terça-feira, 11 de junho de 2013
A revolta dos crocs
Nota divulgada pelo Governo do Estado para a imprensa - em que sugere que milícias querem se infiltrar na manifestação do próximo dia 13 - acaba de potencializar a marmota que é esse movimento "Fortaleza Apavorada". Algo que tinha tudo para ser mais uma dessas pífias manifestações contra a violência (e nunca a favor da justiça social) - ou, como diz brilhantemente um amigo, a "revolta dos crocs" - acaba de ganhar efetividade.
Já é um movimento vitorioso, porque obrigou o Governo a fazer seu principal pronunciamento sobre a (in)segurança pública até agora - na nota, o Palácio da Abolição admite que o crime chegou a níveis "intoleráveis" em Fortaleza. E tudo, mais uma vez, pela inaptidão da atual gestão para o diálogo; sem falar, obviamente, na incompetência para lidar com a questão da violência urbana. Qualquer crítica, qualquer contraponto, são sempre vistos pelo Governo como movimentos conspiratórios, articulações políticas sub-reptícias, bandeiras partidarizadas. É a crítica "ad hominem" levada ao paroxismo da paranoia.
A nota , obtusa, tem o claro objetivo de apavorar ainda mais os "apavorados". A estratégia palaciana para esvaziar a passeata talvez dê certo. Talvez não. A nota pode ter despertado o interesse de quem, até então, estava dando de ombros para o tal movimento. Vejamos...
Nós que nos amávamos tanto (e amávamos tanto o jornalismo...)
Nós jornalistas vivemos uma terrível esquizofrenia. Teoricamente, por termos curso superior, nos vemos como profissionais liberais; mas, ao contrário de dentistas, arquitetos, advogados, etc, somos obrigados a alienar nossa força de trabalho porque não podemos, afinal de contas, montar um jornal, uma TV, uma rádio para cada um de nós. Por outro lado, as promessas da internet ainda não vingaram como realidade pecuniária. O que temos, por enquanto, é apenas uma farra libertária, que é ótima como (um início de) democratização da informação, mas que ainda não se consolidou como mercado de trabalho.
Pelo menos toda uma geração ainda nos separa de uma nova realidade de produção da informação (independente, liberal e com rendimentos decentes) no mundo digital. Até lá, na internet, com raríssimas exceções, reinará um quase diletantismo. Por ora, seguiremos como funcionários, peões com jornadas de trabalho extenuantes e sob imensa pressão. Seguiremos como trabalhadores de baixa renda, numa profissão que passa por uma histórica crise estrutural; nosso desemprego é estrutural. Há os que se acham algo além por conviverem de perto com os poderosos da política e/ou os donos do poder econômico. São cínicos ou ingênuos. Ou tudo isso junto. Ou coisa pior...
O debate sobre o diploma me parece um falso debate. De um lado, há os que querem nivelar por baixo a discussão e acabar com sua obrigatoriedade - são os que defendem o bundalelê no mercado. Pois penso que devemos nivelar essa discussão por cima e fazer do jornalismo um curso de pós-graduação. Quer ser jornalista?! Forme-se em direito ou economia ou história ou computação ou engenharia ou o que for e faça uma especialização em jornalismo. Isso iria elevar decisivamente o nível da nossa produção e criar uma outra realidade de mercado.
A nosso favor, por enquanto, ainda temos o fato de que somos fundamentais para a democracia e para o chamado estado de direito. Somos fundamentais para restituir ao debate público o espírito crítico. Somos imprescindíveis para dar voz a quem não consegue se manifestar publicamente. Ainda somos... Entretanto, somos todos, indistintamente, proletários. E isso parece nos causar um desconforto, parece criar um tabu, ensejar um recalque que embaça nossa capacidade de articulação e de mobilização. Some-se a isso, como é o caso do Ceará, um sindicalismo pífio e personalista e, voilà, eis o nosso dia-a-dia.
Enfim, sou apaixonado pelo que faço e tenho sincero orgulho de ser jornalista. Seguirei com meu ofício por acreditar realmente nessa missão. Mas talvez daqui a algum tempo tenha de procurar outra profissão para pagar minhas contas e, quem sabe, também custear meu ofício. Como o advogado que é apaixonado pela marcenaria; ou o engenheiro que também é cozinheiro; ou o médico que também é poeta.
Poderei me reinventar (creio que terei de me reinventar) e passar a ser outra coisa, mas seguirei sendo jornalista. Isso me cria enormes problemas e dificuldades, mas me dá uma imensa alegria.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Poemetes Araújos XXI
Um pesadelo
noite adentro;
um grito rompe
a vigília:
risco n'água
nesse Atlântico
imemorial
de solidão.
noite adentro;
um grito rompe
a vigília:
risco n'água
nesse Atlântico
imemorial
de solidão.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Spike Jones, um gênio "criminosamente" gaiato
Pelo menos vinte anos antes de, por aqui, os Mutantes satirizarem impiedosamente o clássico seresteiro "Chão de Estrelas", Spike Jones (1911-1965) já era craque na arte de caricaturizar e desconstruir "standards" do cancioneiro norte-americano. Sua orquestra reunia alguns dos melhores músicos de seu tempo e marcou época no teatro, na televisão e no mercado fonográfico - onde produzia suas marmotas na toda-poderosa e pudica RCA Victor. "O fato de a Victor lhe dar carta branca era uma homenagem à sua formidável musicalidade, mesmo que usada para fins criminosamente gaiatos", comenta Ruy Castro em seu Tempestade Ritmos. Um fenômeno que anteciparia em algumas décadas outros geniais desatinos musicais; inclusive por essas latitudes, que veriam nascer zorras como Joelho de Porco, Premeditando o Breque, Falcão e Língua de Trapo.
