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domingo, 28 de novembro de 2010
A esperança em dez cordas
Hamilton de Holanda é um homem de seu tempo. Reinventa seu instrumento, ampliando suas possibilidades de expressão (entre elas, o auto-acompanhamento); conecta ouvintes e músicos de todo o mundo em novas plataformas tecnológicas, onde divulga seu trabalho e funda amizades; revira o baú das nossas melhores memórias musicais; e percorre os cinco continentes desbravando novas audiências e novos encontros (que vão dos venezuelanos do Ensamble Gurrufio ao ex-Led Zeppelin John Paul Jones). Não utiliza a tradição como biombo para certa auto-indulgência criativa nem vende a alma às tentações fugazes da contemporaneidade, da música de mercado e de outros faustos do tipo. Sua carreira é uma celebração permanente e otimista de nossos dias, em que utiliza como armas repertórios de todas as épocas mas também mira o futuro propondo novas composições.
Seu disco mais recente é mais um capítulo nesse caudaloso e compassado discurso sobre nosso tempo que Hamilton vem construindo há mais de quinze anos. Esperança, resumo de uma turnê pela Europa em que o brasileiro subiu em palcos da Finlândia, Áustria, França, Alemanha e Suíça acompanhado apenas de seu bandolim de dez cordas. Nas primeiras audições, lembrei-me de Keith Jarrett, pela aventura individual da improvisação; e também de Jacob, pela virtuose, pela matriz rigorosa a partir da qual Hamilton pode expandir seu som. Lembrei-me de Luperce Miranda, pela sonoridade que sugeria o encontro de dois ou três bandolins ao mesmo tempo quando era apenas um que se projetava no palco.
Mas o som que brota do disco é fugidio a esses paradigmas. É Hamilton que se pronuncia ali, inteiro, corajoso, monumental. Contemporâneo ao revisitar a tocante "Vou vivendo", de Pixinguinha; e "Canto de Ossanha", de Vinícius e Baden. Lírico ao se debruçar sobre as notas redundantes de "O que será", de Chico; ou sobre as encruzilhadas bachianas de "7 anéis" de Gismonti. Inventivo - e quase figurativo - em suas próprias "Esperança", "Pros anjos" e "Ettiene".
Um disco para se sentir vivo e para saber da vida em nossos dias. Vida longa a Hamilton e suas cordas!
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
A paixão de Catulo
“I o sangue de Jesus Cristo / Sangui pisado de dô / Nus pé du maracujá / Tingia todas as flor // Eis aqui seu moço / A estoria que eu vi contá / A razão proque nasce roxa / A flor do maracujá” (Flor do Maracujá, Catulo da Paixão Cearense).
Até o início do século XX, tocar violão era um ato de heresia nos salões da alta sociedade. Instrumento de chorões, boêmios e malandros, só começou a ser reabilitado para a boa moral e os bons costumes da aristocracia brasileira quando, em 1908, Catulo da Paixão Cearense realizou um recital no Instituto Nacional de Música a convite do maestro Alberto Nepomuceno. “Músicos, literatos, médicos, jornalistas, advogados, engenheiros, professores, diplomatas, misturaram-se a populares”, espantou-se Catulo ao comentar a recepção ao recital, que fez um enorme sucesso. Tanto que ajudou a afirmar pelo País não só a imagem do violão como aquele que seria o principal suporte criativo da música brasileira, mas também a fama do cantor, teatrólogo e poeta nordestino. Em 1914, Catulo surpreenderia novamente o andar de cima ao fazer um recital no Palácio do Catete, a convite da primeira-dama Nair de Teffé (aquela que adotaria o pseudônimo da caricaturista Rian). É possível que tenha apresentado, na ocasião, a linda "Flor Amorosa", polca de Joaquim Callado que recebeu letra sua.
Nascido em São Luis , em 1863, Catulo mudou-se para o sertão cearense ainda criança e em seguida partiu para o Rio de Janeiro, onde sua família se estabeleceu. Na adolescência, quando já convivia com chorões como Viriato, Anacleto de Medeiros e Quincas Laranjeiras, tentou apresentar uma composição numa seresta na República de Estudantes mas foi impedido pelo pai, que quebrou-lhe o violão na cabeça pois não queria o filho envolvido na boemia. Fez-se poeta, editor de cordéis de modinhas e lundus, mas nunca abandonou a música, dono que era de um timbre de barítono e de uma dicção impecável com que interpretava seus poemas - muitos deles, escritos a partir de melodias dos compositores da época. Entre esses compositores, estava João Pernambuco, com quem travou uma briga jurídica pela autoria da melodia de “Luar do sertão”, sua letra mais célebre. Os tribunais decidiram a favor de Pernambuco, que passou a ser reconhecido como autor da música – embora alguns pesquisadores ainda defendam que tratava-se, na verdade, de um tema folclórico adaptado por Catulo.
Aos que quiserem mergulhar nos versos caudalosos do compositor, uma alternativa é vasculhar os sebos e a internet em busca de CDs como Catulo da Paixão Cearense na voz de Vicente Celestino e Paulo Tapajós, que o selo Revivendo lançou em 1994 a partir de fonogramas anteriores; ou a antológica História da Música Brasileira, lançada pela abril nos anos 70. Outra alternativa é o acervo do Instituto Moreira Salles, onde é possível encontrar vasto material de Catulo gravado por diversos cantores.
domingo, 1 de agosto de 2010
Tudo fachada






