para o mal, o que antes era a exceção hoje é a regra.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bob Dylan: 70 anos em 10 discos (parte I)

1. Bob Dylan (1962)
Em três dias de estúdio, que custaram à Columbia não mais que US$ 400, Dylan gravou seu disco de estreia. Na sala, nada além de dois microfones, seu violão e sua gaita. O disco emperrou nas lojas e desagradou o próprio cantor, que registrou "umas coisas que escrevi, umas coisas que descobri e umas coisas que roubei".  Até hoje, no entanto, o título está em catálogo e já saiu em um sem número de edições (prefira a Mono!). É um pequeno mapa da matriz folk/country/blues com que Dylan desembarcou em Nova York e apresenta um músico vigoroso ao violão. As versões de "House of the rising sun", "Baby let me take you down", "See that my grave is kept clean" e "Man of Constant Sorrow" giram no meu i-tunes quase diariamente. Vale também espiar as autorais, especialmente "Song to Woody", tributo a Woody Guthrie, o cara que colocou Dylan nos trilhos do folk e da constestação. Era o esboço do poeta lendário que estaria por vir - e que mudaria o mundo e a música, além do amor, da saudade ou qualquer outro tema que lhe caísse nas mãos.



2. Another side of Bob Dylan (1964)
A primeira fase da carreira de Dylan foi, para muitos, a mais inspirada. Embora seja um pensamento um tanto reducionista, é inegável que nela se situa a maior parte de suas grandes canções. No entanto, seus primeiros anos de gavação também podem ser resumido num chatíssimo conflito (pelo menos na cabeça dos fãs mais radicais) entre o que era a música folk tradicional, "pura", "desplugada", "imaculada", etc; e a nascente eletrificação do rock e da música pop (terrenos que Dylan pisaria com maestria). Os gritos de "Judas!" e "Traidor!" começaram a ser ouvidos nos shows e a paciência do cantor foi ao limite. Os excepcionais e obrigatórios Freewheeling Bob Dylan (1963), The times they are a-changing (1964) e Bringing it all back home (1965) pontuam essa fase. São discos monumentais, mas em torno dos quais foi construído um estereótipo de Dylan (o cara meio-hippie, meio bêbado, que tem voz esquisita e canta música folk de "protesto" acompanhado apenas de um violão e de uma gaita).  No entanto, há nesse bolo um disco intrigante: Another side of Bob Dylan (1964). Espécie de manifesto de revolta e insatisfação com essa imagem e sua suposta "função" no mainstream musical. Aqui, ele começou a anunciar que não queria mais ser profeta, porta-voz nem nenhuma outra persona que a crítica ou os fãs quisessem lhe impor. A começar pelo título. No discurso, Dylan começava a desconstruir aquele estereótipo. Curiosamente, era um disco acústico, com acompanhamento feito apenas com violão, gaita ou piano. A desconstrução sonora do estereótipo viria mais tarde - ou pensando bem viria ao longo de toda sua carreira. Destaque para "It ain't me babe" e a lindíssima "My back pages".



3. Highway 61 revisited (1965)
Na época, apenas Dylan poderia dispensar Eric Clapton e os Bluesbreakers por não gostar da sonoridade do grupo. O jeito foi gravar com a guitarra de Mike Bloomfield e o teclado de Al Kooper, que nem ao menos sabia tocar o instrumento. E a alquimia que surgiu desse encontro foi tamanha que mudou a música de Dylan e rendeu um de seus melhores discos. Pauleira do começo ao fim: da paradigmática "Like a rolling stones" aos versos eliotianos de "Desolation Row", que fecha o disco. Entre uma e outra, marcos como "Tombstone Blues", "It takes a lot to laugh..." e "Ballad of a thin man". Não conhece nada de Dylan? Comece por esse disco.




4. Blonde on blonde (1966)
Chegamos aqui a um nível de realização artística que colocou Dylan em definitivo entre os grandes músicos populares do século XX. Gravado com o acompanhamento de músicos de Nashville, que lhe encantaram pelo talento e pela discrição - ao contrário da azáfama de Nova York -, Blonde on Blonde se alterna entre canções de amor extremamente doloridas e a mais vigorosa celebração do blues. Brian Hinton, no Gravações Comentadas, lançado no Brasil pela Larousse, conta que os músicos jogavam pingue-pongue e cartas no estúdio enquanto Dylan rascunhava as músicas ao piano (para invariavelmente gravá-las apenas ao nascer do dia). "Just like a woman" é o tipo de música cuja melodia acompanha o ouvinte para a vida inteira. "Memphis blues again", "One of us must know" e "Absolutely sweet Mary" têm refrões arrebatadores. O mais é chover no molhado sobre a genialidade do cara. Discão!!!




5. John Wesley Harding (1968)
O disco mais misterioso e intrigante de Dylan, que repaginou seu som trabalhando com um formato mais cru e um "punch" mais vigoroso de baixo (Charles McCoy) e bateria (Keneth Buttrey), além da guitarra de Peter Drake. Mitologia bíblica, esoterismo e confissões pessoais dão o tom das letras. Clássicos que ganhariam versões demolidoras nas mãos de outros roqueiros são apresentadas aqui pela primeira vez, como a antológica "All along the watchtower" (que seria genialmente envenenada por Hendrix) e "Dear Landlord" (que receberia uma versão alucinada na voz de Janis Joplin). Destaque também para "As I went out one morning", com seu baixo hipnótico e sua bateria suingadíssima. A turma que aparece   com Dylan na capa não são os músicos do disco, mas membros da trupe cigana Bauls of Bengal, artistas begalis de rua cujo sentido de vida girava sobre noitadas de bebedeira e cantoria. Se você já sacou que existe um quinto elemento na capa, você conhece muito da obra do Dylan. Ou tem olho de lince. Eu, claro, não vou dizer onde ele está...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Reencontro com os clássicos


Para mirar o futuro, artistas consagrados estão olhando para o passado. A tendência já se consolidou na Europa e nos Estados Unidos e vem ganhando força no Brasil: medalhões revisitam suas discografias e montam shows apresentando a íntegra de LPs clássicos. Lou Reed, Rush, Megadeth, Stooges e Roger Waters são alguns nomes que já montaram turnês promovendo esse reencontro entre criador e criatura. O grupo norte-americano Melvins chega a tocar não um, mas até cinco LPs na íntegra em um único show. No Brasil, o formato já fez a cabeça de gente como Jorge Benjor, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Luiz Melodia, Alceu Valença, entre outros.