Poemetes Araújos XX
O que pesa
mais
no alto? Em
pleno vôo,
a dúvida:
a leveza obtusa
dessas toneladas
de aço
com asas? Ou,
solitária,
minha falta
de fé?
quinta-feira, 23 de maio de 2013
O amor segundo Haneke
Apenas agora assisti ao badalado e controverso Amor, de Michael Haneke. Um dos filmes
mais humanos e delicados de que tenho notícia. Um libelo sobre o tema que lhe dá nome: amor romântico, mas não afetado; intenso mas gentilmente sóbrio; extraordinário mas
arraigadamente cotidiano. O profundo silêncio de sua narrativa me traduziu a
calma e a naturalidade diante da vida a que os amantes são tão íntimos. Não é
sobre amores de conveniência, mas sobre certa conveniência do amor – expresso
em sua mágica renovação na insignificância da rotina. O amor de Haneke é a
cumplicidade que atravessa horas de conversas, que traduz olhares, que
compartilha secretamente dores, mas primordialmente – e preciosamente – divide alegrias. Não
me pareceu um filme sobre eutanásia nem “contra” o amor, como alguns chegaram a
escrever. Pelo contrário. O filme celebra a vida, através da relação apaixonada
dos dois idosos protagonistas. Diante do ocaso físico de Emmanuele Riva,
brilhante em sua atuação, o casal tenta seguir adiante com a normalidade de um
cotidiano pontuado de pequenos gestos de amor. Aquém e além dele, há apenas vaidade, rancores, frustrações; há o mundo lá fora do qual os dois não querem notícia. E é quando a doença impede por
definitivo qualquer troca, qualquer cumplicidade, qualquer olhar entre os dois
– que seguiam amantes delicados mesmo nos momentos mais difíceis do entrecho
médico -, que se revela a atitude final. Tudo servirá como rito de passagem
para as memórias que seguirão. Nada, a rigor, foi interrompido. O amor é medida certa; ele sabe de
si e, em silêncio, sabe que restará.
L'État c'est moi!
Para o filósofo Claude Leforte, o Estado Democrático é
sempre maior que o Estado de Direito. Ou seja, experimenta direitos que ainda
não estão incorporados ao segundo. É, segundo ele, “o teatro da contestação
cujo objeto não se reduz à conservação de um pacto tacitamente estabelecido,
mas que se forma a partir de focos que o poder não pode dominar inteiramente”.
Vladimir Safatle, em seu inquietante A
esquerda que não teme dizer seu nome, faz uma leitura muito produtiva sobre
o assunto. Trata-se, portanto, de uma noção a ser sempre tensionada na relação
que promove entre a Justiça e o Direito. E, longe de solapar a democracia,
lembra Safatle, é algo que a funda e fortalece.
Nos termos correntes da política local, nossa desventura é
que esse tensionamento, essa superação, se dá em negativo. Não pelas vias da
soberania popular; mas na esteira de comezinhas conveniências pessoais, pelo
devir de um projeto de poder e, pior, pela afetação de certos homens públicos. O
caso do ex- governador Ciro Gomes, que ocupa uma surreal posição institucional
dentro (ou fora?) da Secretaria de Segurança, é por demais emblemático. A (pouco
clara) movimentação de Ciro Gomes na Instituição e suas cornetadas públicas são
típicas de quem vê a legalidade como algo a posteriori, não a priori. Nessa
posição, ele não age a partir dos limites institucionais; mas vai de encontro
aos mesmos, redesenhando e distorcendo esses preceitos ao sabor de valores nada
republicanos.
À luz do organograma do Governo, a atuação de Ciro é tão
ilegítima quanto serão criminosas, uma vez comprovadas, as supostas milícias que
ora denuncia (conseguirá efetivamente provar algo sobre o assunto?). O
ex-deputado age como alguém que não suporta a dialética da política e que
prefere trocar a palavra política pela palavra polícia (entendida aqui como
violência simbólica/estatal). Entre o Estado Democrático e o Estado de Direito,
Ciro parece optar pelo Estado de Luis XIV, aquele do "L'État c'est
moi".
quinta-feira, 28 de março de 2013
Jazz cinco estrelas
Mais do que por sua virtuose, Miles Davis consagrou-se no mundo do jazz por sua atinada capacidade de estimular e agenciar talentos. Em mais de 50 anos de carreira, ele foi um exímio “olheiro” musical, que soube escolher seus pares e pupilos para, a partir deles, reinventar algumas vezes a música ao longo do século XX.
Sua trajetória pode ser contada em capítulos que dão conta dos chamados “grandes quintetos” que teve a seu lado. O primeiro deles, nos anos 50, com quem gravou obras-primas como Kind of Blue (1959) – muito provavelmente o melhor disco de jazz de todos os tempos. O segundo, nos anos 60, com quem Miles viajou o mundo e alcançou um sucesso comercial até então inédito para os padrões do jazz. E, por fim, o terceiro, a chamada “lost band”, já na virada dos anos 60 para os 70, com a qual Miles levou o jazz ao desbunde e à lisergia do fusion.
Em todos eles, Davis aparece liderando um elenco de estrelas da música que, consolidadas as carreiras individuais e as mitologias subsequentes, é difícil de imaginar que um dia tocaram todas juntas. John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers, and Philly Joe Jones, no primeiro quinteto (que, em seguida, teria Cannonball Adderley, Bill Evans e Jimmy Cobb na formação em sexteto); Wayne Shorter, Ron Carter, Tony Williams e Herbie Hancock, no segundo; e Shorter, Chick Corea, Dave Holland e Jack DeJohnette, no terceiro.
Além do time estelar, outro fato é comum a quase todas essas formações: a vida efêmera. Embora tenham escrito páginas eternas da música instrumental, raramente os “ensambles” de Miles duravam mais de um ano. Em geral, bem menos que isso. Exceção feita apenas ao segundo quinteto, cujos quatro anos de existência soaram quase como uma eternidade na carreira do trompetista.
É sobre a turnê europeia de 1967 desse segundo “grande quinteto” que se debruça o primeiro volume de Bootleg Series, lançado em 2011 no exterior e que agora ganha edição nacional. A caixa, charmosa e com um belo material iconográfico, reúne três CDs e um DVD que registram apresentações do grupo em teatros e festivais na Bélgica, Dinamarca, França, Suécia e Alemanha.