Um ou outro artista ainda conseguiu se sair com soluções interessantes para o novo (e reduzido) tamanho das capas dos discos. Mas ficou claro que algo se perdeu entre a era dos discões, cujos encartes eram manuseados quase como um ritual que acompanhava toda a audição do LP; e a então novíssima era das caixinhas de plástico - que, como lembra Ruy Castro no artigo "O homem que inventou a capa do disco", vinham "envoltas num infernal preservativo à prova de unhas".
A imagem que durante décadas servia para apresentar, representar ou mesmo explicar a música gravada, ganhava um novo sentido na nova economia simbólica da era digital. Essa processo desaguaria, em nossos dias, na era da audição veloz e fragmentada, quando a tecnologia do MP3 e quejandos estilhaçou o conceito mercadológico do disco e apartou de vez som e imagem - ou pelo menos a imagem das antigas capas. Para o bem e para o mal, escuta-se cada vez menos álbuns para se escutar apenas e cada vez mais músicas, tão assistemáticas e diversas quanto mais nova for a tecnologia e o design do Ipod.

No entanto, a história gráfica da indústria fonográfica, que remonta a Alex Steinweiss, publicitário norte-americano que criou, em 1939, a primeira capa para um álbum, produziu peças antológicas, que ainda embalam os sentimentos dos mais saudosistas e fascinam os modernos de olhar mais delicado. Das capas leves e inteligentes dos discos do selo Blue Note ao tom repolhudo e pomposo das fachadas dos eruditos da Deutsche Grammophon. Da força das capas dos discos de rock dos anos 60 e 70 à explosão kitsch da música pop dos anos 80.
No Brasil, a história dos capistas de música começa com nomes como Paulo Brèves e Paez Torres, argentino radicado no Rio de Janeiro; passa por revolucionários como Cesar Villela, que assinou as capas da gravadora Elenco durante boa parte dos anos 60; até chegar em Elifas Andreato, a expressão maior dessa arte em nosso País. Da novíssima geração, destacam-se nomes como o cearense Renan Costa Lima, que assinou a capa de CDs de artistas como Céu e Cidadão Instigado.

Ao longo desse post, reuni algumas das capas que mais me fascinaram ao longo de minha vida de apreciador de música. E de discos. Naturalmente, não é possível medir a qualidade da música pelos truques e sacadas dos capistas e há casos notórios de grandes discos embalados por capas pífias. Mas, em geral - e a história do jazz, por exemplo, comprova isso -, uma boa capa é garantia de ótima música.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Diálogos Possíveis: David Gouveia

