segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A arte do improviso


O jeito esquisito ao piano é resultado, em parte, das dificuldades vividas ainda nos primeiros estudos: a pequena estatura e as mãos pequenas faziam com que Keith, então com pouco mais de três anos, tivesse de se levantar do banco para alcançar as notas mais agudas e as mais graves do teclado. Mas foi a paixão intensa pela música e, em particular, pela arte do improviso que levou esse gênio não apenas a tocar de modo muito particular - em geral, se contorcendo à frente das teclas e solfejando as notas com grunhidos que costumam afastar os ouvintes desavisados - mas a se transformar num dos maiores nomes da música da segunda metade do século XX.
Art of Improvisation, um documentário fascinante de Mike Dibb produzido em 2005 e que apenas este ano foi lançado no Brasil pela Euro Arts, percorre a trajetória de Keith Jarrett investigando as idiossincrasias e a trajetória desse artista que é uma das grandes estrelas do jazz e da música erudita. Compositor e instrumentista virtuoso, o norte-americano personifica ao mesmo tempo o rigor da disciplina acadêmica e um desejo permanente de exploração musical guiado pela liberdade da estrutura jazzística. Em suas mãos, as composições eruditas ganham novos contornos e uma vitalidade rara através do repertório virtuoso da técnica de Jarrett. E o improviso ganha status de composição pronta, que, porém, nunca chegará a ganhar a eternidade das partituras pela natureza efêmera de seu processo de "escrita". 
"Nunca houve um tempo em que a improvisação tenha ganho o respeito devido. Pela virtude de seu espírito holístico, ela necessita de tudo para se concretizar. Ela demanda tempo real, nenhuma edição é possível. Isso leva seu sistema nervoso a estar alerta para todas as possibilidades de um jeito que não pode ser descrito por nenhum outro tipo de música", ele explica no filme. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os justos


"Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo."

Jorge Luis Borges, Os justos

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Schoenberg monino

Haroldo Costa escreveu que a invenção musical mais importante do século XX, ao lado do jazz, são as escolas de samba. É fato. Apenas acrescentaria nesse balaio de contribuições paradigmáticas do século passado a música dodecafônica, que estilhaçou a estrutura tonal, aquele "código de entrelaçamento sonoro que vigorava há séculos, quase como um sinônimo da própria música ocidental", nas palavras de Júlio Medaglia. 
Passada essa primeira década do século XXI, é possível dizer que, em proporções mais tímidas, mas não menos relevantes, o estilo das escolas de samba também passa por um estilhaçar de sua estrutura que está transformando e ampliando o gênero do samba de enredo. Esse processo é visível no novo entrelaçamento de seus compassos, na nova (e a cada ano mais criativa) relação entre as vozes e timbres percussivos que constituem seu tecido sonoro. 
Nisso reside, ressalte-se, um paradoxo, já que a estrutura de composição está cada vez mais engessada e previsível, baseada nos famigerados refrões (sempre dois) e estrofes (sempre duas). Mas escutando o disco de sambas de enredo do grupo especial do carnaval de 2010, por exemplo, é possível perceber como as baterias nunca soaram tão audaciosas, nunca transbordaram tanto para além dos limites binários do samba. Diálogos de surdos, chamadas ralentadas de repiniques, desenhos de tamborins que soam como arpejos virtuosos, colorações extraordinárias de chocalhos: os recursos utilizados pelos mestres de bateria em suas bossas e na própria construção do ritmo são hoje de tal complexidade e engenhosidade que fazem do samba de enredo a expressão rítmica mais inteligente do País. 
Há letras interessantes (como os sambas da Beija Flor, Vila Isabel e Imperatriz), que de forma competente embalam o exuberante cortejo de painéis que é o desfile da Sapucaí, uma ópera tupiniquim de gramática própria e também cada vez mais engenhosa. Há também textos pífios -  a maioria, infelizmente. Mas a orquestração das baterias se sobressai a tais redundâncias e platitudes - embora o tão prometido disco gravado ao vivo tenha recebido acabamento de disco de estúdio, com uma edição criminosa de algumas faixas. 
O melhor das baterias segue nos ensaios de quadra, nas verdadeiras gravações ao vivo e, claro, no desfile de fevereiro. Vida longa a nossos Schoenbergs mominos! 