Versões
À época, o jazz começava a experimentar certa decadência comercial nos Estados Unidos e o mercado europeu de shows e gravações tornou-se o salva-vidas de muitos músicos. Miles, que não era besta nem nada, ao mesmo tempo em que era sensível aos talentos que lhe brotavam ao redor, comercialmente também tinha um radar afiado – daí seus giros cada vez mais rotineiros pelo Velho Continente e seu diálogo com outras vertentes musicais, como o funk e o rock.
As gravações de Bootleg Series são todas inéditas e foram obtidas a partir de registros de TVs e de rádios europeias. O repertório é formado por alguns poucos “standards”, mas sobretudo por composições que foram (ou seriam) apresentadas nos discos de estúdio do quinteto – álbuns como E.S.P. (1965), Sorcerer (1967) e Nefertiti (1968) -, uma das fases mais brilhantes da discografia de Miles.
A maior parte das músicas se repete ao longo dos shows, a exemplo de “Agitation”, que abre quatro das cinco apresentações da caixa. Cada execução, entretanto, conduzida pela criatividade dos solistas, é carregada de sentidos e destinos particulares.
“Eu nunca me preocupei muito sobre por que ou quando Miles começava a fazer algo em particular; mas penso que ele tinha um acurado senso do que funcionaria na frente de determinada audiência”, afirma Herbie Hancock, no encarte.
A frase seria em parte desmentida pelo próprio Miles, em declaração também reproduzida no encarte: “Eu nunca penso sobre a audiência. Eu só penso sobre a banda. E se a banda está bem, eu sei que a audiência está satisfeita”.
Seja como for, o fato é que Miles, no centro do encontro, proporcionou um dos grandes momentos da história do jazz. Coisa de um genial “treinador” que, no mais das vezes, nem precisou entrar em campo para fazer seu time jogar um partidaço.
* Matéria publicada no caderno Vida & Arte (jornal O POVO), edição de 28.03.2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Um ateu observa a escolha do novo papa
Acompanhei o noticiário sobre a escolha do novo papa motivado por um interesse que é muito mais “cultural” do que religioso. Ateu não-praticante (porque não concordo com certo proselitismo ateísta/agnóstico corrente em nossos dias), não consigo deixar de me sensibilizar e de me emocionar com a percepção da centralidade da fé na experiência humana de tantas pessoas. Tem sido assim desde que descobri que as mitologias religiosas não repercutiam em mim como narrativas de transcendência ou de “salvação”, mas “apenas” como manifestações da cultura – posição pessoal e intransferível que, no entanto, não me impediu de me encantar com tantos rituais religiosos que acompanhei como repórter e editor.
A renúncia de Bento XVI reafirmou a força e a influência da religião no chão dos nossos dias. E me fez lembrar de um texto do teólogo Bernard Lauret, publicado recente pela revista Cult, em que ele restitui a Ratzinger um protagonismo admirável no âmbito do debate cultural. Resgatando discursos e debates em que Bento XVI tomou parte, mostra como ele foi um sacerdote que, no âmbito da crítica cultural, soube “sublinhar a complementaridade entre razão e fé”. “Ele não condena os ganhos do Iluminismo no que concerne à liberdade de consciência, à ‘coexistência de diferentes culturas religiosas’ e à separação entre estado laico e religião. Em revanche, recusa que somente os critérios da razão iluminista sejam capazes de julgar a legitimidade das tradições religiosas”, diz Lauret.
De fato, se não é suficiente analisar as manifestações da cultura apenas com os critérios religiosos, porque aí o olhar corre o risco de ficar embotado pelo fanatismo e outras “doenças” da religião; seria de se estranhar que um homem tocado pela experiência religiosa conseguisse discernir o mundo apenas pelo viés da razão. Para Ratzinger, não existe fé pura, independentemente de uma cultura. Mas o contrário, para ele, também é verdadeiro. “A missão cristã não tem por objetivo transplantar o cristianismo ocidental (fé e cultura mescladas) em outras culturas cuja dimensão religiosa seria ignorada. Essa abordagem das culturas por suas relações mútuas necessárias e o respeito das diversas tradições religiosas relativiza, de um só golpe, o cristianismo sob sua forma ocidental, e eleva ao mesmo tempo a figura de Cristo, Lógos semeado por toda parte”, defende Lauret.
Não me preocupa, portanto, se o novo papa vai ser mais ou menos conservador, mais ou menos radical ; mas se saberá conduzir sua instituição por um caminho em que a palavra de ordem não seja o “choque” de culturas e religiões. Nem o choque de direitos. Mas a tolerância e o diálogo.
Ele pode até defender que Deus não seja tirado definitivamente da vida pública. Mas terá de conviver com (e amar) “vidas” e “espaços” públicos em que o seu deus não arbitrará.
* Texto publicado no caderno especial Francisco, um novo começo publicado no jornal O POVO (14.03.2013)
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
A arte de estentar fachadas
Ao saber da queda de parte da estrutura da entrada do Hospital Regional Norte, em Sobral, lembrei do verso de um poema com que me deparei recentemente na Internet – cuja autoria não consegui confirmar. “Essa fachada de rocha,/ por dentro é areia movediça”, diz a poesia. E pensei em como nossa política é, em grande medida, a “arte” de ostentar fachadas.
Os semioticistas e psicanalistas de plantão talvez consigam explicar esse traço de nossa cultura. Mas o fato é que, mais do que em qualquer outra seara do debate público, é no simbolismo dos pórticos, monumentos, inaugurações e outras liturgias do gênero que nossos governantes gastam a maior parte de suas energias - e do nosso dinheiro. Um expediente que é um fim em si mesmo, um simulacro em que o “parecer ser” é (sempre) mais importante do que o “ser”.
