terça-feira, 11 de junho de 2013
Nós que nos amávamos tanto (e amávamos tanto o jornalismo...)
Nós jornalistas vivemos uma terrível esquizofrenia. Teoricamente, por termos curso superior, nos vemos como profissionais liberais; mas, ao contrário de dentistas, arquitetos, advogados, etc, somos obrigados a alienar nossa força de trabalho porque não podemos, afinal de contas, montar um jornal, uma TV, uma rádio para cada um de nós. Por outro lado, as promessas da internet ainda não vingaram como realidade pecuniária. O que temos, por enquanto, é apenas uma farra libertária, que é ótima como (um início de) democratização da informação, mas que ainda não se consolidou como mercado de trabalho.
Pelo menos toda uma geração ainda nos separa de uma nova realidade de produção da informação (independente, liberal e com rendimentos decentes) no mundo digital. Até lá, na internet, com raríssimas exceções, reinará um quase diletantismo. Por ora, seguiremos como funcionários, peões com jornadas de trabalho extenuantes e sob imensa pressão. Seguiremos como trabalhadores de baixa renda, numa profissão que passa por uma histórica crise estrutural; nosso desemprego é estrutural. Há os que se acham algo além por conviverem de perto com os poderosos da política e/ou os donos do poder econômico. São cínicos ou ingênuos. Ou tudo isso junto. Ou coisa pior...
O debate sobre o diploma me parece um falso debate. De um lado, há os que querem nivelar por baixo a discussão e acabar com sua obrigatoriedade - são os que defendem o bundalelê no mercado. Pois penso que devemos nivelar essa discussão por cima e fazer do jornalismo um curso de pós-graduação. Quer ser jornalista?! Forme-se em direito ou economia ou história ou computação ou engenharia ou o que for e faça uma especialização em jornalismo. Isso iria elevar decisivamente o nível da nossa produção e criar uma outra realidade de mercado.
A nosso favor, por enquanto, ainda temos o fato de que somos fundamentais para a democracia e para o chamado estado de direito. Somos fundamentais para restituir ao debate público o espírito crítico. Somos imprescindíveis para dar voz a quem não consegue se manifestar publicamente. Ainda somos... Entretanto, somos todos, indistintamente, proletários. E isso parece nos causar um desconforto, parece criar um tabu, ensejar um recalque que embaça nossa capacidade de articulação e de mobilização. Some-se a isso, como é o caso do Ceará, um sindicalismo pífio e personalista e, voilà, eis o nosso dia-a-dia.
Enfim, sou apaixonado pelo que faço e tenho sincero orgulho de ser jornalista. Seguirei com meu ofício por acreditar realmente nessa missão. Mas talvez daqui a algum tempo tenha de procurar outra profissão para pagar minhas contas e, quem sabe, também custear meu ofício. Como o advogado que é apaixonado pela marcenaria; ou o engenheiro que também é cozinheiro; ou o médico que também é poeta.
Poderei me reinventar (creio que terei de me reinventar) e passar a ser outra coisa, mas seguirei sendo jornalista. Isso me cria enormes problemas e dificuldades, mas me dá uma imensa alegria.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
A invenção do sagrado
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| Júlia Miranda: religiosidade é uma infinidade de relações sentimentais com objetos bem terrenos (foto de Deyisson Teixeira) |
Entrevista publicada no caderno III da série Santificados do jornal O POVO. A íntegra do caderno pode ser lida aqui.
Antes da religião, a religiosidade. Esta podendo existir sem aquela. Nunca o contrário. E antes da religiosidade, o sofrimento, catalisador da crença na felicidade eterna. Na vereda trilhada pelo cristianismo no Nordeste, há pouco sacerdote para tanto desejo de salvação. Os santos populares seriam a medida dessa dessemelhança, desse distanciamento entre o nordestino e o catolicismo oficial. “A gente simples do Nordeste não resiste ao catolicismo oficial, recusando-o e a seus ‘santos oficiais’. Ao contrário, ela o aceita e respeita, mas ao seu modo.
Acrescenta, permite-se transgressões e faz usos particulares”, explica Júlia Miranda (foto), professora titular do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará e coordenadora do Núcleo de Estudos de Religião, Cultura e Política da UFC.
Em 1998, Júlia acompanhou no Piauí o caso do jornalista Donizetti Adauto, candidato a deputado federal assassinado a poucos dias das eleições. Por seu carisma entre a população mais pobre do Estado, Adauto galvanizou o imaginário religioso dos piauienses num movimento que deixou a pesquisadora ao mesmo tempo fascinada e surpresa. “O local onde ocorreu o atentado, à margem de uma das principais avenidas de Teresina, transforma-se em ponto de”, conta.
O novo mártir era, portanto, alguém que estava próximo fisicamente dos fieis, que por sua vez puderam ver e conviver com ele. Algo bem diferente dos “santos oficiais”, separados do povo por um distanciamento geográfico e histórico que forçavam o imaginário dos devotos a um exercício de abstração. “Quase nenhuma identificação além das supostas qualidades apresentadas pela Igreja (geralmente coragem, sofrimento, bondade)”, explica Júlia, que, por e-mail, concedeu a seguinte entrevista.
O POVO – Que leitura a senhora faz dessa busca pelo sagrado por parte do homem comum; dessa invenção espontânea do sagrado, num processo alheio ao cânone “oficial” e “institucionalizado” do Vaticano?