A luta passageira dos apáticos

"Uma das figuras mais originais e características da nossa era é a do revolucionário profissional, como foi definida pelos bolchevistas no começo do século. O militante inteiramente consagrado à atividade política, materialmente sustentado por uma organização partidária, a que em princípio deve dar adesão completa, obediência sem reservas, todo o seu pensamento e a sua ação, não devendo, como um clérigo, ter outro compromisso. A esses homens, formados segundo a mentalidade exclusivista das seitas, o nosso tempo deve algumas das realizações mais espantosas, tanto as redentoras quanto as atrozes. 
Mas é também interessante o tipo oposto, do homem sem qualquer compromisso com a revolução, que frequentemente é até contra ela, e no entanto nalgum período ou apenas nalgum instante da vida fez alguma coisa por ela: uma palavra, um ato, um artigo, uma contribuição, uma assinatura, o auxílio a um perseguido. Se fosse possível computar esses fatos ocasionais, essas atividades temporárias, talvez resultasse um total imenso de forças. Por isso, é atraente investigar os atos discordantes dos conformistas, os atos radicais dos conservadores, os períodos de lucidez revoltosa dos desinteressados, as lutas passageiras dos apáticos". 

Antonio Candido, em "Radicais de Ocasião" (ensaio incluído no volume Teresina Etc, da editora Ouro sobre Azul)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Encaixotando Jorge


Agora é que o superavit lá de casa vai pro saco: Salve Jorge!, caixa com os 13 primeiros discos de Benjor (todos lançados pela Philips entre 1963 e 1976) chega às gôndolas em dezembro. Durante muito tempo, títulos como Solta o pavão (1975), Forca bruta (1970) e Negro é lindo (1971) estiveram fora de catálogo e ajudaram a criar a mística em torno do Zé Pretinho - que soava tão mais genial quanto mais obscuras eram suas gravações. Pois bem, esses discos estão chegando novamente ao mercado no formato de CD, junto com clássicos absolutos como Tábua de Esmeraldas (o melhor de todos eles), África Brasil e Gil Jorge; e revelam a melhor fase da discografia de Jorge Ben. Destaque também para o disco com gravações raras e inéditas disponibilizado pela Universal na caixa.

Os discos encaixotados são os seguintes:
Samba Esquema Novo (1963)
Sacudin Ben Samba (1964)
Ben É Samba Bom (1964)
Big Ben (1965)
Jorge Ben (1969)
Força Bruta (1970)
Negro É Lindo (1971)
Ben (1972)
10 Anos Depois(1973)
A Tábua de Esmeraldas (1974)
Gil Jorge - Ogum Xangô (1975)
Solta o Pavão (1975)
África Brasil (1976)

Abaixo, Benjor canta "Domingas" ao lado dos Originais do Samba, em 1970.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ataulfo Alves, 100 anos

Além de intérprete bem-sucedido da própria obra, caso raro entre os sambistas, Ataulfo Alves compunha num andamento singular, diferente, numa cadência mais "ralentada" sem, no entanto, encostar no samba-canção, como lembra Tárik de Souza. Esse passo mais vagaroso, mais elegante, permitiu que  sua obra se tornasse itinerário para músicos de outros gêneros, que descobriram em seus sambas uma paisagem pós-gafieira, de tons jazzísticos (sem, no entanto, encostar na bossa-nova), permanentemente aberta a novas abordagens. 
Itamar Assumpção, por exemplo, dedicou um de seus melhores discos a releituras moderníssimas da obra de Ataulfo. Agora, é o produtor Thiago Marques Luiz quem revira o baú de Ataulfo para celebrar seu centenário. Depois de seis meses de trabalho, ele reuniu um elenco brilhante de intérpretes para percorrer parte da obra deste compositor mineiro em dois CDs lançados simultaneamente: o primeiro reunindo artistas consagrados em diversas épocas e estilos; o segundo, apresentando a força e o vigor de novos nomes que se lançam na cena do samba e alhures. 
Nos discos, coube tudo em termos de gêneros. Da valsa ("Meus tempos de infância", com Ná Ozzetti) ao funk ("Na cadência do samba", com Elza Soares). Do bolero ("Errei sim", com Fafá Belém) à balada lírica ("Infidelidade", com o canto emocionante de Alaíde Costa e o piano exuberante de André Mehmari). Da gafieira ("Mulata Assanhada", com Elba Ramalho) ao reggae ("Desaforo eu não carrego", com o impagável Língua de Trapo). Tudo, porém, elegante e suingado, soando vigorosamente como samba. Ou melhor, como um samba de Ataulfo Alves. 
Abaixo, Ataulfo em um raro registro de 1967. 