“Estou ensaiando música por música do LP para a gente fazer um show e atender aos pedidos, que são muitos”, anunciou Jorge Benjor em fevereiro durante uma apresentação no Morro da Urca, no Rio de Janeiro. O disco em questão é Tábua de Esmeralda, clássico absoluto de sua discografia gravado em 1974. E os pedidos a que o músico se refere são as inúmeras mensagens e comunidades espalhadas nas redes sociais que pediam essa reedição ao vivo do LP. No facebook, o perfil “Queremos a tábua de esmeralda ao vivo” é um dos mais visitados e disponibilizou vídeos com jovens artistas da MPB falando de sua admiração pelo álbum.

Em abril, foi a vez de Edu Lobo apresentar a íntegra do repertório do disco O grande circo místico (1983) – inspirado no poema de Jorge de Lima e considerado por Aldir Blanc como o LP mais bonito do século - no Instituto Moreira Salles. O show faz parte da série criada pelo instituto para homenagear grandes discos da música brasileira. Wilsn Moreira e Nei Lopes, revivendo o antológico A Arte Negra de... (1980); e Monarco, que revisitou seu primeiro disco solo, lançado em 1976, foram outros que participaram do projeto do IMS.

Outra instituição que montou um projeto do gênero foi o SESC Belenzinho, em São Paulo. Mensalmente, um grande nome da música brasileira leva ao palco um LP clássico. O primeiro foi Alceu Valença, que em março último subiu ao palco para revisitar o seu Vivo! (1976), marco em sua carreira. O show contou com a participação de Lula Cortes e Zé da Flauta, que participaram da gravação do LP. “Um disco meio psicodélico, que foi pioneiro na mistura entre o rock e os ritmos regionais”, comenta Sérgio Saraiva, um dos coordenadores do projeto, que tem ingressos esgotados a cada edição.

Em abril, também no projeto do SESC, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, tocaram o monumental Dança das Cabeças (1977) – disco de sonoridade tão rica que ganhou prêmio de melhor LP experimental na Alemanha e de melhor LP pop na Inglaterra -; e em maio, Edvaldo Santana reapresentou seu Lobo Solitário (1993). Em junho, será a vez dos Paralamas, que revisitam o ótimo Selvagem (1986).

*Texto publicado na seção Tendências do jornal O POVO (Fortaleza-Ce)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ai d'eu sodade

Abaixo, o vídeo de Sandra Ribeiro inspirado na música "Ai d'eu sodade", também conhecida como o "ABC do Preguiçoso" ou hino informal dos baianos. Xangai tem uma interpretação genial dessa toada no primeiro Cantoria. Os protagonistas são os atores Aramis Trindade e Zuleica Ferreira.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Milagres do povo



"Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá

É no xaréu que brilha a prata luz do céu
E o povo negro entendeu que o grande vencedor
Se ergue além da dor
Tudo chegou sobrevivente num navio
Quem descobriu o Brasil?
Foi o negro que viu a crueldade bem de frente
E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá"

"Milagres do povo", Caetano Veloso

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Amô, furria, viola, nunca dinheiro


"Apois pro cantadô i violero/ só hai treis coisa nesse mundo vão/ amô, furria, viola, nunca dinhêro/ viola, furria, amô, dinhêro não". O refrão costura as longas estrofes de "O Violêro", que abre o primeiro LP de Elomar, Das barranca do Rio Gavião, lançado há trinta e nove anos e já editado em CD. O disco sucedeu o compacto de 1968, até hoje disputado na base da faca por colecionados em sebos, e jogou o arquiteto e trovador baiano em definitivo no mundo da MPB. Na bagagem, Elomar trouxe seu violão rebuscado, que embalava um cancioneiro que recendia a idade média e aos improvisos dos cantadores nordestinos. No repertório, já antecipava alguns de seus clássicos, como "O pidido", "Zefinha", "Cantiga de Amigo" e "Incelença prum amor ritirante", uma das mais belas músicas da história da MPB. "Quem sabe não vai ser lá, no barato das galáxias e da música de Elomar, que eu vou acabar amarrando um bode definitivo e ficar curtindo uma de pastor de estrelas...", escrevia um Vinícius de Moraes absolutamente encantado com a figura caatingueira de Elomar no texto que acompanhava o encarte do disco. Elomar - cuja missão, segundo ele próprio, é "chiqueirar e pastorar, tangerino de ovelhas e bodes" - formou-se arquiteto, é fazendeiro no interior da Bahia e fez 70 anos em 2007. Quem nunca ouviu falar do homem pode, a partir desse disco, começar a se apaixonar por seu blues nordestino e suas bachianas sertanejas. Na Internet, também vale a pena conhecer sua "porteira oficial" (www.elomar.com.br).