Júlia Miranda - O Nordeste tem uma história muito particular no que concerne aos desenvolvimentos históricos do cristianismo, principalmente do catolicismo, se comparada a outras regiões do país. Aqui, sempre foi muito grande a liberdade dos leigos religiosos, antes e depois da romanização levada a efeito pela Igreja Católica depois da separação oficial entre Igreja e Estado no País. O número de sacerdotes sempre esteve muito aquém das necessidades de dispensa dos bens de salvação a um povo que vê religiosamente o mundo. No interior nordestino, os leigos sempre “casaram e batizaram” conforme a expressão já consagrada pelo uso. Podemos acrescentar que canonizaram também. E o fazem cada vez mais.
OP - O Ceará se revela um terreno fértil para esse tipo de “santificação” pelas dificuldades econômicas e sociais experimentadas pela maioria de sua população? A carência estaria no íntimo dos crédulos (para recorrer a Schopenhauer)?
Júlia – (Georg) Simmel diz que a religiosidade precede a religião e o que está na origem da religiosidade é o sentimento de piedade, ou seja, uma disposição para amar, não direcionada a um indivíduo, sequer necessariamente a um deus. Esta concepção desvincula o sentimento religioso de qualquer ligação exclusiva aos objetos transcendentes; ele é uma infinidade de relações sentimentais com objetos bem terrenos; homens ou coisas, que podemos designar de religiosas (a criança, o patriota, o subalterno, o soldado, por exemplo). Logo, pode haver religiosidade sem religião, mas não o contrário. As religiões – como é consenso entre os cientistas sociais – estão caracterizadas, principalmente, pelas instituições que as representam. Penso que a combinação dos elementos de natureza, social, econômica e política dão historicamente lugar a manifestações variadas dessa piedade segundo culturas e povos.
OP - O que o Vaticano tem a ganhar e o que tem a perder com esse tipo de santidade popular?
Júlia - O nordestino é religioso porque ergue templos, cultua santos “oficiais” e cria outros tantos, segue rituais tradicionais, inventa novos ritos e adere aos sacramentos, ou tudo isso resulta de alguma disposição particular cuja origem promove a reunião da “piedade” com o cotidiano vivido através das práticas de dominação disfarçadas de compadrio e proteção? Parece que estamos aqui diante de uma aproximação particular de piedade e religião que implica justamente nesse seguimento da Igreja Católica e de seus preceitos ao mesmo tempo em que se permite uma extrema liberdade de recomposição de elementos.
OP - Os “santos” relatados por nossa reportagem emergem no imaginário popular independente da chancela do Vaticano. De que maneira eles expressam um sentimento de resistência e/ou de transgressão a esse mesmo cânone oficial da Igreja?
Júlia - A canonização popular não é resistência. Transgressão sim, pois implica um modo de “apropriação do dado” conforme as condições sociais daqueles que a fazem, obedecendo sua visão do mundo e da transcendência, seguindo-lhes o modo de sentir e de expressar sentimentos.
OP - Santificações como a de Antonio Conselheiro e José Lourenço, por exemplo, tiveram como pano de fundo atos de profundo sentido político. Em que medida a senhora acredita que o apelo ao sagrado é também um gesto de resistência política?
Júlia - Hoje mais do que nunca, as canonizações deixam a nu sua dimensão política latu e strictu sensu. Será por acaso que a Igreja Católica faz “vista grossa” a essas canonizações populares? Será igualmente coincidência o fato da canonização de José Maria Escrivá de Balaguer, o fundador da Opus Dei, e da quase concluída canonização do Papa João Paulo II terem seguido tempo recorde? É bom lembrar a história de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador que, nos anos 70, afirmava que a missão da Igreja é identificar-se com os pobres e é assim que ela encontra sua salvação. Próximo do cristianismo de libertação latinoamericano e solidário das lutas do povo salvadorenho, ele foi morto na igreja, quando celebrava a missa. O pedido para sua canonização está tramitando desde 1994. Fontes do Vaticano dizem que é preciso cuidado, pois há que ter certeza se o seu martírio foi religioso ou político. Você me pergunta se o apelo ao sagrado é também um gesto de resistência política. Inúmeros episódios analisados, mesmo por intelectuais marxistas, mostraram, como faz Michael Löwy sobre a guerra dos camponeses liderada por Munzer na Alemanha do século XVI e quando se refere à dimensão política do MST, que a religião pode ser uma linguagem política de resistência sim. O cristianismo como o islamismo – não aquele fundamentalista e praticante da violência, mas aquele da rejeição à xenofobia “ocidental” de certos governos europeus, por exemplo – têm na religião um estímulo à resistência. Isso é o século XXI. São novas linguagens e práticas políticas do religioso como fenômeno. Se formos ao sertão nordestino, os anos 70 são prenhes de episódios exemplares dessa resistência que fala a linguagem religiosa, como as romarias da terra, por exemplo. Os “santos do povo” não me parecem fruto de uma simples prática de resistência. Até porque a gente simples do Nordeste não resiste ao catolicismo oficial, recusando-o e a seus “santos oficiais”. Ao contrário, ela o aceita e respeita, mas ao seu modo. O que isso quer dizer? Acrescenta, permite-se transgressões e faz usos particulares. Seria no mínimo uma resistência que merece análise para não ser objeto de generalizações simplórias. Prefiro falar de apropriação. Mesmo porque resistência tem entre nós uma conotação política vinculada à luta dos oprimidos e implica conhecimento das causas e consequências das situações de dominação e de sua recusa, o que não é o caso aqui. Casos como o do padre Cícero parecem apontar para uma ação de afirmação de direitos. O direito de participar da decisão sobre quem deve ser santo.
OP - Todos os santos relatados em nossa reportagem são pessoas que experimentaram situações extremas de dor e sofrimento. Esse seria um elemento obrigatório na construção da “santidade” popular?