Um rápido e delicioso sarau com David Gouveia, o David 7 Cordas, um dos mais talentosos músicos da nova geração do samba e do choro no Ceará e um observador atento das coisas da nossa música. Na pauta, os encantos e mistérios do violão 7 cordas, que em Fortaleza encontrou terreno fértil em mãos como as de Tarcísio Sardinha, Pedro Ventura, Ribamar e Zé Renato. Na foto acima, da esquerda pra direita, o saudoso Zé Renato, Pedro Miranda (quando de sua passagem por Fortaleza em 2008), David e este blogueiro.
Talabarte - Como se deu a tua descoberta e o teu aprendizado do violão de 7 cordas?
David - Apesar de não ter pais que tocassem algum instrumento, a boa música sempre visitou minha casa, quer fosse pelos Lp's que eu ouvia em companhia do meu avô materno ou dos meus pais mesmo. Adolescência veio chegando e o videogame e outras brincadeiras saíram de cena e a música, principalmente o samba e o chôro, começaram a me instigar; e dos instrumentos, o que mais fascinava era o 7 cordas pela condução que fazia dos outros instrumentos no deslindar da música. Era comum ter festa na minha casa e eu sempre ouvia o meu primeiro referencial de violão 7 cordas tocando: o Ribamar 7 Cordas, meu Ribinha. Depois conheci o Daniel e nas rodas de samba da Dona Mocinha e Zé Bezerra fui nocauteado pelo vigoroso violão do querido Zé Renato. Mas ainda não tocava. Daí então, acho que por volta de 1997 comecei a ter aulas com o Professor Fábio Cláudio, mas de violão de 6 e ele de imediato me apresentou à obra de João Bosco (o rei do balanço e harmonia) e aos violões do Mestre Horondino Silva e do Raphael Rabello. Nesse marco aí parei e pensei: É tocar ou largar! Resolvi tocar...
Talabarte - O violão de 7 cordas é um instrumento inteligente, não que existam instrumentos "burros", mas sua execução é fascinante, se prestando tanto ao acompanhamento harmônico quanto ao contraponto e aos solos. Nesse sentido, ele tem mais recursos do que o violão de 6 cordas. Você concorda com essa definição? Como você descreveria o violão de 7 cordas?
David - De fato, não existe instrumento burro, existe gente burra e preguiçosa que o invés de estudar o instrumento prefere ficar coletando tecnologia MIDI para depois ficar fazendo mímica em palco de churrascaria. Mas quanto ao violão de 7 Cordas, não há burrice, pelo contrário, quando você abraça um violão de 7 cordas você abre um portal para um mundo misterioso e encantador: os harmônicos, as inversões, as infindas escalas, os mais variados timbres e o grave da 7ª corda, é claro. Estudiosos sobre a história do violão relatam que o 7 Cordas é um violão de origem cigana, daí talvez a razão de tanto encanto e até um tanto de misticismo pelo meio dessa história toda. O 7 cordas, se estivéssemos falando na linguagem náutica, seria o leme de uma embarcação, pois é quem conduz a harmonia para o desfecho ideal da música. Seria o galanteador que propicia a corte da melhor voz sobre o valsear melódico durante a execução da peça, o 7 Cordas se eu fosse aqui parar para descrevê-lo ia ser necessários mais de uma HD de 250 gb. Vixe! Exagerei. Ainda não achei a definição ideal para o instrumento que tanto venero, tanto amo.
Talabarte - Fale um pouco sobre o seu instrumento pessoal (marca, captador, luthier, cordas, dedeira, etc).
David - Bem, hoje tenho dois violões de 7 cordas feitos sob encomenda. O primeiro é um “ Do Souto” Modelo Regional 7 Cordas feito em pinho, jacarandá e Pau Ferro, datado de 19 de abril de 2000, feito pelo Luthier Oswaldo da Bandolim de Ouro no Rio de Janeiro. A melhor história desse violão é que na época eu o encomendei por telefone. Nunca fui ao Rio! E em 2000, mal consegui juntar o dinheiro do violão que na época me custou R$ 1.800,00. Lembro que era muita grana para época. Minha mãe foi quem me ajudou a realizar esse sonho de ter um “Do Souto”. Depois de conversar com o dono da loja , o Helinho do Souto, o cara disse assim:
“ Pera aí ô muleque que tem um cara querendo falar contigo!”. Advinha quem era? Nada mais nada menos que DINO 7 CORDAS! Ele riu porque eu não conseguia falar e mandou parar de ser bobo, porque violonista é tudo igual e ele não era mais do que eu, entre outras palavras de incentivo. Ao fim, disse que estava escolhendo meu violão e fazia muito gosto que eu não parasse de tocar. Infelizmente, nunca vi o mestre Dino na minha frente. O outro violão de 7 cordas, eu adquiri recentemente em outubro de 2009, precisamento no dia 20. Outro presente da minha mãe. É um violão todo em cedro feito artesanalmente pelo luthier Lucenir, também do estado do Rio de Janeiro, no município de São Gonçalo da Boa Vista. Ótimo instrumento, sonoridade impecável. Uso a captação canadense HIGHLANDER (custa em média R$ 900,00) modelo IP2 que não se acha aqui, apenas na internet ou em lojas de Goiânia. E minhas dedeiras são todas de aço sendo que quatro encomendei na AO BANDOLIM DE OURO no RJ feito pelo Julinho do Cavaco e guardo comigo uma especial que foi feita pelo amado Zé Renato, que de tanto ele polir com braço e silvo, a dedeira chega a espelhar. ( risos)