domingo, 22 de novembro de 2009

Um novo ciclo

Há exatos dez anos, no fim da temporada de 1999, o então presidente do Ceará Sporting Club, Átila Bezerra, participava de uma mesa redonda dominical numa emissora local de TV e avaliava as perspectivas do clube para o ano seguinte. O Ceará acabara de ser tetracampeão estadual; batera na trave na disputa por uma vaga na primeira divisão do Campeonato Brasileiro – perdendo a vaga para o Goiás –; via seus rivais locais afundados em graves crises financeiras; e estava na iminência de fechar uma parceria com o banco Icatu Hartford, que prometia reinventar o modelo de gestão esportiva no futebol cearense a partir da profissionalização dos quadros da administração alvinegra. Para 2000, anunciou o mandatário, o (segundo) pentacampeonato estadual estava garantido e a sonhada vaga na elite do futebol brasileiro era apenas uma questão de tempo em função dos novos ares em Porangabuçu.

Mesmo o mais desconfiado dos alvinegros não poderia imaginar quão infelizes seriam aquelas declarações. A partir de 2000, a era de aquarius para o Ceará virou uma quadra de tristeza e frustrações. O calendário alvinegro passou a ser pautado pelas disputas fratricidas entre seus dirigentes, pela demagogia e pela incompetência administrativa de seus gestores, pela obtusidade e pelo cinismo de setores da imprensa comprometidos com interesses inconfessáveis dentro do clube e, por tabela, pela impaciência da torcida. Com isso, os anos 00 foram uma das piores décadas da história alvinegra: a fogueira de vaidades em que ardia o ego dos tragicômicos “cardeais alvinegros” inviabilizou a parceria com o banco e legou uma herança maldita que durante anos assombrou as contas de Porangabuçu, o clube viu seu principal rival renascer das cinzas, conquistou apenas dois campeonatos cearenses (embora o campeonato de 2004 não tenha sido decidido dentro de campo por conta de uma constrangedora armação da FCF) e balançou por diversas vezes na corda da bamba que dava para o abismo da terceirona.

Ontem, o Ceará chegou por seus méritos (sem precisar ser guinchado de divisões inferiores, ressalte-se) à elite do futebol brasileiro. Uma campanha que emocionou a maior (e mais fiel) torcida do Estado e arrancou elogios mesmo dos comentaristas mais sisudos. Dentro de campo, o time de PC Gusmão soube combinar o pragmatismo tático com a garra exigida pelas arquibancadas. Não houve futebol vistoso, mas houve futebol compromissado. Nenhum novo Zé Eduardo despontou, mas bons jogadores (Mota, Geraldo, Michel, Boiadeiro, Erivelton, Misael, Fábio Vidal e outros) vestiram com muita dignidade a camisa alvinegra e suaram lágrimas junto com a massa.

Fora de campo, a gestão de Evandro Leitão abraçou com seriedade e competência o desafio de comandar a maior paixão esportiva do Estado, implementando novas práticas gerenciais e reerguendo a auto-estima do torcedor alvinegro. Dez anos depois da famigerada barrigada do então presidente alvinegro, que deu início a um ciclo a ser esquecido pelos alvinegros, Evandro tem a oportunidade de novamente olhar para o futuro anunciando uma nova era para o Vozão. Um novo ciclo marcado não pela presunção vazia ou pela vaidade inútil; mas pela seriedade no trato com o patrimônio alvinegro. Um novo tempo marcado não apenas pelo desafio de montar times vencedores, mas pela missão de fazer do Ceará um grande clube.

É o que deseja o torcedor alvinegro, que hoje vai dormir bêbado de alegria, comemorando o tão sonhado acesso de nosso time querido. Mas que amanhã vai acordar com o desafio da primeira divisão pela frente.

Parabéns, Vozão! 