Júlia - A fé barroca é a fé do sofrimento ostensivo. Fé que oferece um testemunho público. O imaginário fértil do catolicismo barroco, com sua ênfase temática sobre a batalha entre o bem e o mal ou entre deuses e demônios; sobre o sacrifício e o sofrimento, é permanentemente reforçado pelas condições de vida da gente nordestina. A salvação da alma torna-se central nesse cotidiano inóspito, do qual não há como fugir, mas que pode ser recompensado com a felicidade e a paz eternas. A busca pela boa morte torna-se preocupação permanente para os fiéis. É um catolicismo de dor e de paixão, cujos imaginários sócio-religiosos se afinam com uma exuberante imagética (de formas e cores). Para o católico dos sertões nordestinos em particular, se o sofrimento é garantia de felicidade eterna ele deve ser reverenciado. E aquele que muito sofre, que morre sofrendo, merece homenagem, pois foi purificado pelo sofrimento e pode mediar a relação dos fiéis com deus, intercedendo por eles. Em contrapartida, os fiéis o cultuam, elevando esses “santos do povo” à mesma condição dos “santos oficiais”, milagrosos, mas distantes culturalmente. Fisicamente mesmo, pois dos “santos do povo” se sabe as histórias, convive-se com pessoas que os conheceram. Para a gente simples pensar os “santos oficiais” é um exercício de abstração. Quase nenhuma identificação além das supostas qualidades apresentadas pela Igreja (geralmente coragem, sofrimento, bondade). Compreende-se que tenham necessidade das imagens e que lhes deem um tratamento “personalizado”. As imagens possibilitam a proximidade. Mas, a Congregação para a Causa dos Santos, responsável pelo recebimento, análise e encaminhamento dos processos de canonização especifica que o amor à fé católica deve ser o motivo que determina o sofrimento do candidato a santo. Ele deve ter seu sofrimento associado à defesa e à pertença a essa fé. O processo de canonização, que vai da atribuição do status de servo de deus até o de santo, passando pelo de venerável e o de beato, costumava ser bem demorado. Curiosamente, durante o papado de João Paulo II, novas diretrizes agilizaram os procedimentos e esse papa fez mais canonizações do que a soma de seus antecessores. Roma precisa de santos. Eles e seus cultos é que garantem um elemento particularmente importante para a sobrevivência da Igreja Católica, ou seja, para sua presença no espaço público, sua visibilidade e reconhecimento, através de algo que só ela detém: os milagres. E os milagres fazem sair do cotidiano de sofrimento, do ordinário da vida. Provam o reconhecimento e a proteção de Deus mediados pela intercessão daqueles que a Igreja ou o povo elegeram.
OP - Nessa relação entre os devotos e os santos populares, fotos, altares, estátuas, etc, configuram-se como elementos mediadores da devoção. De que forma essas imagens fortalecem e alimentam esses mitos?
Júlia - O trabalho de catequese e as atividades pastorais tiveram sempre presente a advertência feita pelo papa Gregório, O Grande, de que “a imagem é a escritura dos iletrados”. Assim, no Brasil, a pobreza da pintura clássica ou erudita teve como contrapartida, o fato de, desde cedo, a religiosidade popular, ter-se tornado fértil terreno para a prática da representação iconográfica, principalmente através da estatuária e dos santeiros, como lembra José de Souza Martins. Os imaginários da fé cristã são indissociáveis das representações dos santos, nas pinturas e imagens esculturas de todo tipo. A arte barroca, que cedo marca a religiosidade popular, acrescenta às imagens o estilo teatral, como parte da mensagem.
OP - Alguma história de “santificação popular” e/ou “santidade popular” marcou sua vida?
Júlia - Em 1998, durante a campanha eleitoral em que o então governador Mão Santa, do Piauí, buscava a reeleição, tive a oportunidade de acompanhar o movimento do imaginário religioso – ou imaginário piedoso – dos nordestinos. Deixou-me fascinada e surpresa. Assim começam as mistificações que, no “processo popular de construção de santos”, estão na origem dessas canonizações. A poucos dias das eleições, o jornalista e candidato a deputado federal pelo PPS, Donizetti Adauto, é assassinado, supostamente a mando de seu companheiro de dobradinha. Donizetti, um jovem paranaense queridíssimo pelos segmentos mais pobres do estado e, sobretudo, da capital, trabalhava para o Grupo Meio Norte, pertencente ao adversário de Mão Santa, embora integrasse a coligação do governador. Sua prática desafiava os poderosos do estado segundo se diz. Enquanto ambos os grupos políticos tentam tirar proveito do fato, incriminando-se mutuamente, a população beatifica Donizetti Adauto. O local onde ocorreu o atentado, à margem de uma das principais avenidas de Teresina, transforma-se em ponto de romaria para onde acorrem populares, dia e noite, primeiro para prestar homenagem e depois, pouco a pouco, para pedir graças e pagar promessas. Os milagres, conforme ouvi, multiplicavam-se. E com eles os cartazes com poesias e declarações de saudade, as fotos, fitas, flores, velas e garrafas d’água. O Grupo Meio Norte manda finalmente erigir um monumento com o busto do jornalista por quem choram os segmentos populares que viam nele o defensor de seus direitos. Embora eu não tenha lá voltado nos últimos anos, penso que o processo de canonização não chegou a termo e deixo aos leitores a tarefa de especular sobre os elementos explicativos.