Talabarte - Qual a importância do 7 cordas dentro da orquestração de gêneros como o samba, o choro e o forró?
David - No samba, o 7 Cordas tem o condão de suprir qualquer contraponto feito por clarinete, saxofone ou ainda trombone, por que a sua região dos graves (vai do traste zero até a quarta casa entre a 7 e quarta corda) é matreira, melodiosa e conduz a harmonia de forma ímpar. No chôro, então, nem se fala. É imprescindível para a execução de uma peça de choro a presença do violão de 7 cordas. No forró, o 7 cordas foi implantando pelo Luiz Gonzaga, escute a "Ave Maria do Vaqueiro", "Escadaria" com Zé Calixto, ou Abdias dos 8 Baixos, além do Noca do Acordeon, Jackson do Pandeiro. Pois bem, no forró o 7 cordas auxilia o solista que às vezes fica sem chão por não assimilar bem o regougar da zambumba e o tilintar do triangulo.
Talabarte - Cite os violonistas de 7 cordas que ainda te inspiram e aponte os motivos.
David - Dino 7 Cordas: o pai, o mestre do 7 cordas, incontestável. Perfeito. Pena ter falecido.
Raphael Rabello: Discípulo. Copiou o Mestre Dino e ainda criou o seu próprio estilo. É de fazer chorar ouvir o Raphael tocar "Cordas de Aço" em disco em homenagem ao Cartola em que ele acompanha o Luiz Melodia.
Valdir e Valter 7 Cordas: Irmãos Gêmeos, improvisadores de mão cheia, VALDIR é o violão de 7 em todos os discos de sucesso do Roberto Ribeiro. Ouçam "Estrela de Madureira" e "Resto de Esperança"! Waldir ainda assina a gravação de "Sufoco" com Alcione e "Escadaria" com Zé Calixto no álbum Um 8 baixos às suas ordens, gravado pela COPACABANA. Valdir hoje toca cavaquinho devido a um acidente doméstico. Valter conheci tocando com Zé da Velha e Silvério Pontes e hoje o seu trabalho pode ser conferido no disco gravado com Yamandu Costa.
Rogerinho 7 Cordas: Vem mostrando um novo modo de executar o 7 cordas. Suas escalas e baixarias são inconfundíveis. Ao que se sabe foi aluno de cavaquinho do Henrique Cazes e aprendeu 7 Cordas com o Alencar 7 Cordas, do Iguatu.
Marcelo Gonçalves: Impecável a execução desse moço. Cada gravação mais linda do que a outra.
Jorge Simas: A gravação do disco do noite ilustrada em que ele destroça o pout porri confere a esse moço um lugar na corte do 7 cordas. Nunca mais o vi em ação. Parece que hoje tem dedicado o seu tempo para composições. Volte para a guerra MACHO VÉI!
Ribamar Freire: Meu Ribinha da praia, que apesar de aparentar estar de mau humor a toda hora é um exímio violonista e como já disse foi o primeiro 7 cordas que vi tocando na minha frente quando eu nem gostava dessas coisas.
José Renato: Quem ouviu o Zé tocar, dançar, pular, mungangar com o seu violão sabe do que eu estou falando. Ele me mostrou que o 7 cordas é mais que um instrumento.
Talabarte - Algum deles seria reconhecível por você logo nas primeiras bordoadas? Por que?
David - SE ME DESSEM UM CAMINHÃO DE CERVEJA ( Cuidado com a marca) para beber e depois colocasse esse time para eu ouvir, eu identificaria todos um a um porque a dedeira não toca a corda do instrumento por igual. Cada um tem o seu jeito de tocar.
Talabarte - Há uma nova geração de 7 cordas no País que, aos poucos, vai se consagrando em shows e discos. Nessa turma, incluem-se nomes como Marcelo Gonçalves, Yamandu Costa, Rogerio Caetano, entre outros. Como você avalia o trabalho desses "novos" nomes e como observa a relação deles com nossa tradição, digamos, canônica do violão de 7 cordas (Dino, Valdir, Valter, etc)?
David - Os violonistas andam se respeitando. Os novatos tocam com os antigos de igual para igual sem incorrer na mesmice e inovando dentro dos limites respeitáveis. Parabéns ao Yamandú, que depois de ser criticado como sujo e engolidor de notas, acena para um futuro de execuções mais aprimoradas balanceadas entre a técnica e o sentimento. Mil anos e o Brasil não terá outro DINO, RAPHAEL RABELLO...
Talabarte - No Ceará, há bons talentos seguindo as veredas do 7 cordas? Como você observa a relação entre a "velha" e a "jovem" guarda do instrumento no Estado?
David - Quando eu comecei a tocar o 7 cordas , isso em 1998, não me lembro se havia outro 7 cordas em Fortaleza na mesma faixa etária. Hoje, todo mundo compra o seu Giannini, Rozini e os Do Souto de segunda mão e estão por aí colados na velha guarda que nem tão velha é assim. Antigão mesmo tocando 7 cordas aqui tem o seu PEDRO VENTURA mas que não passa nada a ninguém por falta de didática. Mas a turma aqui é bem solícita como o caso do Tarcísio Sardinha, o Fábio, o nosso querido Zé também auxiliava muito mas ainda tem quem não aceite os novos. Um dia quem sabe. Mas para quem quer conhecer o 7 Cordas em disco vai uma dica. Posso deixar? CARTOLA - Volume I no qual tem "A Sorrir", "Alvorada", "Tive Sim" - O Dino só faltar dar um machadada no 7 Cordas. ROBERTO RIBEIRO- Fala Meu Povo! MARCOS SACRAMENTO - Na Cabeça! Zé CALIXTO- Um 8 baixo a suas ordens. YAMANDU/VALTER.
terça-feira, 13 de julho de 2010
A volta ao Moura em 10 discos