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A pimenteira de Pedro Miranda


Pimenteira, segundo disco solo do carioca Pedro Miranda, está saindo do forno. Ao mesmo tempo em que chegava às lojas, o CD era citado em alguns jornalões não propriamente pelo belo trabalho que é, mas pela bênção de Caetano Veloso ao novo álbum desse enfant terrible da Lapa. Entre outras palavras, o baiano disse que há muito tempo não escutava um disco com tanto entusiasmo. 
"Eu sempre sou citado como elogiador fácil de moças jovens bonitas que cantam samba. Nunca as elogiei sem que achasse justo fazê-lo. Dizer aqui que o CD de um marmanjo, que nem tipo gatinho é, é algo muito mais importante do que o que essas ninfas têm, em conjunto, alcançado deve dar uma ideia do quanto considero ‘Pimenteira’ um evento especial em nossa música. E, de quebra, pode dar mais credibilidade aos elogios que faço às moças", diz Caetano, que classifica o CD como um trabalho de "força histórica intensa". 
Noves fora a afetação de Caetano, essa é de fato uma boa chave para se entender a força do disco. Sucessor de Coisa com Coisa (20o6), o ótimo trabalho de estréia de Pedro, Pimenteira reafirma uma estética que, em escalas e competências diferentes, tem embalado o trabalho dessa (já não tão) nova geração de sambistas que fizeram da Lapa o epicentro de um discurso musical que contagiou outras latitudes do País e transbordou para outros gêneros. Trata-se de um olhar apaixonado e curioso para a tradição, que dispensa o tom solene em relação ao passado e vê nos grandes sambistas, não os sacerdotes de uma liturgia inabalável e engessada, mas uma fonte atemporal da alegria que é cantar samba. 
Cantar e compor, aliás. Além das peças nada óbvias de Nelson Cavaquinho ("Velhice"), Roque Ferreira (autor da faixa título do CD), Wilson das Neves ("Imagem"), Nei Lopes ("Compadre Bento"), Paulo César Pinheiro ("Baticum") e Elton Medeiros ("Na cara do gol"), que o próprio Pedro pesquisou e reuniu para o disco, Pimenteira é temperado por composições de jovens autores como Edu Krieger ("Coluna Social"), Alfredo Del Penho ("Caso encerrado"), Rubinho Jacobina (autor da impagável "Meio-tom") e Moyseis Marques ("Cartas de metrô"), que respondem pelo extrato atualíssimo do disco. 
Some-se ao repertório primoroso (cuja escolha em si constitui um ato autoral) a produção primorosa de Luis Filipe de Lima e é possível entender o discurso proposto por Pedro: um disco que recorre a procedimentos tradicionais (aqui retrabalhados e reprocessados em novos timbres e arranjos) para olhar para o futuro, celebrando sem neuras a alegria do bom samba. Nada mais moderno, portanto. Tradição, presente e futuro. Tudo desaguando na voz afinadíssima e cheia de suingue de Pedrinho Miranda. Sem manias de passado nem frescuras de modernidade. Um disco de altíssimo astral e de inegável "força histórica".  

P.S. - Ano passado, Pedrinho esteve em Fortaleza cantando com o Policarpo e a Estrela de Madureira. Segue abaixo o link.