De anjo a santa-menina
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| Luzia, a devota: Regina virou farol sagrado para mães que perderam suas filhas |
terça-feira, 7 de junho de 2011
A ciência do diálogo
Penso a revista Entrevista, produzida pelos alunos da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso do curso de Comunicação Social da UFC, como a expressão de um espelho da universidade pública brasileira. Reflexo de possibilidades e impasses, de projetos e vocações que se perdem e se afirmam entre o que poderia ser e o que é efetivamente. Embora corrente - e muitas vezes redentora num país de tintas sociais tão desiguais -, creio distorcida a visão de que a Universidade tem por premissa fundamental abrir portas do mercado. Para isso, há no sistema educacional outras importantes instâncias de inclusão. O discurso do ensino superior como trampolim de oportunidades encerra uma tautologia que é tão mais redutora quanto mais distante daquilo que está no cerne de seu objeto: o saber. Não aquele "saber" excludente, preconceituoso e que se estabelece como instrumento de poder. Mas o livre-saber, que é fim em si mesmo (para, dentro da aventura do conhecimento, virar um novo recomeço em seguida) e que serve de alicerce para a experiência humana em todas as suas dimensões. Essa, a meu ver, a bússola da Universidade: rotas circulares e interconexas de conhecimentos - em permanente expansão - que permitem ao homem apropriar-se do universo e de si através da ciência.
Com o brilhantismo e a garra da coordenação do professor Ronaldo Salgado, há 18 anos a revista se propõe a sustentar tal estatuto. O de um saber amplo, republicano, democrático e humanizado. Em tempos de jornalismo cada vez mais "pragmático" e, no campo da linguagem - essa matéria-prima do saber -, cada vez mais telegráfico, ela nos é oferecida não como um contraponto, mas como a matriz diante da qual o radicalismo "de mercado" se encolhe, se percebe efêmero e anódino. Do campo da comunicação, a revista estende suas teias para os diversos outros campos do conhecimento através de longas e minuciosas entrevistas. Segue sua trilha propondo a experiência do debate como ponte, milhares de pontes simultâneas (e contraditórias posto que radicalmente humana), para destinos e sentidos imprevisíveis - mas que serão esquadrinhados e decantados pelo exercício tenaz e rigoroso dessa ciência do diálogo. Aos atalhos para o mercado, ela prefere outras curvas e veredas: solidárias e ensolaradas, como deve ser o saber.
Com a revista em mãos, percebe-se que o jornalismo, qual a universidade, pode mais porque a experiência humana pode mais. É essa a potência-síntese proposta por Ronaldo a seus alunos e seus interlocutores.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Das Redações
Leandro Fortes, jornalista, em seu blog.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Censura?
O texto abaixo foi retirado do blogo do escritor e historiador Guilherme Scalzilli.
"Imaginemos. Dois candidatos chegam ao segundo turno com iguais chances de eleição. Na véspera da votação, depois que os programas eleitorais terminaram, um jornal importante publica matéria reconhecidamente falsa, baseada em testemunho sem comprovação, acusando um dos pleiteantes de algo muito, muito feio. As emissoras aproveitam e repercutem a “matéria”, colocando-a na conta do jornal.
Previsivelmente, o infeliz perde a eleição. Nas semanas seguintes, porém, consegue provar sua inocência e a má-fé dos veículos que o prejudicaram. Como remediar um dano desses? Que valor deveria ter a multa ou a indenização impostas ao jornal? Mesmo um radical encerramento de suas atividades remediaria quatro anos sob o comando de uma farsa política?
A única maneira legítima e razoável de prevenir esse absurdo é proibir judicialmente a publicação de determinados conteúdos que podem causar danos irreparáveis ao processo eleitoral. Pois a imprensa corporativa chama isso de “censura”. Ela quer interferir nos rumos do país como um Super-Poder magnânimo que possui total liberdade e nenhuma das restrições legais que atingem os cidadãos ordinários. E o Judiciário, constrangido lá com suas próprias desmoralizações, aceita ser achacado por essas famílias empresariais de aspirações pouco democráticas".
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Francis e o efêmero da afetação
Paulo Francis, que completaria 80 anos este mês, não morreu devido ao suposto erro médico que confundiu um lento e vigoroso ataque cardíaco com uma bursite. Francis morreu vitimado pela rara e explosiva combinação de inteligência, empáfia, carisma e obtusidade que lhe temperaram a verve. Na discussão sobre jornalismo, sempre fiquei meio cismado com o discurso segundo o qual Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e quejandos seriam apenas uma cópia menor, imperfeita, menos letrada, de Francis. Este, sim, segundo o tal raciocínio, um exemplo maior de talento, cultura e brilhante mordacidade. Bobagem. Francis foi apenas mais um aríate debochado e despudorado do conservadorismo que sempre segurou as rédeas do jornalismo de massa em nosso país.
Nunca me pareceu que suas (auto-)anunciadas qualidades pudessem servir de exemplo para nada ou ninguém. Seja porque nunca consegui divisar, nele, nada além do cronista racista, leviano, plagiário e fanfarrão; seja porque acredito num jornalismo que se constroi com fatos, confronto dos contrários, entrevistas e muita transpiração. Acredito num ofício que é feito de impressões, mas também de apuração, seres humanos e de rua (não necessariamente no sentido físico, mas a rua como o olhar, como a abertura para a alteridade). Francis foi o contrário disso, foi a personificação de um ofício meio dândi, auto-indulgente e profundamente cínico. Algo mais próximo do teatro e da performance - teatro e performances ruins - do que do jornalismo. A vida real sempre me pareceu mais provocadora do que os trocadilhos emplumados e supostamente "provocadores" de Francis.
Ao arrotar que os diretores da Petrobras mantinham dinheiro no exterior, ele caiu na armadilha que vendia para seus leitores - a confusão entre jornalismo e uma outra coisa que se equilibrava entre a literatura (medíocre), a embriaguez, o ranço conservador e a afetação que costuma ocupar o lugar da falta de argumentos racionais. Sem provas que materializassem seu "furo", atravessou a fronteira que separa o jornalismo real do opinionismo leviano, a vida real do esnobismo novaiorquino. Foi processado e suas coronárias não aguentaram o tranco.