Paulo Moura (1932-2010) era um virtuose indomável, que, além dos cromatismos ferozes, desbravou novos terrenos de sonoridade e de respiração na clarineta e no saxofone. Exemplo foi sua gravação para o "Moto Perpétuo", de Paganini, para o qual desenvolveu uma técnica de respiração ainda em meados dos anos 50. Também foi um aranjador com rara sensibilidade para a orquestração, como provam seus discos dos anos 60 gravados com seu quarteto e com seu hepteto; e um artista cujo espírito se voltou - com iguais doses de aclamação nos cinco continentes, por onde gravou e tocou - para dezenas de gêneros musicais: do erudito ao chorinho, da gafieira ao jazz, do samba à MPB, da bossa nova ao forró.
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Para saudar a memória deste que foi um dos maiores músicos do mundo, de todos os tempos, este Talabarte reuniu o que considera o seu top ten, os dez discos que melhor evidenciam a grandeza do nome de Paulo Moura.
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1. Quarteto (1969)
A escalação do quarteto a que o nome do disco se refere fala por si só: Paulo Moura (sax alto), Wagner Tiso (piano), Luiz Carlos (contrabaixo) e Paschoal Meirelles (bateria). No repertório, "Lamentos do morro" (Jobim/Vinícius), "Eu e a brisa" (Johnny Alf), "Aos pés da cruz" (Marino Pinto/Zé da Zilda), entre outras. Aqui, Paulo volta suas atenções para o diálogo entre o samba e o jazz, pedra filosofal da bossa nova, mas que em seu saxofone encontrou uma expressão insuperável pela liberdade trilhada em cada arranjo e pela audácia em cada improviso. Destaque para "Yardbird suite", que traz Charlie Parker para balançar ao som do samba.
2. Fibra (1971).
Sai Paschoal Meirelles e entra Robertinho na bateria. Ao antigo quarteto, juntam-se nomes como Marcio Montarroyos (trumpete), Oberdan Magalhães, futuro líder da Black Rio (sax tenor e flauta), Cesário Constâncio (trombone), Tavito (guitarra) e Milton Nascimento (que toca piano na faixa "Ana Lia's Blues"). A engrenagem musical é ampliada e o repertório também percorre novas veredas, refletindo a ascensão de sonoridades que iriam marcar parte importante da música brasileira dos anos 70. Destaque para uma "Cravo e canela", cheia de balanço e costurada pela percussão de Robertinho e pela flauta de Oberdan Magalhães.