Soldado da memória


Quase uma metonímia. A série Songbook, criada por Almir Chediak no final dos anos 80, passou a denominar um tipo de produto cultural que até então era uma raridade no País. Corriqueiro no exterior, o esforço editorial de reunir partituras de um determinado compositor popular - transcrevendo a letra e a melodia e cifrando a harmonia exatamente do modo como foram criadas - só vingou efetivamente no Brasil depois que o produtor carioca lançou os primeiros livros do gênero pela editora Lumiar, de sua propriedade. 
Assim foi que os ''songbooks da Lumiar'' - ou os ''songbooks do Chediak'' - viraram uma espécie de bombril didático-musical entre nossos instrumentistas. Outros editores também lançaram os seus, mas ninguém conseguiu fugir da sombra da produção meticulosa e perfeccionista de Chediak, que acabou consagrando seus livros (e posteriormente os CDs vinculados a eles) tanto por conta do método adotado, que preservava todos os detalhes criativos dos compositores, quanto pelos nomes que conseguiu editar. 
Primeiro foi Caetano Veloso, que teve a obra mapeada e transcrita em dois volumes lançados em 1988. Na época, qualquer pessoa que já tocava violão ou apenas se iniciava no instrumento, ficava babando ao descobrir um acorde novo ou uma passagem harmônica mais elaborada que se escondiam nas ''entrelinhas'' de uma composição do músico baiano. Quase como um anti-feiticeiro da linguagem musical, Chediak revelou esses truques e os colocou à disposição de estudantes, professores e músicos diletantes que até então eram um tanto órfãos de publicações do gênero. 
''Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, um songbook de Cole Porter ou George Gershwin contém partituras que perpetuam nota por nota, palavra por palavra, o que cada um deles criou. Aqui, a prática corrente é a de não se respeitar a música popular do mesmo modo que se respeita a erudita'', afirmava o jornalista João Máximo na introdução de um dos volumes dedicados a Caetano. ''Chediak e sua editora ousam acreditar que a boa música popular do Brasil merece o mesmo destino de toda obra-prima: perpetuar-se''. 
Nesse sentido, Chediak tornou-se um raro guardião de parte da memória musical brasileira. Imagem que se somou a de autor de obras referenciais no ensino de música, especialmente Dicionário de acordes cifrados, que iniciou o processo de padronização das cifras no Brasil; e os dois volumes de Harmonia e improvisação, primeiro livro editado no País sobre técnica de improvisação e harmonia funcional (com aplicação em mais de 140 músicas populares). Mas se esses livros são obrigatórios em qualquer boa biblioteca de teoria musical, Chediak se consagrou mesmo com os seus Songbooks. 
''A idéia nasceu exatamente na casa de Caetano Veloso. Eu estava dando aula de violão a seu filho Moreno, quando comecei a pensar no quanto seria importante para professores, músicos, arranjadores e estudantes se tivéssemos as obras de nossos compositores catalogadas em um álbum do modo como foram criadas por eles, o que raramente acontece nas edições musicais, principalmente no que se refere às harmonias, fundamentais na medida em que grande parte de nossos compositores é de excelentes harmonizadores, músicos que sabem exatamente os acordes com que melhor vestem suas melodias'', ele explicava. 
Depois de Caetano, foram mais de vinte outros livros editados (a maioria com CDs correspondentes), contemplando nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Braguinha, Noel Rosa, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, João Donato (foto acima), Djavan, Francis Hime, Rita Lee, Gilberto Gil, entre outros medalhões. O último trabalho foi o livro (e uma caixa com três CDs) de canções de João Bosco, presença constante em quase todos os discos produzidos por Chediak. 
''Eu participei em todos (os CDs da série Songbook), em alguns até com mais de uma música. É um trabalho importantíssimo. Os discos funcionavam como uma usina de experimentação, com muitas releituras feitas com total liberdade. E os livros eram feitos com muito cuidado, das cifras às entrevistas e biografias de cada artista'', João declarou ao saber da morte terrível de Chediak. ''Estou chocado, não sabemos o que houve, só que essa pessoa cheia de vida não está mais aqui''. O produtor musical foi assassinado brutalmente em maio de 2003, com quatro tiros no rosto, em Petrópolis. 
Nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1950, Chediak começou seus estudos com uma das grandes lendas da música popular brasileira, o mestre Herondino Silva, o mitológico Dino Sete Cordas. Aos 17 anos, já dava aulas e aprimorava seus conhecimentos com o professor Ian Guest. Entre os alunos que passaram pelas aulas de Almir estavam nomes famosos, como Gal Costa, Moraes Moreira, Carlos Lyra, Tim Maia, Ed Motta e Cazuza, que se revezaram pelo seu Centro Musical instalado em Copacabana. 
Com sua morte, a MPB perdeu o autor de um trabalho que Tom Jobim definia como ''coisa patriótica''. Mais: perdeu um soldado insubstituível na guerrilha cultural travada entre a nossa música e a vertigem cretina das grandes gravadoras.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O dom e a dor


Minha Esquina (Paulo César Pinheiro)

Já peguei meu violão
Pra falar do nosso amor
Mas se Deus concede o dom
A mulher concede a dor

Assim voltei pra minha esquina
Mas sem querer voltar
Canto até seis da matina
Para não ter que chorar

Mas não tem nada não eu vou ficando com a rapaziada
Cantando um samba e outro no meu violão
Poeta que é poeta mora na jogada
Um amor que vai é mais uma canção

Mas quem tira ainda vai pôr
Pela lei da proporção
Quando Deus pede o penhor
A mulher pede o perdão

E assim deixei a minha esquina
Mas sem querer deixar
Mas rotina por rotina
Eu vou levando por levar

Mas o meu nome vai ficando pela madrugada
Que eu tenho um samba e outro pra cada emoção
Poeta que é poeta não perde a parada
O que vem é festa pro meu coração