Nelson Hoineff lhe dedicou um bom e belo documentário no ano passado. Soube reconstruir de modo honesto a imagem controversa do jornalista, mas não explorou de modo enfático nenhum flanco mais constrangedor para a memória de seu protagonista. Preferiu focar o carinho dos amigos, onde afinal persiste a única posteridade possível para um doxômano como Francis, escritor frustado que não deixou filhos nem nenhuma realização artística/jornalística de relevo. O efêmero do cotidiano, onde o jornalismo reinventa seu enredo diariamente, segue arrastando seus textos e comentários - todos datados - para o esquecimento. A vida real (e jornalismo real, quem sabe), afinal, é sempre mais forte.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O valor da liberdade de expressão
O sociólogo Demétrio Magnoli é um aríete do neoliberalismo, espécie de viúva de FHC (que, aliás, chegou a escrever a apresentação de um de seus livros) a quem os jornalões pagam um apanágio de projeção midiática. Difere-se do tom irresponsável e canastrão de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi apenas pela rala plumagem acadêmica que lhe serve de biombo para o tatibitate de rasteiras ideias. Mas é igualmente irresponsável e canastrão. É o típico intelectual sabujo, para usar uma expressão de Mino Carta, com particular fôlego para falar bobagens sobre, por exemplo, a questão racial no Brasil.
Ontem, durante evento da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Magnoli - que, a depender da biruta de quem lhe paga, pode falar sobre qualquer assunto fazendo-se passar por um especialista - saiu-se com uma pérola de fazer corar mesmo o mais "integrado" dos jornalistas. Ao falar da sobrevida dos jornais impressos diante das novas possibilidades de produção e disseminação da informação, defendeu que o impresso é "mais importantes do que nunca" porque impede a "desconstrução" da opinião pública que estaria em curso nos incontáveis palanques de debates criados pela internet. Segundo Magnoli, a credibilidade dos jornais impressos - pasmem! - está associada à ideia de valor, ao dinheiro necessário para publicá-los. "Publicar na internet não custa nada" e por isso, na lógica alucinada do sociólogo, não tem valor.
Ora, ora. O mesmo analista que vive a questionar as tentativas legítimas de controle social da mídia em nome da suposta "liberdade de expressão", que vive tentando colar (de modo ardiloso e cínico) a pecha de anti-democrático no governo Lula, é o mesmo que não sabe conviver com a profusão de tribunas da internet. É por essas e outras que o debate sobre a grande imprensa no Brasil anda tão atravancado e distorcido.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
O Pulitzer e o Publica

No último domingo, o jornal O POVO retomou, com um bom caderno sobre o tema, a discussão a respeito da nova (re)configuração dos jornais diante da consolidação de novas tecnologias de disseminação e de consumo da informação. Por coincidência, na mesma semana do caderno, o tradicionalíssimo Jornal do Brasil (curiosamente, o primeiro jornal brasileiro a fincar sua bandeira na internet) anunciou que iria fechar sua edição impressa, mantendo apenas seu formato digital. Entre a sanha "apocalíptica" de ver no episódio do fim JB impresso o prenúncio definitivo do fim do jornal, da vitória da superficialidade, etc; e a sedução "integrada" de divisar uma nova era de Aquarius para os jornalistas com essas novas possibilidades tecnológicas - que prescindiriam da discussão sobre as condições materiais de trabalho da categoria; lembrei-me do caso do prêmio Pulitzer deste ano, em que, pela primeira vez na história, uma organização de mídia digital ganhou a honraria.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Da arte da distorção
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Elifas Andreato

quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O planeta politicamente incorreto

"Maluf se entrega à polícia”. “Nelson Ned é o novo Menudo”. “Paulo Francis na presidência da Funai”. “Newton Cruz prende Deus”. Essas e outras manchetes esdrúxulas estampavam a capa da primeira edição do Planeta Diário, um jornaleco criado pelos humoristas Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva e auto-intitulado “o maior jornal do planeta”. Terminava o ano de 1984 e o Brasil apenas começava a sacudir a poeira da ditadura, esperando dar a volta por cima do autoritarismo, da quebradeira econômica, do obscurantismo moral, etc. Toda uma geração, que passara a adolescência debaixo das barbas dos generais, chegava à maturidade (ou quase) sem saber direito o que fazer com aquele novo clima de liberdades individuais. Os três “editores” do Planeta também não. Na dúvida, resolvem sair esculachando, literalmente, com Deus e o mundo. Para bem e para o mal, nascia um novo formato de humor no Brasil.
“Candidatos epiléticos se debatem na TV”. “Acidente nuclear: cadáveres de Goiânia estão fora de perigo”. “Cai a estabilidade no emprego: Sarney é demitido por justa causa”. “113,7% dos eleitores acham que pesquisas estão erradas”. “Afif prometeu aos que o mandaram à merda que ‘juntos chegaremos lá’”. “Até japoneses acham o mínimo ridículo”. “Mala estava vivo: Oswaldo Montenegro encontrado a salvo na bagagem do boeing”. Entre o besteirol mais cretino e o politicamente incorreto mais despudorado, esse era o tom das manchetes do jornal. Nos editoriais, algumas das bandeiras e compromissos da “instituição”: “O povo brasileiro, que já é meio burro, não está entendendo nada: o presidente não usa mais aliança e cueca, Jânio Quadros parou de beber e na União Soviética o comunismo, o pão, o açúcar e a batata acabaram”.