3. Confusão urbana, suburbana e rural (1976).
Marco de sua consagração popular, esse disco traz aquela que é a versão mais exuberante e também a mais difícil para "Espinha de bacalhau", o intrincado choro de Severino Araújo, cujas cascatas de notas são atacadas por Moura com incomum velocidade e brilho. Como o nome antecipa, o disco explora temas urbanos, como o jazz "Pedra da Lua" (Toninho Horta); suburbanos, como as versões de "Notícia" (Nelson Cavaquinho), "Peguei a reta" (Porfírio Costa) e "Amor proibido" (Cartola); e também temas rurais como "Carimbó do Moura" (uma de suas raras e belas composições).
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4. Paulo Moura e Clara Sverner (1983).
Na praia da chamada música erudita, Paulo Moura foi músico da orquestra do Teatro Municipal (RJ) e tocou sob a regência de maestros como Leonard Bernstein, Eleazar de Carvalho, Isaac Karabtchevsky e, niguém menos, Stravinsky. Portanto, também se sente à vontade em meio ao repertório de compositores como Villa-Lobos, Marlos Nobre, Gilberto Mendes, Eduardo Souto e Jacques Ibert, que formam a base desse disco antológico de 1983. O registro é o principal capítulo da produtiva parceria musical com a pianista Clara Sverner, com quem Moura realizou diversos shows e gravações.

5. Mistura e Manda (1983)
O ano de 1983 foi um dos mais produtivos na carreira de Moura. Além da parceria com Clara Sverner, ele também gravou o LP Mistura e Manda, outro marco em termos de aclamação popular em sua carreira. O foco principal é o chorinho, gênero que explora em sete faixas acompanhado por uma verdadeira constelação de instrumentistas: César Farias, Joel Nascimento, Rafael Rabello, Zé da Velha, Jonas Pereira, Jorginho do Pandeiro, Maurício Carrilho e Mané do Cavaco. Destaque para a longa versão de "Chorinho pra você", uma nova incursão de Paulo pelo repertório de Severino Araújo, em que duela com o violão engenhoso de Rafael Rabello. Em 1997, o disco foi editado em CD com outra capa e outro nome, Tempos Felizes.

6. Dois Irmãos (1992)
Registro precioso do encontro entre Paulo Moura e Rafael Rabello. No encarte do disco, João Máximo resume a emoção de se escutar esses dois gênios. "Ouçam como os dois passeiam à vontade tanto pelo asfalto paulistano de Ronda e Sampa como pelo chorão carioca de terra batida de Chorando Baixinho e Chorinho em aldeia. observem como a sofisticação de Luiza não briga com o brejeiro Um a Zero. Atentem para o fato de o seresteiro Violão Vadio não se opor à gafieirice de Domingo no Orfeão Portugal. Tardes de chuva e tempos felizes cabem nessa fascinante viagem de Paulo Clarinete e Raphael Violão pelos caminhos da música. E quem disse que o casamento perfeito não existe?"

7. Pixinguinha (1997).
Tributo a Pixinguinha gravado ao vivo em São Paulo em 1997, esse disco ganhou o prêmio Sharp de Melhor Produtor de Música Instrumental para Paulo Moura e também o de Melhor Grupo de Música Instrumental. O grupo, no caso, era uma versão contemporânea dos oito batutas de Pixinguinha que trazia, além de Paulo nos sopros e arranjos, Jorge Simas (violão), Márcio (cavaquinho), Jorginho (pandeiro), Jovi (percussão), Marçalzinho (percussão), Trombone (Zé da Velha) e Joel Nascimento (bandolim). Destaque para a versão de "Mistura e Manda", com direito ao colossal solo de pandeiro de Jorginho.