Rogério Caetano: lírico e virtuoso

Ao lado de Marcello Gonçalves (do Trio Madeira Brasil e do grupo Rabo de Lagartixa) e do gaúcho Yamandu Costa, Rogério Caetano integra a santíssima trindade do novo violão 7 cordas brasileiro. Se o profundo domínio da técnica do instrumento é atributo comum aos três músicos, cada qual aponta o braço de seu violão em direções diferentes. Marcello é o arquiteto, o criador de ricos arranjos e texturas que lhe colocam como um dos músicos mais requisitados do País. Yamandu é intérprete desabusado, dionisíaco, que leva sua técnica ao paroxismo da virtuose. Já Rogério é violonista do lirismo, da poesia revelada entre arpejos e contrapontos; um músico que cerca cada interpretação com uma abordagem intensa e exuberante, mas sem jamais romper o limite da sobriedade. É preciso estar atento e forte para saber de sua música e seus fraseados.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Aparecida: força rara do samba


Quando Clementina de Jesus apareceu no cenário da música brasileira, em meados dos anos 60, ampliou o nosso horizonte vocal, trazendo timbres, ressonâncias e referências africanas que o mercado fonográfico ainda não havia incorporado ou assimilado. Não havia, até então, nada que pudesse ser comparado ao canto roufenho e encantado da Rainha Quelé. A partir de Clementina, o Brasil pisou por inteiro e sem pudores no chão multi-enraizado dos terreiros de candomblé e umbanda e se reconheceu em seu espelho mais profundo. Durante as décadas seguintes, foi possível rastrear as luzes e os perfumes da rainha negra do canto brasileiro em artistas dos mais diferentes matizes: em Clara Nunes e nos Tincoãs nos anos 70; nos cantos afro dos blocos de Salvador como Olodum, Ara Ketu e Ilê Ayê nos anos 80 e 90; na modernidade de Fabiana Cozza e Luiza Dionísio nos anos 2000.
No meio desse percurso, no entanto, há uma figura de que pouco se fala mas que, de todos os epígonos de Clementina, foi a que mergulhou mais fundo no leito africano de nossa música. Trata-se de Maria Aparecida Martins (1939-1985), ou apenas Aparecida, cantora e compositora mineira que, logo criança, radicou-se no Rio de Janeiro. Trabalhando como passadeira em casas do bairro de Vila Isabel, Aparecida começou a compor na década de 50, atividade que lhe levou a trabalhar em rádios e, mais tarde, lhe abriu as portas no cinema. No início da década de 1960, participou do filme "Benito Sereno e o Navio Negreiro". Em 1965, depois de uma temporada na França, voltou ao Brasil e venceu o "Concurso de Música de Carnaval do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro". Também venceu o  "III Festival de Música de Favela", com o samba "Zumbi, Zumbi", representando a favela da Cafúa, de Coelho Neto. Em 1968, compôs "A sonata das matas" para a Escola de Samba Caprichosos de Pilares, entrando para a galeria de honra da história do carnaval carioca - depois de Dona Ivone Lara, foi a segunda mulher a compor um samba-enredo vencedor dentro de uma escola de samba.

Em 1974, Aparecida participou do LP "Roda de samba", lançado pela gravadora CID, que reunia Darci da Mangueira, Sidney da Conceição, Sabrina e Chico Bondade, entre outros. No disco, gravou pela primeira vez uma composição de sua autoria, "Boa-noite". Bem sucedido, o LP ganhou um volume 2, em que Aparecida novamente constou entre os cantores convidados. Dessa vez, gravou "Proteção" (David Lima e Pinga) e "Rosas para Iansã", de autoria de Josefina de Lima. No disco também participaram Nelson Cavaquinho, Sabrina, Roque do Plá, Rubens da Mangueira e Dida.
O prestígio com a série "Roda de Samba" permitiu que ela chegasse ao primeiro disco solo. Em 1975, também pela Cid, gravou Aparecida (foto ao lado), LP em que interpretou várias músicas suas, como "Talundê" (c/ Jair Paulo), "Tereza Aragão", "Meu São Benedito", "Inferno verde", "Nanã Boroquê", "Segredos do mar", as duas últimas em parceria com Jair Paulo, e ainda uma adaptação do folclore "A Maria começa a beber".
No ano seguinte, veio o segundo disco: Foram 17 anos (foto principal). Com arranjos de Durval Ferreira e arranjos de José Menezes (que também assinaram o primeiro LP), o disco mais uma vez trouxe Aparecida interpretando várias composições de sua autoria, entre elas "17 anos", "Grongoiô, propoiô" (c/ João R. Xavier e Mariozinho de Acari) e "Diongo, mundiongo". Na cozinha dos dois discos, um time de primeira, formado, entre outros, por Sivuca, grupo Nosso Samba e As Gatas. Em 1978, Aparecida transferiu-se para a RCA, onde gravou mais três discos: Cantigas de fé (1978), 13 de maio (1979) e Os deuses afro (1980).
A geração do CD só teve a oportunidade de conhecer a música de Aparecida através da coletânea Aparecida, Samba, Afro, Axé, lançada pela Cid em 1996. Para saber de seus discos, hoje, infelizmente, somente através de blogs e sites especializados. Uma pena. Escutar seus LPs é se reencontrar com uma latitude preciosa da música brasileira - que começa com Clementina, mas que, em Aparecida, ganha uma força rara, preparando terreno para divas negras como Cozza e Dionísio.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

2010: dez discos que fizeram a diferença

Em 2010, a lista não é dos dez melhores discos (ou outra hierarquia do tipo) - afinal, não há critérios objetivos que possam justificar tal exercício além das afinidades e da militância do blogueiro. Por isso, optei em fazer uma lista de fim de ano com dez discos que fizeram a diferença em 2010, o que permite uma avaliação, no mínimo, mais palpável, embora ainda órfã de escalas e medidas mais objetivas. São eles:

1. Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia - Terreiro Grande e Cristina Buarque
Na visão (ou na audição) deste blogueiro, o disco mais relevante do ano. Tanto por revisitar em altíssimo nível o repertório do mestre portelense quanto por iluminar a presença do grupo paulista no atual cenário do samba brasileiro. E também, e mais que tudo, por reafirmar o nome de Cristina Buarque - pelo compromisso inadiável com a delicadeza e com os sentidos mais profundos da nossa música - como um dos mais importantes artistas brasileiros vivos. O CD saiu em abril pela Tratore, que também lançou Tuco e Batalhão de Sambistas, outro CD de tutano deste ano que se vai.

2. Papagaio do moleque - Rabo de lagartixa
O disco foi lançado no fim de 2009, mas só ganhou as lojas e as discussões pela internet em 2010. Qualquer CD que reunisse Marcello Gonçalves, Daniela Spielmann e Beto Cazes já seria um grande disco. No caso específico desse trabalho, ao talento dos três somam-se as presenças de Alessandro Valente e Alexandre Brasil, que completam a formação do Rabo de Lagartixa; e o repertório inesgotável de Villa-Lobos, o que garante um disco-monumento, desses de se escutar a vida inteira sem deixar de se surpreender com a arquitetura exuberante de Villa e com a alegria e a virtuose desses intérpretes. O mais importante lançamento envolvendo a obra de Villa-Lobos neste século.