Já os leitores interessados em economia não podiam perder seções de serviço como “Seu dinheiro... porque o meu já acabou” ou “Economia popular: formas alternativas de sobrevivência”. Os mais descolados podiam acompanhar discussões sobre a depressão de Zé Ramalho ou o legado de On the Road (devidamente traduzido para “Abre a rodinha”).
A editora Desiderata – que tem lançado ótimos títulos de Millôr Fernandes, Ivan Lessa e congêneres – montou uma coletânea com o melhor (o melhor?) das 77 edições do Planeta Diário, que conseguiu sobreviver até 1991, quando dois de seus editores se juntaram ao Casseta Popular, outro “periódico” canastrão da época, e, numa fusão nada murdochiana, formaram o Casseta & Planeta. Cláudio Paiva virou redator da Globo. Hoje, Hubert, Reinaldo e cia. estão plenamente domesticados pelos padrões globais de produção, por seus próprios clichês e pelo “trocadilhismo”, a doença infantil do humor. Na época do Planeta Diário, no entanto, suas edições cuspiam abelha – e não raro cometiam o que hoje seriam considerados “excessos” de deixar a turma do Pânico na TV! pouco à vontade.
terça-feira, 28 de julho de 2009
O suicídio via google
Ex-colunista do Wall Street Journal, o jornalista britânico Jeremy Wagstaff mantém um blog sobre tecnologia (www.loosewireblog.com) em que traz levantamentos, no mínimo, pitorescos. A partir do Google Search Trends - ferramenta que mapea as principais tendências de pesquisas feitas em todo mundo no localizador -, ele descobriu, por exemplo, que a frase "commit suicide painlessly" (cometer suicídio sem dor) disparou entre outubro do ano passado e março deste ano, não por acaso o período crítico da crise econômica mundial. segunda-feira, 20 de julho de 2009
Publicidade: Secom democratiza em quase 1000% distribuição de verbas

Até 2003, o Governo Federal concentrava sua verba publicitária em 499 veículos e 182 municípios. No ano passado, o universo de órgãos de comunicação contemplados subiu para 5297, em 1149 municípios. Em termos percentuais, um aumento - leia-se democratização - de quase 1000% (961% para ser mais específico) na repartição das verbas. Detalhe: as verbas publicitárias dos órgãos ligados ao Governo Federal permaneceram no mesmo patamar da era FHC, algo em torno de R$ 1 bilhão por ano. "Pelo mesmo custo, (o Governo) está falando melhor e mais diretamente com mais brasileiros. Acompanhando a diversificação que está ocorrendo nos meios de comunicação", afirmou o ministro Franklin Martins (foto), da Secretaria de Comunicação Social, que divulgou esses números.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Dines e o "festival de hipocrisia"
Cheguei com atraso ao texto "Festival de hipocrisia", de Alberto Dines, publicado no site do Observatório da Imprensa, sobre a decisão do STF. Mas a leitura continua quente. Estes novos defensores da liberdade de expressão até agora não se deram ao trabalho de explicar à sociedade quem lhes conferiu o diploma de representantes do interesse público. Qual a credibilidade do Sindicato das empresas de rádio e Tv do estado de São Paulo para falar em nome da sociedade civil? As emissoras reunidas neste Sindicato, todas concessionárias da União, por acaso têm reputação ilibada? Respeitam o telespectador, obedecem à classificação indicativa, oferecem um entretenimento edificante?
O fim do diploma teve o mérito de mostrar mais uma vez como se comporta a mídia quando os seus interesses estão em jogo.
O episódio foi acompanhado por uma cobertura parcial, claramente manipulada. Ninguém explicou o que é que o Ministério Público Federal estava fazendo numa ação difusa, doutrinal, suscitada aleatoriamente, sem fato novo ou ameaça imediata. Isto não foi explicado. Nada foi explicado, importava martelar um único factóide. Os males da nossa imprensa decorrem da obrigatoriedade do diploma.
Não é estranho que, na grande mídia, só se manifestaram os profissionais contra o diploma? A favor do diploma só apareceu um grande nome: o colunista da Folha, Jânio de Freitas. Por acaso não há outros? Onde está o pluralismo de uma imprensa que se pretende livre e objetiva? É certo que a centenária ABI e a Federação dos Sindicatos apareceram num cantinho do noticiário repudiando a decisão do STF. Mas por que não se publicou o voto do ministro Marco Aurélio de Mello, o único ministro que ousou contestar os argumentos do relator Gilmar Mendes?
O diploma de jornalista para o exercício do jornalismo foi considerado desnecessário pela Suprema Corte. Mas graças a este mesmo diploma tivemos o privilégio de assistir ao festival de hipocrisias daqueles que usam o pretexto da liberdade de expressão para acabar com ela".
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Diploma de jornalismo: "cenário brasileiro é exótico", condena advogado

Em artigo publicado na Folha de São Paulo, o advogado José Paulo Cavalcanti (ex-presidente da Empresa Brasileira de Notícias) reposiciona o debate sobre a exigência - ou a falta dela - do diploma de jornalista para o exercício da profissão. "Não, o diploma dos jornalistas não acabou. A decisão do Supremo Tribunal Federal, na última semana, limitou-se a dizer que o decreto-lei 972/69 era incompatível com a Constituição democrática de 1988. Mais nada", escreve o advogado. Tecnicamente, a decisão do STF, de acordo com Cavalcanti, é correta na medida em que não poderia deixar vigendo uma regra acessória do decreto-lei (justamente o artigo 4, que prevê a exigência) enquanto o decreto em si já havia sido refutado pela Corte. Não houve, e aqui vale o destaque, julgamento sobre o diploma, que poderá voltar a ser exigido em lei.