Voltando ao caso do acidente em Sobral, penso como nosso atual governo do Estado é um típico exemplo dessa obsessão por fachadas, dessa prioridade pelo continente em detrimento do conteúdo. O hospital em questão, todos lembram , foi inaugurado com um show nababesco da cantora Ivete Sangalo, mesmo sem ter condições de funcionamento por falta de funcionários. E na mesma época em que centenas de cearenses restam à míngua no “piscinão” do HGF.
O caso é apenas um de uma longa lista de contradições semelhantes. Temos, por exemplo, as viaturas policiais mais luxuosas do País, mas vivemos uma assustadora epidemia de violência urbana. Temos também um estádio ostentador que não serve aos clubes do futebol local. Teremos em breve um aquário (!) à beira-mar enquanto milhares de sertanejos sofrem com uma seca dramática. Temos delegacias com fachadas modernas, mas condições medievais de acomodação dos presos - sem falar nas fugas recorrentes. Temos um pomposo Centro de Eventos que não previu uma passarela de acesso para os pedestres. Entre inúmeras outras estultícias.
E assim seguimos. Entre fachadas imponentes a esconder a terrível “areia movediça” da incompetência, do fisiologismo e do provincianismo.
* Artigo publicado na página de Opinião do Jornal O POVO, edição de 18.02.2013
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Joshua Redman
O virtuosismo, a surpreendente criatividade para melodias e arranjos, e uma paixão que transpira a cada compasso fazem de Redman um de meus herois de uma geração que sacodiu o chamado "west coast jazz" nos anos 90. Essas marcas pontuaram seu trabalho não só naquele momento, mas ainda hoje fazem de Redman um dos compositores e intérpretes mais intensos do cenário do jazz. Independente da "coast" em questão...
Mais sobre o cara, aqui.
Desejo de Natal*
Meu caro Papai Noel, essa nossa conversa é, decididamente, uma impossibilidade. Já há muito tempo, não acredito em você. Se é que algum dia, convenhamos, acreditei. Sinceramente, não lembro. Eu não acreditando, você, em contrapartida, pode se considerar desobrigado de me considerar.
Afinal, como considerar alguém que não acredita em você? E não falo aqui no sentido de lhe achar honesto ou mentiroso. Mas de lhe achar crível, de lhe entender como uma possibilidade, um devir. Não, meu caro. Acreditar em você, numa altura dessas, é algo que realmente não convém.
A nosso favor, e a favor dessa missiva, entretanto, essa desconsideração mútua nos liberta de qualquer tipo de pudor ou melindre e nos leva à franqueza completa um com o outro. A franqueza, afinal, é a medida de nossa indiferença em relação ao outro.
Para mim, você é, como o Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, alguém que, perdão pela redundância, não existe e, pior, que não sabe muito bem o que quer ser. Qual o Agilulfo derivando-se entre a banalidade de seus atos supostamente nobres e importantes, supostamente heroicos, te vejo como um cavaleiro errante a derivar-se numa noite onírica, mítica, arrebatado por tantas falsas alegrias e por tanta hipócrita solidariedade.
O Aniversariante do dia deve também estar muito incomodado com essas cínicas sentimentalidades que brotam ao fim de cada ano – mas com Ele a conversa é mais complexa e sofisticada. Com você, o papo é reto.
Tu vais ficar terceirizando a culpa alheia até quando? Se eu fosse você, pegava tuas renas e seguia na contramão dos espíritos para jogar toda essa hipocrisia de volta na cara dos caretas. Essa turma que dá carrinho e bonequinha pra criança carente no fim do ano, mas é a favor da redução da menoridade penal e da pena de morte. Que reclama da segurança, mas que, no dia-a-dia, se lixa para o que acontece nas nossas periferias.
Essa turma que fala que o Brasil é um país injusto, mas adora criminalizar movimento social. Que brinda o julgamento do mensalão, mas conta vantagem por sonegar imposto e não sabe se socorrer sem privatizar o que é público. Que defende a democracia, mas compra voto.
Que diz que ama ou odeia Fortaleza, mas não sabe da Cidade mais do que seus muros e engarrafamentos.
Como diria Tom Zé, é uma turma que faz suas orações uma vez ao dia e depois manda a consciência, junto com os lençóis, para a lavanderia. Todo ano é a mesma coisa. E aí, no fim das contas, na hora do aperto final, lá vem você socorrer os falsos moralistas. O velhinho trazendo luzinhas, trenós e presentinhos pra tudo ficar lindo. Seria apenas engraçado, não fosse melancólico. Ou trágico mesmo. Você realmente não existe!
Cazuza pedia piedade. “Senhor, piedade!” Pra essa gente careta e covarde. Eu peço franqueza. Em nossa cidade, em nossos empregos, em nossos círculos de amizade, em nossas famílias. Em nossos amores. É duro, amigo, mas é assim.
A franqueza também é a medida de nosso compromisso em relação ao outro. É a medida da nossa coragem.
* Texto publicado no jornal O POVO - edição de 24.12.2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Fascistada reunida
Gilberto Dimenstein menstruando na FdSP sobre um baiano assumir a secretaria de cultura de Sampa. "São, São Paulo, quanta dor!" E aí alguma coisa acontece no meu coração, pra citar outro baiano que de lá sabe tanto. E de nós sabe tanto também, por vias tortas. Penso o quanto estamos retrocedendo. E fico inquieto, aflito mesmo, com esse caldo neo-conservador-religioso-babaca-direitista-intolerante a nos levar a algo muito pior. Fascistada reunida. Do Morumbi a Atenas, via Fortal também. Fascismo de pobre dura pouco? E o cara fica naquela de "meu pai é cearense, minha mãe é baiana, meu avô é alagoano...". É que nem o lance do "tenho tantos amigos homossexuais". Preconceito recalcado. Alô Joaquinzão, "menino bom"! Pondo os lençóis da consciência da Casa Grande na lavanderia, não é malandro? Nessa altura do jogo, rapá?! Esse papo já tá qualquer coisa... Por ora, na mesma Folha, Xico Sá repõe alguma lucidez ao big picture.