3. Esperança - Hamilton de Holanda
Hamilton é um homem de seu tempo. Reinventa seu instrumento, ampliando suas possibilidades de expressão; conecta ouvintes e músicos de todo o mundo em novas plataformas tecnológicas, onde divulga seu trabalho e funda amizades; revira o baú das nossas melhores memórias musicais; e percorre os cinco continentes desbravando novas audiências e novos encontros (que vão dos venezuelanos do Ensamble Gurrufio ao ex-Led Zeppelin John Paul Jones). Não utiliza a tradição como biombo para certa auto-indulgência criativa nem vende a alma às tentações fugazes da contemporaneidade, da música de mercado e de outros faustos do tipo. Sua carreira é uma celebração permanente e otimista de nossos dias, em que utiliza como armas repertórios de todas as épocas mas também mira o futuro propondo novas composições.

4. Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó - Dizzy Gillespie
Dizzy dispensa maiores apresentações, assim como o Trio Mocotó. Esse encontro do gênio do jazz com os gênios do ritmo, no entanto, requer algum esclarecimento. Trata-se de um disco gravado em 1974, em São Paulo, do qual até 2008 não se tinha notícia. Na época da gravação, Dizzy deixou o Brasil levando a master do registro e nunca deu satisfações sobre o assunto. A matriz foi encontrada por um produtor suíço em 2008 e resultou neste lançamento da Biscoito Fino em parceria com Groovin'High. "Entre os brasileiros reencontrei a sonoridade ideal, porque, pra mim, música boa é aquela que, de um modo ou de outro, tem cor negra", afirmava Dizzy. Um discos mais importantes de 2010, portanto, foi gravado há 36 anos, mas não perdeu seu gingado absurdo nem sua sonoridade exuberante.

5. Hoje - Carmen Miranda 
Remexer no baú dos mortos, em geral, rende (anti-)homenagens de gosto extremamente duvidoso e que não acrescentam nada à obra do artista falecido. Não é o caso desse projeto assinado por Henrique Cazes, que acrescentou uma base de cordas (violão de 7, cavaco e violão tenor), detalhes de sopro e novos elementos de percussão às gravações originais de Carmen Miranda da década de 30. Resultado: é possível ouvir novamente a voz de Carmen rodeada por graves e agudos que se ouviam em suas apresentações ao vivo, mas que não tinham sido registrados em seus discos. Os detalhes são explicados por Cazes numa entrevista que vem como faixa bônus.

6. Jasmine - Keith Jarrett e Charlie Haden
Para todo fã de Jarrett, qualquer novo disco do pianista faz sempre a diferença. Este, no entanto, tem uma razão especial. O disco, gravado na casa de Jarrett, marca o reencontro do pianista com Haden, depois de 35 anos. Haden foi o baixista do primeiro trio de Jarrett, ainda nos anos 60; e de seu Quarteto Americano com o qual atravessou boa parte dos anos 70. Uma experiência intimista entre dois grandes nomes do jazz mundial, que deixam de lado as provocações entre virtuoses para derramar lirismo num dos álbuns mais bonitos do ano.


7. Certa manhã acordei de sonhos intranquilos - Otto
Outro disco que foi lançado oficialmente no fim de 2009, mas que aconteceu em definitivo apenas em 2010. Trata-se do melhor do músico pernambucano, um trabalho que recoloca Otto entre os artistas mais criativos do país. Há quem possa fazer ressalvas à verborragia do músico em suas entrevistas ou a suas letras viajandonas, mas é inegável que Otto sabe, como poucos, criar e explorar texturas e combinações rítmicas passeando e dissolvendo fronteiras entre inúmeros gêneros. A banda afiada, com Catatau, Dengue, Pupilo e outros craques, é ingrediente fundamental nessa receita.  Participação especial de Céu e regravação inspirada de "Naquela Mesa"(Sérgio Bittencourt) são as cerejas do bolo.

8. Pra gente fazer mais um samba - Wilson das Neves
Sobre o disco, o texto de Chico Buarque no encarte já diz tudo: "São vinte e cinco anos de amizade, depois de outros tantos de amiração à distância. Eu conhecia Wilson das Neves dos discos, reconhecia de cara sua batida, vez por outra o peruava através do vidro dos estúdios de gravação. Hoje não subo ao palco sem ele. Camarim dos músicos, sem o Das Neves, não é camarim. Ele é o pulso da banda, termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé. Este disco nos traz de volta o grande melodista que é Wilson das Neves. Escutei-o seguidamente com deleite, com um sorriso, com um ciúme danado dos seus parceiros. Aí está ele com sua graça, com a ginga que é só dele, com essa voz que deve ser a voz rouca das ruas, eis aí Wilson das Neves cantando versos prenhes de sabedoria popular".

9. Orquestra Republicana - Ao vivo na Lapa
A Orquestra Republicana - formada por músicos de diversos grupos cariocas como Tira Poeira, Garrafieira e Anjos da Lua - é um dos grupos mais tradicionais no mapa da boemia musical do bairro. Desde 2005, Gallotti, Pedro Holanda, Mariana Bernardes e cia. pilotam a gafieira moderníssima das noites de sábado no Democráticos, um charmoso e centenário sobrado localizado na Rua do Riachuelo que ferve ao som de muito partido-alto, samba sincopado, choros e valsas. Em 2008, o baile foi registrado e agora, finalmente, virou disco através do selo Bolacha Discos. No repertório, Lapas de diversas épocas se encontram. Mas o destaque é mesmo a novíssima Lapa cantada em composições de Alfredo Del-Penho ("Quebranto", "Pra Essa Gente Boa", "Noite à Lapa"), Pedro Hollanda ("Acontece", "Não Vem que Não Tem"), Eduardo Gallotti ("Partido do Homem Solteiro") e Samuel de Oliveira ("Rosa Branca Maré").  Um disco pra saudar a alegria de ser brasileiro, radicalmente brasileiro.