8. Rhapsody in bossa - P. Moura visita Gershwim e Jobim (1998)
"Não será o jazz que influencia o samba - é a bossa nova brasileira que vai reler o jazz... Gershwin e Jobim, tão branquinhos e tão amarrados na música negra...". A frase de Paulo Moura fecha o encarte desse disco gravado ao vivo e que presta uma homenagem a dois ícones da música nas Américas. O texto soa como uma carta de princípios com que Paulo opera seus encontros musicais, sem tentar encaixar a música brasileira a nenhum compasso estrangeiro, mas fazendo referências universais da música se reencontrarem e se redescobrirem à luz de nossos ritmos e arranjos. Destaque para as belas versões de "Falando de amor" e "Embraceable you".

9. Samba de latada (2006)
Tanto o termo "forró" quanto o termo "samba" serviam, no Nordeste do século XIX e início do século XX, para designar uma festa regada a muita dança e música. "Depois que o samba carioca foi alçado à música da nacionalidade, foi que o samba passou a designar um gênero musical. No Nordeste ele foi adaptado para a sanfona, o triângulo, a zabumba, mais violões, banjo e instrumentos de sopro", lembra o jornalista José Teles. Ao lado de Josildo Sá, Paulo evidencia o caráter múltiplo de sua virtuose e percorre o universo do chamado "samba de latada" para fazer um dos melhores discos brasileiros dos anos 2000. Originalmente lançado de forma independente em 2006, o disco ganhou reedição pela Rob Digital no ano seguinte.

10. Afrobossanova (2009)
Escolhido por este Talabarte como um dos melhores discos do ano passado, Afrobossanova é o registro do show homônimo em que Paulo percorreu o Brasil ao lado de Armandinho, outro titã da música brasileira. O disco é eletricidade pura, uma celebração musical em altíssima voltagem que descobre, propõe e amarra novos nós entre o jazz, a bossa nova, o samba e o chorinho a partir da música de Tom Jobim. "Uma confusão urbana, suburbana e inter-racial", como propõe o encarte do disco. Destaque para a versão de "O morro não tem vez", com seu arranjo pontuado pela força da percussão afro. Um momento inesquecível!
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Violão desvairado

Augusto Anibal Sardinha, o Garoto (1915-1955) não foi apenas um dos grandes compositores da história da música brasileira, mas um de nossos principais virtuoses. As marcas e a influência de seu estilo se espalharam pelo samba, pela valsa brasileira, pelo choro e pela música erudita. Em 1953, o cearense Eleazar de Carvalho regeu a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro na execução do "Concerto no.2", para violão e orquestra, composição de Radamés Gnatalli dedicada a Garoto.
Apesar de, na época, já ser um músico consagrado nas rádios e nos palcos do Brasil e do exterior, foi apenas nos anos 50 que Garoto começou a gravar seus primeiros discos como solista. É dessa época esse primeiro (e raro) registro de sua composição "Desvairada", valsa que é uma das peças de mais difícil execução do repertório chorão - com ressonâncias dos arpejos do "Estudo no.2" de Villa-Lobos.
Recentemente, Henrique Cazes e Marcelo Gonçalves lançaram o ótimo Vamos acabar com o baile, disco-tributo a Garoto que reúne parte primorosa de sua obra.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Um chorão chamado Zé
O texto abaixo me foi enviado pelo historiador Américo Souza, professor da Universidade Federal do Piauí e amigo do violonista Zé Renato. Outro que presta sua homenagem - delicada e poética - ao nosso saudoso Zé.
“O homem, o mito, o 7 cordas mais rápido do Nordeste”, essa era a deixa dada pelo jornalista e músico Felipe Araújo para os solos inebriantes de Zé Renato nas apresentações do “Policarpo e a Estrela de Madureira”. Puro deleite.
Dono de uma técnica apurada e de uma sensibilidade melódica incomum, Zé Renato dividiu o palco com grandes expoentes da música popular como Domiguinhos, Marinês, Cristina Buarque e Moacir Luz. Todavia, era nas rodas de choro e samba de bares como “O Arlindo” e “Marcão das Ostras”, ao lado de músicos-amigos como, David Gouveia, Marinaldo, Bruno Goyanna, Shaloon Araújo, Luís e Ecinho, que seu talento emergia com mais fulgor. “Aqui, com esses meninos, me sinto mais livre para sentir a música”, me confidenciou certa vez.
Versátil, tocava de tudo, e bem, mas era na execução do chorinho que mais se realizava e encantava. Foi nas rodas desse gênero, tão expressivo como o próprio Zé, que ganhou o epíteto de “poeta das baixarias”, pela fusão inequívoca de precisão e exuberância de seus improvisos ao violão de 7 cordas.
Generoso e militante, usava suas apresentações como um misto de palanque e sala de aula, defendendo o choro como expressão maior da música brasileira e ensinando ao público sua história e seus segredos. Dele aprendi que, para meu espanto, o violão de 7 cordas, instrumento tão caro ao choro e ao samba, é de origem russa.
A morte de Zé Renato, no último dia 06 de abril, mês em que, por ironia, se celebra o dia nacional do choro (23/04), é por certo uma perda irreparável para os que com ele conviveram e ainda maior para os que não terão mais essa chance. No entanto, como historiador, afirmo: a alma nada sabe sobre a história, o encadeamento dos eventos no tempo que acontecem uma vez e nunca se repetem. Na história a vida está enterrada no “nunca mais”. A alma, ao contrário, é o lugar onde o que estava morto volta a viver. A alma desconhece o “nunca mais.”
O Cronista Rubem Alves certa feita escreveu: “temos dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo, passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música da alma, eterna, que permanece.” Era para esse segundo ouvido que as bordoadas de Zé Renato soavam e continuarão a soar para os que souberem apurá-lo.
“O homem, o mito, o 7 cordas mais rápido do Nordeste”, essa era a deixa dada pelo jornalista e músico Felipe Araújo para os solos inebriantes de Zé Renato nas apresentações do “Policarpo e a Estrela de Madureira”. Puro deleite.
Dono de uma técnica apurada e de uma sensibilidade melódica incomum, Zé Renato dividiu o palco com grandes expoentes da música popular como Domiguinhos, Marinês, Cristina Buarque e Moacir Luz. Todavia, era nas rodas de choro e samba de bares como “O Arlindo” e “Marcão das Ostras”, ao lado de músicos-amigos como, David Gouveia, Marinaldo, Bruno Goyanna, Shaloon Araújo, Luís e Ecinho, que seu talento emergia com mais fulgor. “Aqui, com esses meninos, me sinto mais livre para sentir a música”, me confidenciou certa vez.
Versátil, tocava de tudo, e bem, mas era na execução do chorinho que mais se realizava e encantava. Foi nas rodas desse gênero, tão expressivo como o próprio Zé, que ganhou o epíteto de “poeta das baixarias”, pela fusão inequívoca de precisão e exuberância de seus improvisos ao violão de 7 cordas.
Generoso e militante, usava suas apresentações como um misto de palanque e sala de aula, defendendo o choro como expressão maior da música brasileira e ensinando ao público sua história e seus segredos. Dele aprendi que, para meu espanto, o violão de 7 cordas, instrumento tão caro ao choro e ao samba, é de origem russa.
A morte de Zé Renato, no último dia 06 de abril, mês em que, por ironia, se celebra o dia nacional do choro (23/04), é por certo uma perda irreparável para os que com ele conviveram e ainda maior para os que não terão mais essa chance. No entanto, como historiador, afirmo: a alma nada sabe sobre a história, o encadeamento dos eventos no tempo que acontecem uma vez e nunca se repetem. Na história a vida está enterrada no “nunca mais”. A alma, ao contrário, é o lugar onde o que estava morto volta a viver. A alma desconhece o “nunca mais.”
O Cronista Rubem Alves certa feita escreveu: “temos dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo, passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música da alma, eterna, que permanece.” Era para esse segundo ouvido que as bordoadas de Zé Renato soavam e continuarão a soar para os que souberem apurá-lo.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Saudades de Zé Renato