http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/12/11/sp-precisa-sim-importar%C2%B4-gente-de-toda-parte/
domingo, 25 de novembro de 2012
Alta Ajuda
Entrevista publicada com o ensaísta Francisco Bosco (jornal O POVO, caderno Vida & Arte, edição de 10 de novembro de 2012
O critério é ético. No sentido colocado por Espinosa, da ética como um modo de vida destinado a “encontrar os afetos da alegria e evitar os da tristeza”. Foi, portanto, mirando a alegria que Francisco Bosco escolheu os textos que compõem seu novo livro, Alta Ajuda, coletânea de ensaios publicada pela editora Foz. “Uma das tarefas de hoje é discernir entre certa euforia compulsória (do tipo animadores de auditório) e a verdadeira alegria, em presença da qual é a totalidade da vida que se afirma”, ele explica em entrevista ao O POVO. Munido desse compromisso, ele selecionou 35 textos – entre os mais de 200 ensaios publicados ao longo dos últimos seis anos em jornais e revistas de todo o país – nos quais percorre problemas e situações comuns do cotidiano com a sensibilidade analítica, a engenhosidade estilística e o repertório teórico que marcaram seus livros anteriores, como o ótimo Banalogias (2009). Doutor em teoria da literatura, o flamenguista Bosco encontrou em Barthes, objeto de sua tese na UFRJ, a principal referência para olhar o cotidiano entrelaçando grandes e pequenos temas: do esvaziamento das relações amorosas ao (des)prazer de viajar, da paixão pelo futebol às indiscrições do facebook. “Minha proposta é a de abordar com espírito filosófico os problemas da existência cotidiana, comuns a qualquer pessoa. A essa proposta, José Miguel Wisnik chamou, certa vez, de alta ajuda”, ele explica na apresentação do volume. “Conforme atesta o título do livro, assinei embaixo”.
O POVO - Qual a diferença entre o Francisco Bosco autor dos textos publicados em jornais e revistas e o autor que reescreveu “impiedosamente” – como você explica na apresentação - esses textos para o livro? Francisco Bosco - A felicidade da forma é perfeita; a da ideia, imperfeita. Quando se conquista a forma, ela é irretocável (um soneto de Shakespeare, um concerto de Mozart). Mas as ideias são sempre retocáveis, elas se aproximam infinitamente (da realidade? Da verdade?). Portanto a diferença entre as ideias que publico originalmente no jornal e o modo como elas aparecem no livro é que nesse último elas estão mais aprimoradas.
O POVO - Na apresentação do livro, você explica que há um critério ético para a seleção dos textos - no sentido dado por Espinoza, que entende a ética como um modo de vida destinado a “encontrar os afetos da alegria e evitar os da tristeza”. A alegria é uma força revolucionária para nossos dias? Francisco - Penso que existe sim um potencial revolucionário na alegria. O poder opera por meio do medo. O medo é uma forma de tristeza, como diz Espinoza, e a tristeza deixa os sujeitos sob controle. Mas uma das tarefas de hoje é discernir entre certa euforia compulsória (do tipo animadores de auditório) e a verdadeira alegria, em presença da qual é a totalidade da vida que se afirma.
O POVO - No ensaio “O Rei contra a realidade” (sobre as manias e a religiosidade de Roberto Carlos) você escreve que o idealismo religioso, seguido radicalmente, conduz a um recalque dos aspectos incômodos, porém constitutivos, da realidade. No Brasil, é evidente um acirramento de radicalismos de diversas ordens nesse campo. Qual a repercussão desse processo em nosso pensamento crítico? Francisco - Um dos modos de responder a essa pergunta é considerar que o fundamentalismo religioso é uma reação à angústia da liberdade, como diria Sartre. A época moderna é aquela do desmoronamento de todas as certezas. Ora, não é todo mundo que suporta um mundo aberto, pois é mais cômodo para o sujeito acreditar em princípios imutáveis e segui-los à risca. É uma forma perigosa de infantilidade e covardia, como se sabe. Penso que se deve lutar contra isso com todas as forças.
O POVO - Em sua origem, a imprensa libertou a educação do monopólio da Igreja, separando a figura do “homem de letras” da figura dos sacerdotes e fazendo o conhecimento circular para fora das bibliotecas dos mosteiros. Desde então, os meios de comunicação ajudaram a redefinir e a remanejar o papel do intelectual na sociedade. Quem precisa mais de quem em nossos dias: o jornalismo, dos intelectuais? Ou esses daquele? Francisco - Idealmente falando, imprensa e intelectuais cumprem a mesma função, fundamental para a democracia: fomentar o dissenso, propor novas ideias, impedir os excessos dos poderes constituídos. Na prática, a relação entre ambos é mais complicada. Um dos problemas é que o jornalismo passou a operar demais dentro de uma lógica da informação (superficial e de entretenimento), enquanto os intelectuais vivem sob a lógica do pensamento, que é densa, lenta, angustiosa. Eu, que me vejo constantemente entre essas lógicas, sei bem o quanto elas se estranham.
O POVO - Harold Bloom defende que “a verdadeira utilidade de Shakespeare ou Cervantes é aumentar nosso próprio eu crescente. O diálogo da mente consigo não é basicamente uma realidade social. Tudo o que podem nos trazer é o uso correto de nossa solidão, cuja forma final é nosso confronto com a mortalidade”. Você nada contra essa corrente e parece propor não a solidão, mas os encontros, a “afetividade da alegria”. Estou correto? Francisco - Eu concordo que a utilidade do cânone é “aumentar nosso eu crescente” (embora a frase seja um pouco redundante). Mas penso que isso tem consequências para a “realidade social”. Prefiro viver numa sociedade cheia de sujeitos pensantes, do que numa repleta de cabeças opacas. Isso tem consequências para a vida social. E talvez pudesse ter um impacto forte sobre o que considero a maior tragédia do Brasil, que é não se pensar coletivamente, como uma verdadeira sociedade, cujo bom funcionamento depende do respeito mútuo, do engajamento de todos.