10. Vidas Volantes - Breculê
Em 2010, mais importante para a música cearense do que remexer, pela enésima efeméride, pela enésima vez, no baú da Massafeira - mais relevante como evento, como marco, do que como movimento (que não foi) -, foi o lançamento do CD Vidas Volantes, da rapazeada inspirada do Breculê. Boas composições embaladas por uma boa produção, vitalizadas num colorido balaio de ritmos, colocam a música cearense novamente olhando pra frente, para novos textos, para novos sentidos. Chega de saudade!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encaixotando Beth Carvalho


Ao lado de Nara Leão, foi Beth Carvalho quem promoveu o encontro da MPB "oficial" que se produzia entre o Rebouças e o mar, naquela segunda metade dos anos 60; com a música brasileira que pulsava nos morros e comunidades do subúrbio carioca. A partir desse encontro, como se sabe, o samba viveu um novo período de estandartização como música nacional, alimentada por um conjunto de compositores "de morro" (Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, Zuzuca do Salgueiro, Monarco, etc.) que estreitavam as relações com os novos nomes da indústria fonográfica. Mas enquanto Nara continuou dialogando com diferentes perspectivas da música brasileira, Beth mergulhou de cabeça naquele universo, que lhe alçaria à condição de rainha: tanto pelo seu compromisso perene com o samba quanto pela descoberta de inúmeros compositores e intérpretes que ajudaria a projetar nacionalmente.
Uma caixa recentemente lançada pelo selo Discobertas, do incansável Marcelo Fróes, reúne toda a primeira década de trabalho de Beth (a maior parte dela pela gravadora Tapecar) e ajuda a contar a história dessa transição entre os padrões musicais da época (que Beth exerceu em coletâneas, trilhas de novelas e discos de festivais) e o novo/velho mundo do samba, que a cantora abraçaria em definitivo a partir de seu segundo disco, Canto por um novo dia (1972). Nesse trabalho, Beth gravou a velha (Mano Décio, Nelson Cavaquinho, Darcy da Mangueira e Manuel Santana) e a nova guarda do samba (João Nogueira, Gisa Nogueira, Martinho da Vila e Eduardo Gudin). No disco seguinte, alcançaria sucesso nacional com "1800 colinas", pérola de outro compositor "de morro", Gracia do Salgueiro. Na época, Nara já tinha retornado aos braços da bossa nova e de seus amigos velhos de "MPB", fazendo incursões bissextas pelo samba. Beth, no entanto, entregou a alma para aquela comunidade de poetas, compositores e ritmistas geniais e sofisticadamente simples. Pisou forte no chão e entrou para a eternidade de nossa música.

Abaixo, a gravação de "Se é pecado sambar", de Manoel Santana, que consta no disco Canto por um novo dia, resgatado por Fróes e reeditado na caixa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dia do Músico



Para saudar o Dia do Músico, comemorado hoje, um vídeo sobre o maior músico brasileiro de todos os tempos: Pixinguinha.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O novo velho disco de Gil


Em 1970, recém-chegado ao exílio em Londres, Gil recebeu de Rogério Sganzerla a encomenda para fazer a trilha de seu novo filme, Copacabana Mon Amour, que inauguraria, segundo o diretor, um novo gênero no cinema nacional: a chanchada psicodélica. No elenco, estavam nomes como Helena Ignez, Paulo Vilaça, Lilian Lemmertz, Guará e Otoniel Serra.
Acompanhado do flautista David Linger e de Péricles Cavalcanti, Gil entrou no estúdio londrino IBC em abril daquele ano e, depois de algumas poucas sessões de gravações (onde imperaram o improviso e a intuição do compositor), concluiu a trilha, que foi enviada ao Brasil. A única cópia do material, no entanto, se perdeu e só foi encontrada 28 anos depois, através do garimpo valoroso do produtor Marcelo Fróes, que, na época, editava uma caixa com a discografia de Gil em sua fase Phillips (1967-1974).
Lançado junto com a caixa em 1998, o disco só agora é reeditado de forma avulsa pelo selo Discobertas, do próprio Fróes. São seis faixas, incluindo dois takes da canção "Diga a Ela". Destaque para "Tomorrow vai ser bacana" e a suingadíssima "Mr. Sganzerla" (no link abaixo). Nessas faixas, Gil antecipa a espontaneidade e o minimalismo que marcaria o clima do antológico Ogum Xangô, que gravaria em 1975 com Jorge Ben.



Abaixo, cenas do filme de Sganzerla.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um rio quarentão



Os primeiros registros fonográficos de Paulinho da Viola foram feitos entre os anos de 1965 e 1968, tanto com o show Rosa de Ouro, que também envolvia outros baluartes do samba, como Clementina de Jesus, Aracy Cortes e Hermínio Bello de Carvalho (na direção do espetáculo); quanto com seu trabalho no grupo A voz do morro, que reuniu uma pequena elite das escolas de samba cariocas da época (Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, José da Cruz e Elton Medeiros). Também em 1968, ele gravaria o disco Samba na Madrugada, em parceria com Elton Medeiros. Essas gravações formam a primeira parte da carreira de Paulinho, uma etapa em que o jovem sambista se consolidou na ala de compositores da Portela e, do "lado de lá" do Rebouças,  promoveu uma ponte entre a música tradicional dos subúrbios cariocas e a nova "MPB", já numa fase pós-bossa nova e que se consolidava nos festivais e nos discos.
Somente no fim de 68, Paulinho lançaria seu primeiro disco solo, um álbum que já trazia algumas obras-primas de sua lavra, como "Coisas do mundo, minha nega", "Sem ela eu não vou" e "A gente esquece"; mas que soa um pouco barroco, em função do excesso de orquestrações e salamaleques da produção musical. Apenas em Foi um rio que passou em minha vida (capa acima), lançado em 1970, há redondos quarenta anos portanto, Paulinho gravaria um LP solo que realmente começaria a soar como Paulinho da Viola. O mesmo (genial) Gaya do disco de dois anos antes dosou melhor as cordas e as redundâncias dos arranjos e as gravações passaram a soar mais leves, mais integradas à poesia e à musicalidade do compositor e à ginga do samba. Neste disco, Paulinho se afirma em definitivo como um grande compositor dentro da história da música brasileira, não apenas pelo clássico que deu nome ao disco, mas pelo conjunto impecável de composições reunidas no trabalho: "Para não contrariar você", "Estou marcado", "Mesmo sem alegria", "Jurar com lágrimas", a irônica "Papo furado" (com que Paulinho dá uma linda alfinetada nos alcaguetes da ditadura militar), "Não quero ver você assim" e a linda "Tudo se transformou".
Em 1970, a música "Foi um rio que passou em minha vida" foi cantada como samba de esquenta na concentração da Portela - que naquele ano chegaria ao título. Em 1998, a escola repetiu a dose e cantou o samba na concentração com a participação do próprio Paulinho nos vocais (link abaixo).