Sobre as declarações de Gilmar Mendes a respeito a possibilidade de um projeto de lei infra-constitucional restabelecer a obrigatoriedade do diploma - classificado como inconstitucional pelo comandante falastrão do STF -, Cavalcanti diz que são apenas "palavras ao vento". "Gilmar Mendes, mais uma vez, expressa opinião pessoal sobre tema que pode vir a ser discutido no Supremo - em vez da reserva que, como regra, a seus ministros conviria guardar em situações assim".
Enquanto o diploma não volta à pauta da Justiça, alguns números levantados por Cavalcanti cutucam o vespeiro com lâminas mais afiadas. O primeiro deles é o de que o modelo de "desregulamentação absoluta" - como a que se coloca agora no Brasil - existe apenas em três países (Chile, Áustria e Suíça). Outros 14 ainda compartilham do já antigo modelo brasileiro; entre eles, Bélgica, África do Sul e Arábia Saudita. Nos demais países, a questão é matizada, mas nenhum deles prescinde de algum tipo de regulamentação em torno da profissão (escolaridade, ausência de condenação penal, algum curso médio ou superior, curso preparatório específico, estágios compulsórios).
"Na Alemanha, por exemplo, quase nenhum jornal importante contrata quem não tem diploma. Nos Estados Unidos, onde ele também não é exigido, há 400 faculdades, 120 cursos de pós-graduação e 35 doutorados; sem contar que, na média, 80% das Redações são compostas por diplomados", cita. "Maior diferença, entre Redações brasileiras e estrangeiras, é precisamente a quantidade de jornalistas com cabelos brancos: abundantes, nas democracias consolidadas, e escassos, no Brasil, pelo uso indiscriminado de estagiários, lumpens na profissão, mão de obra jovem e barata".
Vale ler a conclusão do artigo:
"Mas por que jornais, em regra, tanto querem jornalistas diplomados? A resposta é simples. Por ser dispendioso ensinar, dentro das Redações, a fazer um jornal. E também porque jornalistas aprendem, nas universidades, que errar custa caro. Nos Estados Unidos, com vitória dos demandantes em 75% dos casos, a média das indenizações oscila entre US$ 100 mil e US$ 200 mil dólares.
Com frequência, vai muito além disso. Por exemplo: Leonard Ross x New York Times, US$ 7,5 milhões; Richard Sprague x Philadelfia Inquirer, US$ 34 milhões; Victor Feazel x Dallas Television Station, US$ 58 milhões; Wall Street Journal x Money Management Analytical Research, US$ 222,7 milhões.
Dando-se então que jornalistas formados, por estatisticamente errar menos, valem mais. E ganham bem mais também, claro. Desde que haja leis de imprensa decentes, faltou dizer. O que nunca tivemos -e continuamos sem ter.
Posta a questão em tons técnicos e mais serenos, o que se vê hoje em nosso país é um cenário anormal. Exótico. Porque, em toda parte, são os próprios jornalistas que não aceitam a exigência do diploma, enquanto aqui sua defesa é feita pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). E empresas sempre pedem diploma - enquanto aqui as restrições contra ele partem de um de nossos mais respeitados jornais, a Folha de S.Paulo.
Dando os trâmites por findos, assim, cumpre agora esperar por legislação específica do Congresso Nacional - a quem cabe, com mais propriedade e mais legitimidade, estabelecer requisitos para o exercício das profissões. A ele cumprindo, afinal, decidir se o diploma deve ser mesmo exigido.
Ou não".
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Sem lenço, sem diploma... (ou Os Cuervos)

Abaixo, um ótimo artigo, de autoria da jornalista Elaine Tavares, sobre a decisão do STF em relação ao fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.
Paulo Freire, o grande educador brasileiro que é praticamente desconhecido no Brasil, sempre foi enfático com relação à alfabetização. "Não basta saber ler, é preciso saber ler o mundo". Queria dizer com isso que aprender era coisa que ia muito além da compreensão sobre como se juntavam as letras. Era necessário estar capacitado também para uma leitura crítica do mundo. E como é que se consegue isso? Não basta unicamente estudar, ler, ter acesso a múltiplas fontes de informação, múltiplos pontos de vista. É preciso fundamentalmente saber de onde se é. E o que isso quer dizer? Que a pessoa precisa ter bem claro o lugar que ocupa no mundo, o que, no mundo capitalista, nos leva a uma compreensão da nossa posição de classe.
A votação sobre a não exigência do diploma para a profissão de jornalista, que aconteceu no STF brasileiro, diz bem desta questão. Ali estavam os senhores togados, representantes da classe dominante. São homens nomeados pelos presidentes de plantão para defender os interesses dos que mandam. Nada mais que isso. Vez ou outra acontece uma decisão com base na lei, mas sempre é coisa pequena, que não mexe nas estruturas, porque como bem diz o professor Nildo Ouriques, da UFSC, a democracia liberal é um regime sem lei. Neste modo de governo, as leis são mudadas ao bel prazer da minoria que tem o comando.
Vejamos os argumentos do ministro Gilmar Mendes para que a profissão prescinda de uma formação universitária: "Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até a saúde e à vida dos consumidores. Logo, um jornalista não precisa de formação para fazer bom jornalismo." Alguém entendeu?
Pois claro. Vamos supor que o que tivesse em questão fosse a necessidade de uma faculdade de Direito para que o juiz pudesse julgar a vida de outras pessoas. Poderíamos, qualquer um, argumentar o seguinte: "Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores. Logo um juiz não precisa de formação para ser um bom juiz. Basta que ele tenha um bom senso de justiça e estude muito. "Simples não?
Num país onde a maioria da população, desprovida do acesso à cultura e a educação, que se informa pela Globo, este simplório argumento representa uma vergonha. E nos causa profundo pesar ouvir isso de alguém que está acima de praticamente todos os habitantes da nação, o presidente do STF. É um argumento anti-intelectual, anti-cultural, anti-vida.