O POVO - Teu trabalho como escritor é inegavelmente marcado por tua formação universitária e, no entanto, teus ensaios conseguem quebrar um tipo de postura insular que é recorrentemente denunciada entre os intelectuais da academia. Qual é o teu olhar para essa relação entre o ambiente universitário e o mundo fora da universidade? Francisco - Penso que é muito importante que a Universidade cumpra um papel, digamos, impopular: que nela se realizem pesquisas árduas, linguagens difíceis, pensamentos ambiciosos. E também é importante que haja ensaístas como eu, que proponham uma disseminação de ideias em maior escala quantitativa. A Universidade hospeda o risco da esterilidade e de uma hipertrofia teórica afastada da realidade. Mas escritores como eu convivem com o risco de limitar a intensidade de suas ideias por conta da proposta de um diálogo mais amplo. Hoje, especialmente, é preciso tomar cuidado com certa ideia de democratização: as experiências da arte e do pensamento podem deixar de ser elas mesmas quando submetidas a esse processo. E aí de nada vale democratizar algo que não vale nada.
O POVO - Por fim, como alguém tão “lúcido” pode ser flamenguista? (A pergunta foi feita em tom de brincadeira, mas o próprio Bosco insistiu para que fosse publicada) Francisco - Todo sujeito é feito de identificações, algumas “primitivas”, como dizia Freud, e outras formadas ao longo da vida (amigos, ideias etc.). Essas identificações estão sujeitas a mudanças: mudamos de ideias, de amores, de amigos. Só não mudamos de time. A identificação com um time é primitiva e costuma ser mediada pelo pai. Isso explica que a escolha de um time nada tem a ver com lucidez ou racionalidade. Como de resto todas as identificações primitivas e boa parte das que ocorrem na vida adulta. O problema, no caso, não é a falta de lucidez, mas a impossibilidade de romper a identificação. Nada é mais estranho e interdito para nós do que romper a identificação com um time: nem mudar de partido político, nem de religião, nem mesmo de sexo.
SERVIÇO Alta Ajuda O quê: novo livro de Francisco Bosco Editora: Foz (160 páginas) Quanto: R$ 34,90
Trecho
“Roberto Carlos , então, descobre-se impedido por essa força estranha no seu psiquismo de falar e cantar certas palavras. (...) Na canção “É preciso saber viver”, o verso ‘se o bem e o mal existem’ chegou a ser substituído por ‘se o bem e o bem existem’. Não se trata de uma mera troca de palavras: é toda a dimensão negativa da experiência humana que é recalcada. O estreitamento da realidade tem como consequência necessária o estreitamento da arte. O que havia em Roberto , e que o fez merecer o título de Rei da juventude, e depois simplesmente Rei, na medida em que suas canções traduziram a experiência humana madura nos anos 70, o que havia, e se perdeu, era a aceitação da realidade. Não se pode ser artista recusando-se a olhar para ela”.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Dylan, um começo
Pouco mais de U$ 400 de custo. Apenas dois microfones – um para o violão e outro para a gaita e o vocal. Três dias de gravação. Nessas modestas condições, entre 20 e 22 de novembro de 1961, Robert Allen Zimmerman ocupou algumas sessões do estúdio A da gravadora Columbia para gravar seu primeiro álbum – que seria lançado apenas no ano seguinte (em março, nos Estados Unidos; e em julho no Reino Unido). O nome do disco era apenas o de seu pseudônimo: Bob Dylan. O trabalho era formado por 13 faixas, a maior parte das quais, canções tradicionais do repertório de country blues norte-americano - apenas duas eram composições suas. Há 50 anos, portanto, Zimmerman (ou Dylan) iniciava sua carreira discográfica, apresentando-se ao grande público como um intérprete dinâmico e original do cânone folk e dando as primeiras pistas do compositor genial e prolífico que mudaria a música e as atitudes na segunda metade do século XX.
Anos mais tarde, já com a carreira consolidada e com a imprensa em seus calcanhares, Dylan concedeu uma entrevista à revista Beat Magazine em que comentou sobre aquele início de carreira. “Se eu começasse pelo álbum um, lado um, eu poderia verdadeiramente ver Bob Dylan evoluir (ao longo de sua discografia)?”, perguntou-lhe o repórter. “Não, você veria Bob Dylan rir consigo mesmo. Ou veria Bob Dylan atravessando mudanças”, respondeu o compositor. De fato, a auto-indulgência nunca foi uma marca evidente nos trabalho de Dylan, que sempre preferiu a auto-ironia e a desmistificação, em especial quando confrontado com o estigma de guru intelectual de sua geração ou de porta-voz de alguma tradição musical.
VillageNesse marco inicial de sua carreira, nesse “disco um” ao qual se referiu o jornalista Paul Jay Robbins, no entanto, é possível ouvir um Dylan ainda muito reverente ao universo musical que marcou sua formação. Se, hoje, o cantor é um setentão que soa velho e cansado em seus shows e em seus discos – mas que, apesar disso, consegue soar renovado em suas letras -, o Dylan de 20 anos era um artista que trazia interpretações renovadoras para um repertório que começava a soar cansado para a indústria musical da época.
“You´re no good”, a faixa de abertura do álbum, é a releitura de uma composição do lendário bluesmen Jesse “Lone Cat” Fuller. Bem-humorada, a versão de Dylan antecipa seu estilo vigoroso ao violão e à gaita. “Talkin´ New York”, uma composição própria, vem em seguida. Em meio a citações a Woody Guthrie, seu folk hero que dizia “matar fascistas com seu violão”, Bob esbanja vivacidade e astúcia relatando suas experiências na cena folk de Nova York, em especial do Greenwich Village, onde aportara em 1961, ainda como um jovem de classe média um tanto ingênuo vindo de uma pequena cidade do Meio-Oeste. O confronto com a competição e a sofisticação da metrópole marcariam de forma decisiva seus primeiros anos de carreira.