 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O virtuose e o evangelho



No próximo dia 26 de setembro, completa-se uma década da morte de Baden Powell. Em julho de 1999, quando de sua passagem por Fortaleza para um show no anfiteatro do Dragão do Mar, este blogueiro, então repórter do Caderno 3 do Diário do Nordeste, entrevistou o violonista. Na época, Baden havia se convertido à igreja evangélica, o que lhe causava certo embaraço na hora de interpretar alguns seus clássicos, especialmente aqueles ligados à linhagem dos afro-sambas. "Eu posso cantar, só não faço louvar", disse. A entrevista se deu por telefone, com Baden falando de Natal, destino anterior de sua turnê pelo Nordeste. Ao final do texto recuperado da entrevista, um vídeo com uma apresentação de Baden em Paris quatro meses antes do show em Fortaleza.

Pergunta - Como será o show de hoje à noite? (N.R. - A matéria foi publicada no dia 16 de julho de 1999).
Baden - Será um show bem brasileiro acima de tudo, com músicas do nosso patrimônio musical. De Pinxinguinha à Bossa Nova e outros clássicos da nossa música popular. Porque eu defendo as teoria de que todo grande clássico pode vir a ser popular e vice-versa. Além disso, também tem algumas músicas do seu amigo Baden Powell, minhas parcerias com o Vinícius, Paulo César Pinheiro. Mas é sempre brasileiro, uma coisa brasileira acima de tudo.

Pergunta - Uma marca dos seus shows são as conversas com o público. Essa caraterística também vai estar presente no show de logo mais?
Baden - No show eu falo bastante, conto muitas histórias. A minha vivência com o Vinícius. Eu morei um tempo na casa dele, onde nós compomos a maior parte de nossas músicas. Enfim, eu conto histórias, me sinto na obrigação de contá-las, sinto-me um professor vamos dizer assim, especialmente para os jovens. Para passar aos jovens alguma coisa do que a gente fez, porque são eles que vão levar a vida adiante. Sem os jovens, o mundo todo pára. E eu acredito muito nos jovens, acho que nós estamos prester a ver uma nova geração surgindo, que inclusive vai ser mais forte e criativa do que a geração da bossa nova. O que falta é chance de mostrar. Se eles se unissem e fizessem algo juntos, nas universidades não sei, as TVs seriam obrigadas a mostrá-los. Todos filhos da pátria.

Pergunta - Você é um artista que faz uma grande sucesso nos EUA, na Europa e até mesmo no Japão. Chega a te incomodar o fato de que a repercussão no Brasil não seja a mesma do exterior?
Baden - Não me incomodo não. Eu sou um artista que tem os pés no chão. Não sou de cartaz, como o Roberto Carlos, por exemplo, que vende milhares de discos. Eu não sou um artista da moda. Algumas músicas minhas são até conhecidas, algumas que a Elis gravou; mas a música instrumental não faz tanto sucesso com o povo. Então é uma coisa mais do que normal. A música instrumental sempre foi uma coisa muito difícil para o povo. Eles conseguem decorar as letras das músicas cantadas, mas não se interessam tanto pela música instrumental.

Pergunta - Uma notícia que repercutiu recentemente no meio musical brasileiro foi a de sua conversão à igreja evangélica. Como se deu esse processo? Qual foi o motivo da conversão?
Baden - Foi uma questão de sabedoria. Eu sempre fui muito católico e sempre me interessei muito por religião, tanto que fiz os afro-sambas com o Vinícius. Mas de tanto ler, de tanto me informar, cheguei à conclusão de que a verdade é Jesus Cristo. E fiquei maravilhado com isso. Acho que alcancei o nível mais alto na minha carreira com isso.

Pergunta - Mas como você encara hoje aquela parte de sua obra que é ligada aos afro-sambas, por exemplo?
Baden - Eu apenas não louvo, mas falo sobre isso e posso perfeitamente cantar. Louvar é que não pode. Então, algumas músicas eu não posso cantar porque são louvações. Eu não posso cantar a palavra saravá, por exemplo, porque é uma louvação ao Belzebu. Mas encaro isso naturalmente. Como eu disse, eu só não faço louvar.

Pergunta - Você costuma afirmar que, no seu caso, criador e intérprete nunca trabalham simultaneamente. Qual dos dois tem trabalhado mais atualmente?
Baden - Tudo isso tem uma fase. Quando é a fase do criador, por exemplo, eu nem pego no violão, porque aí você escreve muito. Já a fase do intérprete atrapalha a fase do criador porque eu tenho que estudar muito. De modos que acho que prefiro a composição, porque é uma coisa muito mais liberal. Mas estou atualmente na fase do intérprete.