Minha mãe era uma grande cozinheira, mas sua comida divina nos era servida em casa, para a família. Não estava ela inserida no sistema de super-exploração capitalista, atuando numa empresa transnacional, na qual imperam os conceitos de competição, baixos salários e disputas intestinas. Não estava ela submetida a patrões, organogramas e metas de produtividade. Não estava também integrada num regime de divisão do trabalho aos moldes de garantir maiores lucros aos patrões. Logo, a decisão tomada nesta quarta-feira pelo STF foi uma decisão de classe. A defesa intransigente dos donos de jornais e empresários da comunicação que querem apenas gente minimamente capacitada para ler, não para ler o mundo. Porque o ser crítico, desejado por Paulo Freire, é um indivíduo perigoso demais. Ele reclama, ele reivindica, ele luta e ele ensina. A elite brasileira não quer isso para o seu povo. Há que mantê-lo sempre atado ao cabresto da ignorância, ao entretenimento, a mais-valia ideológica promovida pelos meios de comunicação de massa. Dá-lhe Big Brother, a Fazenda e outros quetais.
Voltando aos tempos do início do capitalismo
Quando a Idade Média terminou, foi-se chegando um jeito de organizar a vida que mais tarde viria a ser chamado de capitalismo. É o supra-sumo da liberdade, dizem os seus defensores. Nele, o trabalhador tem escolhas. Como era naqueles dias em que as fábricas passaram a dominar a vida. O povo empobrecido dos burgos tinha como escolher: ou se submetia a trabalhar vinte horas em condições insalubres e de quase escravidão, ou estava morto. Grande escolha.
Agora, no mundo capitalista da mídia selvagem e cortesã estamos no mesmo patamar. Os profissionais não precisam de formação específica, só vocação. Depois, uma vez dentro da empresa terão escolhas. Ou se submetem a salários mais baixos, condições precárias, opressão, assédio moral e tudo o que vem de lambuja no processo de super-exploração, ou não entram nesta profissão tão simples quanto fritar um bife.
Bueno, e não é por acaso que o futuro esteja praticamente na mão da empresas de mídia, visto que hoje em dia a produção de informação é o xodó do planeta. Logo, aquilo que é a coisa mais importante para um povo, o conhecimento das coisas da vida, ficará entregue a sanha do capital. Aos trabalhadores restará a opção democrática: aceitar ou cair fora. Não precisa ser vidente para prever o futuro: profissionais capacitados serão substituídos por quem aceitar submeter-se a salários menores. Será o "lindo" mundo habermasiano do consenso. A livre negociação entre empresários e trabalhadores. O tubarão dialogando com a sardinha.
Alternativas
Quem acompanha a vida cotidiana dos jornalistas nos locais de trabalho sabe que as coisas vão piorar muito. Até agora ainda havia um mínimo de regulação, uma pequena fatia de direitos com a qual o sindicato podia mover-se. Era possível fazer a luta através da Justiça ou da delegacia do trabalho. Havia um amparo mínimo. Agora não há mais. Os trabalhadores estão entregues a sua sorte, porque até que se crie uma nova lei com algum tipo de regulamentação a vida seguirá seu curso inexorável.
Mas, como dizem os cubanos - acostumados a bloqueios e vicissitudes - às vezes o horror pode servir para o passo adiante. Nos últimos tempos estávamos entregues a um trabalho sindical burocratizado, limitado às ações na Justiça. Havia uma apatia dos trabalhadores frente às lutas, uma espécie de "deixa que o sindicato resolva". E os sindicatos, esvaziados de vida, iam arrastando-se, ganhando uma coisinha aqui e outra ali, amansando o monstro.
Agora estamos no chão. Os empresários ganharam esta batalha. Desregulamentados totalmente, estamos entregues aos desejos dos patrões. Sem medidas compensatórias via Justiça só cabe uma ação: a luta mesma, renhida e dura. Voltarmos aos tempos em que os trabalhadores se reuniam nos sindicatos para conspirar e organizar batalhas contra o capital. Então, é chegada a hora. De volta às ruas, de volta à organização, de volta a vida! Foi só uma batalha...Outras virão.
Por isso, agora, estamos num momento de viragem. Ou inventamos ou morremos, como dizia Simón Rodrigues. Para novas liras, novas canções. Nada de soluções atrasadas como a do Conselho Federal de Jornalismo que só engessa e institucionaliza a luta. Nada temos a perder, apenas nossos corpos nus, como dizia Marcos Faermann. Só os trabalhadores unidos e organizados podem mudar o seu destino. Por isso, vamos à luta. Refazer os mapas, reorientar rumos, mas organizados no sindicato.
Os patrões talvez não tenham se dado conta, mas ao nos tirarem tudo podem estar criando "cuervos". Nada mais perigoso que um homem sem esperança!
Elaine Tavares é jornalista.
Os sem diploma
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Por ser contra o diploma, sou a favor dele
O STF adiou a decisão sobre a obrigatoriedade do diploma de graduação em jornalismo para o exercício da profissão. Alguns analistas têm misturado as coisas e colocado a discussão sobre o tema no mesmo balaio da discussão sobre a lei de imprensa, uma das últimas heranças do regime militar em vigor no Brasil. Tratam a obrigatoriedade como um "entulho" autoritário que limitaria a liberdade de expressão no País. É, no mínimo, cínico e mal intencionado, tal argumento. segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Deu no Blog do Noblat
Gente,
Tomei foi um susto. Mas o nosso glorioso talabarte foi parar no blog do Noblat. Divido minha alegria com vocês. Abração