“In my time of dyin´” foi creditada a Dylan, mas o próprio encarte trata de desmentir o crédito ao relatar que ele não lembrava onde e quando ouviu esse blues tradicional pela primeira vez – Led Zepellin também gravaria a música no LP Physical Graffiti. Bob gravou arranjos seus para outras canções tradicionais da cultura folk, como “Pretty Peggy-O”, “Gospel Plow” e, principalmente, “Man of Constant sorrow”. Sobre essa última gravação, Brian Hinton, organizador de um excelente volume com a discografia comentada de Dylan (lançado pela Larousse), escreve: “A intensidade que Bob extrai deste antigo standard já o afastava dos pares que se apresentavam no Village”.
“Fixin´to die”, de Bukka White; “Highway 51”, de Curtis Jones; “See that my grave is kept clean”, de Blind Lemon Jefferson; e “Baby, let me follow you down”, de Ric Von Schmidt; completam o rol de tributos. Apesar da diversidade de referências, é Woody Guthrie o grande “homenageado” do disco. Para ele, Dylan compôs “Song to Woody”. “Dylan tinha ido a Nova York especificamente para a conhecer seu herói, que estava morrendo no Greystone Hospital”, escreve Hinton. “Bob canta com gravidade sincera, como uma despedida, num momento em que um novo mundo estava prestes a nascer; um mundo que Dylan ajudaria a moldar”.
Mudanças
As tradicionais “Freight train blues” e “House of the risin´ sun” – que ganharia dezenas de gravações e versões mundo afora - completam o repertório. Sobre essa última música, um lamento de uma prostituta narrado do ponto de vista feminino, ajudou Dylan (segundo ele próprio conta em sua Biograph) a encarnar o papel de outras pessoas em suas músicas.
Sobre o que era Nova York naquela época em que o disco foi lançado, o jornalista Howard Sounes, autor de uma biografia de Dylan, escreve: “Por volta de 1961, quando Bob chegou a Nova York, os turistas estavam descobrindo que muitos dos beatniks tinham ido embora e que no lugar deles havia uma geração de músicos jovens cantando música folk. A seriedade e a integridade da música folk agradou aos turistas que faziam questão de ir ao Village nessa época, em parte porque ela parecia estar em harmonia com os sentimentos a favor da transformação social nos Estados Unidos”.
Como a história tratou de mostrar, a integridade de Dylan não estava na persona do defensor radical do folk norte-americano. O próprio cantor, já em meados dos anos 60, tratou de desconstruir essa “responsabilidade”. Integridade, em seu caso, foi a honestidade com que lidou com seu próprio desejo de mudança. Afinal, em 50 anos de carreira, a despeito da grita dos fãs, ele foi vários: um jovem cantor folk (presente aqui nesse antológico disco de estreia), um roqueiro, um hippie, um pastor evangélico e um judeu reconvertido.
Mudando a si, Dylan ajudou a mudar o mundo.
Texto publicado originalmente no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO
Domingos
Cada domingo em que me despeço dela, perco um pedaço de mim, faltam-me chão e forças para o próximo passo. Vem o baque, vem a tristeza, vem a culpa pelos erros, vem o peso das decisões tomadas e o amargo das opções feitas. Vêm as cinzas da vida. Mas saber que daqui a alguns dias, tornarei a vê-la, renova no peito a esperança, acende na alma a lembrança do calor que só aquele abraço pequenino me traz, o gosto daquele beijo estalado no rosto. Saber que ela vai de novo encher o apartamento de luz e de brincadeiras e de bagunça, que vai desfilar na casa toda com aquele passinho trôpego, que vou sentir de novo seu cheiro, que vou ouvir mais uma sua voz e, principalmente, sua gargalhada inigualável, faz-me seguir adiante. Saber que vou poder escutar seus sonhos novamente - ali no berço, ao lado da minha cama -, faz com que eu consiga dormir. Ontem, ouvi pela primeira vez em alto e bom som: "papaiiiiiiii!". A partir daí, tudo mudou. Não teve coração pra tanta alegria. Não houve boca pra tanto riso, nem corpo pra tanto arrepio. O que transbordou virou lágrima. E também essas palavras. Vamos seguir, filha, que o mundo não é fácil. Mas prometo estar sempre a teu lado, cuidando de ti, olhando por ti. Pra te amparar e, muito mais até, ser amparado por ti. Porque é por você que, como cantaria o poeta, eu volto a dizer sim à vida cada vez que me despeço! Te amo!
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Quem manda no mundo
Leitura obrigatória: dossiê "Quem manda no mundo", do DiploBrasil. Intrigante e perturbador. Como li num artigo recente do Slavoj Zizek, a Europa está como aqueles personagens de desenho animado que correm para o abismo e seguem flutuando no ar. Só caem quando olham pra baixo. Pois bem, a Grécia e a Espanha já olharam pra baixo. A Itália olhará logo, logo. A grande questão, no entanto, é que, dado o quadro de bestialidade do sistema financeiro internacional, o abismo está sob os pés de todos nós, de toda a humanidade. Nós apenas não olhamos pra baixo. Ainda...
Chagas aberto
Benfica, essa ilha. Essa promessa de vida e felicidade no coração de Fortaleza. Assediado permanentemente pela violência, é fato. Mas quem sabe do bairro não abandona suas ruas. Essas características do bairro não explicam, mas ajudam a entender por que são vários os bares tradicionais localizados naquele quadrilátero formado pela Marechal Dedodoro, Avenida da Universidade, 13 de Maio e Eduardo Girão. Estabelecimentos como o Nonato, o Bar do Luiz e, o mais tradicional de todos, o Bar do Chaguinha, que há 56 anos fincou bandeira na esquina da rua Padre Francisco Pinto com a rua João Gentil.