Baden e os afro-sambas


"Afro-samba" foi a expressão adotada por Vinícius e Baden Powell para definir o conjunto de canções gravados no antológico disco homônimo de 1966. O termo é um tanto redundante se atentarmos para o aspecto miscigenado que funda a música brasileira e, no caso específico do samba, para a enorme contribuição da cultura africana à tradição do batuque e do canto aqui estabelecidos. A rigor, qualquer samba traz um carga afro em seus genes. Mas naquele contexto de efervescência da bossa nova, no entanto, o termo adquiriu um novo sentido na medida em que sinalizou para outras latitudes de nossa música que não eram apenas o cenário de mar, amor e flor que podia ser divisado nos apartamentos de Copacabana e Ipanema. E mesmo a batida do violão não era mais a de João Gilberto, com seus baixos contínuos; mas um novo furacão de notas e timbres bem ao estilo de Baden.
Baden nunca gostou do registro de 1966 – cuja qualidade sonora foi definida por ele como a pior possível, resultado do número limitado de canais (apenas dois)  disponíveis para a gravação. Tanto que, em 1990, regravou os afro-sambas para um disco promocional oferecido por um banco a seus colaboradores. Apesar da importância do novo registro, o disco levou quase vinte anos para chegar ao grande público, o que só foi possível graças à iniciativa da Biscoito Fino, que reeditou o material há alguns anos em CD (capa acima). O disco encanta pela radicalidade com que Baden e seus violão retornam a temas como “Canto de Ossanha”, “Labareda” e “Canto de Xangô”. “Os afro-sambas se eternizam e se estendem para além  da vida de seus criadores”, sintetiza o crítico Pedro Alexandre Sanches.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um raro sabiá marrom


No fim dos anos 60, Alcione era apenas uma cantora do circuito Rio-São Paulo de boates. Até a noite em que Jair Rodrigues lhe viu em ação na Blow Up, tradicional reduto jazzista da pauliceia, e lhe apresentou a Roberto Menescal, que, na época, era diretor artístico da então toda-poderosa Philips. A partir daí, a maranhense de voz encorpada e rara percorreu um obscuro caminho de gravações entre compactos, trilhas de novela e os chamados "paus de sebos", aquelas coletâneas espalhafatosas e de repertório assistemático que eram lançadas anualmente reunindo novos nomes e artistas consagrados do cast dessas empresas. Eis que, em 1975, numa última aposta de fazer a carreira de sua pupila decolar dentro da gravadora, Roberto Menescal bancou a gravação do LP A Voz do Samba e Alcione explodiu com sucessos como "O Surdo" e "Não deixe o samba morrer".
O resto da história todos conhecem. Alcione gravou discos antológicos até a primeira metade dos anos 80, deixou-se seduzir por um repertório de gosto duvidoso e desde então ocupa uma curiosa posição na música brasileira: uma grande cantora que, a despeito de sua técnica e de seu alcance vocal, a crítica especializada (junto com boa parte do público sambista) não suporta ouvir. Mas rebobinando a história até seu princípio, a coletânea O samba raro de Alcione, que a Universal está lançando, coloca na roda justamente aquela série de gravações obscuras (ao lado de algumas sobras de estúdio e registros inéditos) que pavimentaram o início da carreira da Marrom - mas que foram obscurecidas pelo estrelato da fase pós-75.
Entre elas, estão "O sonho acabou", de Gilberto Gil; e "Figa de guiné", do então iniciante Nei Lopes; que formaram o primeiro compacto da cantora, lançado em 1972. Nessas gravações, é possível perceber a fluência de Alcione para além do samba, gênero para o qual a cantora foi "encaminhada" por Roberto Menescal para fazer frente às suas concorrentes das outras casas de gravação. No segundo compacto, lançado no ano seguinte, formado por "Tem dendê" (outra de Nei Lopes) e "Pinta de sabido" (da dupla mangueirense Rubens e Capoeira), também reunidas no CD, Alcione reafirma a nova condição de sambista por excelência. Dessa época, apenas a balada "Planos de papel", de Raul Seixas, gravada para a trilha da novela O Rebu, da TV Globo, foi o ponto fora da curva na imagem da negra bonita, simpática e, portanto, sambista - proposta pela Philips e seu departamento artístico.
Mas como Alcione sabia das coisas, o rótulo do samba nunca lhe pesou nem lhe soou artificial. Fosse o samba sincopado, o samba-canção (o CD traz a bela versão da Marrom para "Linda Flor") ou mesmo o samba de enredo, terreno em que raras vozes femininas se atreveram a entrar. Desse último gênero, o CD traz as versões de Alcione para quatro sambas do carnaval de 1975: "Imagens poéticas de Jorge de Lima", "O mundo fantástico do Uirapuru", "Festa do Círio de Nazaré" e "O segredo das minas do rei Salomão" - ainda hoje, exemplos da melhor produção de samba enredo de todos os tempos.
Entre os registros inéditos, aparece "Sabiá Marrom", do maestro francês Paul Mauriat, que compôs a música em homenagem a Alcione. Sobre a composição, o músico declarou em 1977: "Quando comuniquei à Phonogram minha intenção de gravar um disco só com músicas brasileiras, recebi um monte de discos de diversos artistas para ouvir e selecionar as faixas. Entre todos, os que mais me impressionou foi o de Alcione. Existe alguma coisa em sua voz que me deixou emocionado, uma espécie de véu, e cheguei a pensar que ela fumava. Depois é que vim saber que Alcione não fuma, é uma propriedade natural de sua voz. Além do mais, ela canta o que os franceses esperam ouvir de uma cantora brasileira".
Ao ouvir essas primeiras gravações - que embasariam o padrão de seus primeiros (e ótimos) discos -, pode-se dizer que, mais importante do que os caprichos dos gringos, Marrom já cantou o que os apreciadores do samba e da boa música brasileira esperam de uma cantora brasileira. Hoje, infelizmente, ela virou um pastiche auto-indulgente de si mesma. Pelo resgate da cantora grandiosa que Alcione um dia foi, essa coletânea da Universal é um dos discos mais importantes do ano.
Abaixo, as duas versões de "Sabiá Marrom". A primeira, instrumental. A segunda, na voz de Alcione (com letra de Totonho e Paulinho Rezende).