Em dezembro de 2006, escrevi esse texto sobre o violonista Zé Renato em minha, na época, coluna no jornal O POVO. Hoje, perdemos o Zé e o vazio provocado por essa perda é imenso, doloroso. A partir de agora, em todas aquelas mesas, as melhores mesas de samba e de choro da Cidade, estará faltando ele. Vá com Deus, grande Zé!
No Dia Nacional do Samba, comemorado hoje, o violonista Zé Renato personifica - ao lado de outros bambas da Terrinha (como Sardinha, Zivaldo, David 7 Cordas, Ângelo do Pandeiro, Carlinhos Palhano, Bruno Goyana, Ribamar, Luiz José e tantos mais) - a alegria cada vez mais clandestina da boa música por essas bandas. Parabéns ao samba. Salve Zé Renato!"
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Cordas assanhadas
Junte o melhor regional de choro de todos os tempos ao maior improvisador e solista das cordas brasileiras e o resultado é este aí. "Assanhado", com Armandinho e Época de Ouro, numa versão cheia de ginga e dinâmica.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O Garrincha da partitura

Moacir Santos foi muito mais do que um dos maiores maestros da nossa música. O gênio pernambucano personificou aquilo que é raiz e fruto, origem e destino da nossa musicalidade: essa capacidade ilimitada de incorporar códigos e influências de outras latitudes e colocá-los a contraluz de nossos batuques e de nosso lirismo melódico e harmônico. Moacir foi mestre nessa estratégia de afirmação de uma cultura que sabe das outras sem deixar de saber de si. "Moacir Santos sempre esteve, sozinho, na esquina em que a Orquestra Tabajara encontra Gil Evans, na confluência inimaginável entre a jazz band (de vanguarda), a gafieira e a batucada. Mas como um compositor clássico tomando um trago na Praça Tiradentes, batizou suas peças seminais como Coisas - também nome de um dos discos mais importantes da música brasileira, de 1965 - e numerou-as à maneira de um Bach", escreve o jornalista Paulo Roberto Pires num texto publicado no saudoso nominimo logo depois da morte do maestro, em 2006.
Moacir apresentou-se ao mundo da música fazendo hard bop com um pé no agreste e outro no Beco das Garrafas. Uma de suas Coisas, a no. 5, "Nanã", foi a Garota de Ipanema de uma bossa nova que não recendia a barquinho, beijinho e mar. Mas a terra, sangue, magia e candomblé. E quase tão gravada quanto o hino de Tom e Vinícius. Nas religiões afro-brasileiras, dependendo da leitura mitológica que se faça, Nanã é a orixá austera, que cuida dos mortos para embalar o renascimento. Na trajetória de Moacir foi ela quem fez renascer o menino pobre e analfabeto do Interior pernambucano. E o fez na forma de um maestro genial, que entortava harmonias qual um garrincha da partitura. Celebrado no Exterior e praticamente desconhecido em seu País, Moacir só veio ganhar flores por aqui nos anos 90, graças ao esforço de Mário Adnet e Zé Nogueira. Foram eles os produtores do monumental Ouro Negro, CD duplo que apresentou Moacir Santos a meio mundo de ouvintes. Eu, entre eles.
Abaixo, o maestro com a banda Savana, num registro da TV Cultura
terça-feira, 16 de junho de 2009
Chorinho pra você
Paulo Moura, Daniela Spielman, Zé da Velha e Silvério Pontes. Os quatro se encontram para tocar "Chorinho pra você", do Severino Araújo, durante as gravações do antológico documentário Brasileirinho. Junto com "Espinha de Bacalhau", também do maestro Severino, essa foi a música que fez minha cabeça para me arriscar entre os arabescos da digitação da clarineta.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Camerata Carioca
No famigerado ano de 1983, quando a economia brasileira foi à lona, um lançamento de música instrumental tornou-se um divisor de águas no Brasil. Tanto por reafirmar a riqueza de uma tradição que parecia se esfumaçar ante o avanço dos teclados, baterias eletrônicas e sintetizadores; quanto por retrabalhar os códigos do nosso processo musical de maneira absolutamente original até então. Capitaneada pela virtuose de Joel Nascimento, a turma da Camerata Carioca lançava o disco Tocar, um libelo a favor da música brasileira que reuniu alguns dos principais nomes do choro e da música erudita no País: além de Joel (bandolim), Joaquim Santos e Maurício Carrilho (violões), Luiz Otávio Braga (violão de 7), Henrique Cazes (cavaquinho), Beto Cazes (percussão) e Dazinho (sax e flauta). "É difícil destacar detalhes valorosos do disco, pois são muitos, mesmo assim valem citação especial: a balançadíssima participação de Radamés Gnatalli no 'Remexendo', os belíssimo arranjos de Maurício Carrilho - 'Fugata' e 'Choro de mãe' -, Luiz Otávio Braga - 'Terna saudade' e 'Lenda do caboclo' - e o timbre especial do sax-alto de Dazinho no solo de 'Valsa Triste'", lembra Henrique Cazes, no encarte da edição do disco em CD.Abaixo, um vídeo de Henrique Cazes tocando "Minhas mãos meu cavaquinho", de Waldir Azevedo.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Desvairadamente
Raphael Rabello em uma versão "caseira" para "Desvairada", do Garoto. Se você algum dia pensou em desistir de tocar violão, sua oportunidade é agora.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Desaprendendo o choro
O primeiro disco foi um choque. Para os puristas, o Tira Poeira veio com uma carga de informações e com uma proposta de liberdade de expressão rararíssimas vezes vistas na seara do choro, geralmente balizada por um tradicionalidade (para não dizer tradicionalismo e fazer o termo soar como patologia, o que nem sempre é verdade) que vai do formato das peças à abordagem de seus intérpretes. Não se tratava de reinventar o gênero, mas de injetar a melhor energia jazzística em cada tema. No segundo disco, lançado há coisa de três meses, a turma formada por Caio Márcio (violões e guitarras), Henry Lentino (bandolim), Samuel de Oiveira (sax), Fábio Nin (violão de 7) e Sérgio Krakowski ousou ir mais longe. Os arranjos estão ainda criativos, as improvisações mais audaciosas e o repertório se distanciou dos clássicos do choro, rabiscando peças da MPB ("Arrastão", "Atrás da porta", "Feijoada Completa"), do forró ("Lamento sertanejo"), da bossa nova ("O morro não tem vez"), do rock ("Eleanor Rigby"), do jazz ("My favourite things") e da chamada música erudita ("Trenzinho caipira"). E tem também as participações de Olivia Hime, Lenine e Maria Bethânia.
E o resultado é... Bom, dizer que o resultado é choro poderia causar um mal estar entre alguns cultores do gênero. Dizer que é jazz também poderia maltratar, entre os ouvintes do ramo,certas almas mais afetadas. Quando o assunto é "purismo" e "sectarismo", aliás, há muita bobagem nas duas trincheiras. E é o que, então? Bom, é choro e é jazz. É um choro que se despreendeu das possibilidades existentes até então e passou a caminhar com outras pernas. E é um jazz que, apoiado nos instrumentos do choro, fez soar universal uma expressão de espontaneidade musical tipicamente brasileira.
Em resumo, um discaço que o caro leitor e a cara leitora precisam escutar urgentemente para desaprender tudo o que sabiam sobre choro. E também sobre jazz. Ainda bem!
Segue aí um trechinho dos caras no youtube. (P.S. - Juro que quando aprender a postar trechos das músicas, vou disponibilizar os discos para vocês).
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