O Chaguinha é nosso Lamas, o nosso Capela, de tal modo encravado na geografia do bairro e tão firmemente incorporado ao imaginário de seus convivas que não se imagina o Benfica sem a cerveja, a música ou os petiscos do local. A infantaria do cardápio é formada pela panelada, um das mais famosas da Cidade; e pelo carneiro cozido, outro de reputação igualmente celebrada. A mão de vaca e a costelinha de porco também merecem algo de bom a ser dito. Os valores são módicos, embora a experiência de viver Fortaleza a partir dos encontros que se dão no bar não tenham preço. Às sextas-feiras, tem seresta. Os sábados começam com samba – comandado por Zé do Cavaco (o canhoto mais rápido deste meridiano). Tudo na base da espontaneidade, sem amarração. Meio dentro do bar, meio na calçada. A vida, afinal, pulsa melhor quando sai à rua, enfrentando de peito aberto suas contradições e colocando seus fantasmas para secar ao sol. Ou para desidratar sob as estrelas.
Texto publicado originalmente na coluna Papo de Botequim, caderno Comes & Bebes, jornal O POVO (13.07.2012).
O tempo de Zé Ramalho
Depois de cinco anos dedicados a tributos a outros artistas, Zé Ramalho volta a lançar um disco de inéditas. Em Sinais dos Tempos, o cantor e compositor paraibano retoma sua produção autoral e também as sonoridades lisérgicas e a poética surrealista que impregnaram suas melhores composições e seus melhores trabalhos. O novo CD, o vigésimo sexto disco de carreira, chega ao mercado pelo selo Avôhai Music, criado por Zé em parceria com a esposa, Roberta Ramalho.
“Depois que passei dos 60, parece que os anos estão correndo. Me vejo num mundo louco, rápido e cruel e tendo de me inspirar nele para fazer minha obra de arte”, ele explica no material de divulgação do CD. “Os fãs vinham cobrando um disco autoral, mas passei os últimos cinco anos refletindo sobre mudanças que ocorreram e fazendo músicas aos poucos”.
Ao longo desse período, Zé travou um longa batalha na justiça para poder gravar seus próprios sucessos. Ao lado de artistas como Roberto e Erasmo Carlos, brigou contra um grupo de editoras musicais que tentou aumentar as taxas cobradas das gravadoras para a utilização das músicas em CDs e DVDs. Moveu uma ação contra a editora EMI Songs – que fazia parte do grupo denominado Associação Brasileira dos Editores de Música (Abem) – e tentou rescindir os contratos através dos quais cedeu os direitos patrimoniais de suas canções.
Em 2005, ao lançar o CD e o DVD Ao Vivo, com que comemorava seus 30 anos de carreira, Zé teve os produtos tirados de circulação – apenas a primeira tiragem foi vendida. O cantor partiu, então, para uma série de homenagens a outros artistas, como Bob Dylan, Beatles, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, até conseguir a vitória nos tribunais.
No novo CD, o desgaste do período de litígio é lembrado na faixa “Indo com o tempo”, em que ele canta: “Não perdoarei a quem me trouxe dor”. Mas as incursões pela obra de seus ídolos e alguns episódios de sua vida pessoal - como o nascimento dos netos e a parceria profissional com a esposa - fizeram o artista sublimar a mágoa das editoras e se inspirar para os novos vôos registrados no disco. “Estão no álbum lembranças e vivências, algumas de forma mais aberta e outras mais enigmáticas”, explica.
Robertinho do Recife
O álbum é dirigido e produzido por Robertinho do Recife e pelo próprio Zé Ramalho. A Banda Z escolta o paraibano em todas as gravações: Chico Guedes (contrabaixo), Edu Constant (bateria), Dodô de Moraes (teclados), Toti Cavalcanti (sopros) e Zé Gomes (percussão). A cantora Roberta de Recife, filha de Robertinho; e o guitarrista norte-americano Jesse Robinson fazem participações especiais no disco.
“É um album para pessoas que estavam aguardando novas produções musicais minhas, sem maiores pretensões. É a continuidade do meu trabalho, minha leitura do mundo atual e minha maturidade como homem e compositor. É a vontade de continuar levando essa vida de shows, estúdio, gravações e de oferecer o que crio”, explica.
Todas as 12 faixas são de sua autoria. As letras alternam referências a outros ídolos do compositor - como Pink Floyd e Carlos Drummond de Andrade -, que é citado em “Lembranças do primeiro” (“No meio do caminho há uma pedra. Deixe-a, não a remova”); e a canções que marcaram a trajetória do paraibano - como “A terceira lâmina”, “Beira-Mar” e “A noite preta”, lançada em seu disco de estreia e que recebe agora o contraponto poético em “A noite branca”.
“Há uma crueldade em relação à máquina do mundo hoje em dia, com toda essa correria. Mas não deixo pra trás nada do que eu sou”, afirma. Inquietações filosóficas que volta e meia vão dar no tema da morte também permeiam o CD. Sobretudo em “Olhar alquimista”, em que ele canta: “Aonde me viram não mais verão os alquimistas e os anciões”. “A morte é uma coisa sobre a qual já comecei a pensar. Ela está também na primeira faixa, quando canto: ‘será que chegarei à terra prometida ou atravessarei o túnel de luz’. Não que eu me sinta perto de morrer, mas tenho uma curiosa especulação e penso muito nisso hoje em dia”, avalia.
Ao deixar de lado o caminho dos discos-tributo e voltar a produzir um CD de inéditas, Zé Ramalho muda para permanecer o mesmo: eloqüente e claro em seus enigmas.
Matéria publicada no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO, edição do dia 18 de julho.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Poeira nos olhos - Vicente Barreto
"Jogo poeira nos olhos
que é pra me aventurar
caminhei muitas léguas
sem lei e nem trégua
que possa lembrar
procurando amor puro
que é em porto seguro
que vou sossegar
Só de pensar
se me fecham a cancela
uma fera eu posso virar
jogo o corpo
num rabo-de-arraia
que vou lhe mostrar
Mas no mais eu sou manso que dói
ajo como se fosse um herói
Andei, andei
andei por aí
andei , andei
andei por aí"
P.S. - Essa vai para um moça lá em Istambul...
Assinar:
Postagens (Atom)
