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A paixão de Catulo


“I o sangue de Jesus Cristo / Sangui pisado de dô / Nus pé du maracujá  / Tingia todas as flor // Eis aqui seu moço / A estoria que eu vi contá / A razão proque nasce roxa  / A flor do maracujá” (Flor do Maracujá, Catulo da Paixão Cearense).

Até o início do século XX, tocar violão era um ato de heresia nos salões da alta sociedade. Instrumento de chorões, boêmios e malandros, só começou a ser reabilitado para a boa moral e os bons costumes da aristocracia brasileira quando, em 1908, Catulo da Paixão Cearense realizou um recital no Instituto Nacional de Música a convite do maestro Alberto Nepomuceno. “Músicos, literatos, médicos, jornalistas, advogados, engenheiros, professores, diplomatas, misturaram-se a populares”, espantou-se Catulo ao comentar a recepção ao recital, que fez um enorme sucesso. Tanto que ajudou a afirmar pelo País não só a imagem do violão como aquele que seria o principal suporte criativo da música brasileira, mas também a fama do cantor, teatrólogo e poeta nordestino. Em 1914, Catulo surpreenderia novamente o andar de cima ao fazer um recital no Palácio do Catete, a convite da primeira-dama Nair de Teffé (aquela que adotaria o pseudônimo da caricaturista Rian). É possível que tenha apresentado, na ocasião, a linda "Flor Amorosa", polca de Joaquim Callado que recebeu letra sua.
Nascido em São Luis , em 1863, Catulo mudou-se para o sertão cearense ainda criança e em seguida partiu para o Rio de Janeiro, onde sua família se estabeleceu. Na adolescência, quando já convivia com chorões como Viriato, Anacleto de Medeiros e Quincas Laranjeiras, tentou apresentar uma composição numa seresta na República de Estudantes mas foi impedido pelo pai, que quebrou-lhe o violão na cabeça pois não queria o filho envolvido na boemia. Fez-se poeta, editor de cordéis de modinhas e lundus, mas nunca abandonou a música, dono que era de um timbre de barítono e de uma dicção impecável com que interpretava seus poemas - muitos deles, escritos a partir de melodias dos compositores da época. Entre esses compositores, estava João Pernambuco, com quem travou uma briga jurídica pela autoria da melodia de “Luar do sertão”, sua letra mais célebre. Os tribunais decidiram a favor de Pernambuco, que passou a ser reconhecido como autor da música – embora alguns pesquisadores ainda defendam que tratava-se, na verdade, de um tema folclórico adaptado por Catulo.
Aos que quiserem mergulhar nos versos caudalosos do compositor, uma alternativa é vasculhar os sebos e a internet em busca de CDs como Catulo da Paixão Cearense na voz de Vicente Celestino e Paulo Tapajós, que o selo Revivendo lançou em 1994 a partir de fonogramas anteriores; ou a antológica História da Música Brasileira, lançada pela abril nos anos 70. Outra alternativa é o acervo do Instituto Moreira Salles, onde é possível encontrar vasto material de Catulo gravado por diversos cantores.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A batuta do IMS


Uma das notícias mais animadoras para a cultura brasileira nos últimos anos tem data para acontecer: o próximo dia 31 de agosto. É quando o Instituto Moreira Sales (foto acima) inaugura oficialmente a sua Rádio Batuta.  Trata-se do escoadouro em formato digital do acervo de cerca de cem mil fonogramas de música brasileira - a maior parte, discos de 78 rotações - arquivados e preservados pelo IMS.
A rádio tem coordenação do ensaísta Francisco Bosco, o que por si só também é outra notícia animadora. Intelectual com vasto espectro de interesses estéticos - além de parceiro rotineiro de composição com seu pai, João Bosco -, ele tem proposto uma formato cheio de vitalidade para um acervo que, nas mãos erradas, poderia virar um anódino armazém de secos e molhados. Sua gestão à frente da "emissora" propões novas relações e novos interesses para esse leito extenso de artistas e composições sobre o qual se transcorreu a história fonográfica de nossa música - desde os primeiros registros realizados no Brasil, ainda na primeira década do século passado; até a recente e decantada "crise da canção", que colocou em perspectiva - e numa produtiva oposição - os pensamentos de José Miguel Wisnik e Chico Buarque.
A rádio - que já pode ser ouvida em caráter experimental no site da instituição carioca - é apenas uma das interfaces do IMS e de seu tesouro com o público. O instituto carioca (que mantém "filiais" em São Paulo, Belo Horizonte e Poços de Caldas) também publica livros e revistas (como a ótima Serrote, pilotada por Paulo Roberto Pires), promove exposições e edita partituras - entre elas, a iminente caixa Pixinguinha na pauta: 36 arranjos para o programa 'O pessoal da Velha Guarda', que vai reunir partituras que evidenciam o lado arranjador do chorão-soberano.
Abaixo, algumas ideias de Bosco sobre a música popular, "uma criação cultural brasileira extremamente vigorosa e afirmativa", como ele define nessa entrevista ao programa Entrelinhas.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O canto contra a loucura


Elza Soares nasceu há 73 anos na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, "planeta da Fome", como desagravaria diante de um Ary Barroso estupefato em seu programa de rádio. Filha de uma lavadeira e um operário. Aos 12 anos, já era mãe. Aos 18, viúva. Casou-se novamente, viveu uma relação tumultuada com Garrincha, perdeu um filho. O canto, como definiria seu biógrafo José Louzeiro, era seu remédio diante de tantas tragédias. Elza cantava - e ainda canta - para não enlouquecer. Sua voz rouca, rascante, se impregnou da intensidade de sua biografia. Ceder à tentação de compará-la a cantoras como Billie Holiday ou Bessie Smith (pela força do canto e pela trajetória caótica) ou ainda Ella Fitzgerald (pelos scats virtuosos) seria uma injustiça com uma voz que, seja no samba ou no jazz, inaugurou uma trilha própria, que percorreu seu caminho movida apenas por seus músculos e vísceras. Seus discos - que, em geral, falam em alegria, em samba, em carnaval -, são o testemunho de sua crença na música, a arte à qual se entregou como pouquíssimas cantoras brasileiras.