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O biombo da violência

Tarantino é um esteta da violência e, do ponto de vista estritamente narrativo, um cultor dos roteiros virtuosos. Tanto que seus personagens costumam se revelar apenas em pequenas frestas do argumento e dos diálogos (em geral, verborrágicos e, quase sempre, sem propósitos). Ficam na contraluz do fluxo do enredo e de suas reviravoltas. Cinismo e ironia, em seus filmes, são palavras-chave. E também superficialidade. Já que a trama é colocada em primeiro plano, há muito poucos matizes, o drama humano é sempre caricato e breve. Tarantino tem uma notável habilidade para contar histórias e usar a violência como elemento cênico que media a relação dos personagens. No entanto, à medida que se sucedem suas obras - como reafirma o seu recente Bastardos Inglórios -, percebe-se que a violência é um biombo sob o qual se esconde um diretor de pequena extensão simbólica e de pequeno alcance psicológico. Qual a brutalidade do "bastardo" Brad Pitt, que costuma marcar a testa de seus perseguidos no filme, a violência de Tarantino está na superfície. Ainda bem. Qualquer outra pretensão poderia lhe tornar um diretor pernóstico e obtuso. Por enquanto, ele ainda vale nossos níqueis. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Elifas Andreato

A primeira porta para a discografia brasileira que se abriu para mim foram algumas capas de LP, que contemplava maravilhado na discoteca de meu pai desde minha mais remota infância. Eram de tal modo expressivas que me pareciam mais humanas que as fotos reais. Não raro, ficava na dúvida se o rosto figurado naquele quadrado mágico que embalava os discos era desenho ou uma fotografia. Na semiótica de minha infância - pessoal e intransferível -, aquelas capas deviam conter uma música igualmente fascinante. Não entendia o que queriam dizer. Mas ficava horas contemplando aquele traço, aquelas luzes, aquelas cores. Não era possível alguém se entregar com tanto carinho à representação de outrem daquela forma, sem estar embalado pelo mesmo carinho com a música daquelas pessoas.
Anos depois vim saber quem era o autor daquelas capas que tanto me fascinavam: Elifas Andreato. Hoje, se me perguntam qual a capa de disco mais bonita da música popular brasileira, respondo de imediato: qualquer uma do Elifas Andreato. Duas, em especial, acho de uma delicadeza tocante, as capas dos siameses Memórias Cantando e Memórias Chorando (foto acima), de Paulinho da Viola. Mas como não se emocionar com a fachada de LPs antológicos de Elis, Clementina, Adoniran, Martinho da Vila? Ou com as capas e encartes da coleção História da Música Popular Brasileira? Ou mesmo com todas as outras capas que Elifas produziu para o próprio Paulinho?
Hoje, o homem apaixonado pela música brasileira é resultado do sentimento que ficou cravado naquela criança fascinada pelas capas de Elifas Andreato. Seus desenhos não pavimentaram apenas minha relação com a música, mas ajudaram a criar um brasileiro apaixonado por seu País. Ajudaram a criar um homem que nunca entendeu aquela obrigação cínica de sermos inteligentemente irônicos, autodepreciativos e carregados de soberba ao criticar o Brasil - usando uma expressão do jornalista Hélio Campos Mello no editorial da edição de outubro da revista Brasileiros. 
Esse sentimento, Elifas conta em entrevista à mesma Brasileiros, "faz mal à saúde" - o que em seu caso se traduziu em alcoolismo. Mas "faz bem para a alma", como atestam a beleza e a ternura de suas pinturas, permeadas por um "expressionismo caboclo" e pela tenacidade de seu amor ao País. "A tal da esperança é uma companheira fiel", ele brinca. 
Abaixo, um trecho do documentário Elifas Andreato, um artista brasileiro.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O barquinho mudou a rota


Chega de saudade! O barquinho mudou sua rota. Manteve a bússola da bossa nova de Jobim, mas, em vez do macio azul do mar, fez de sua carta náutica uma aquarela étnica e percorreu o mares bravios e intensos de suas raízes negras. Do samba ao west-coast, do candomblé ao hard-bop: axé Coltrane, axé Gerry Mulligan! Wes Montogomery pede a bênção a Pixinguinha e Silas de Oliveira. Água no pote de Oxalá e música na alma do mudo inteiro! 
O registro é do encontro de dois titãs do instrumental brasileiro. Curioso imaginar Paulo Moura falar com reverência de Jobim não fosse ele próprio um semi-deus da música mundial. Assim como Armandinho e suas doces molecagens "jacobaianas". O neologismo se revela pelo avesso do avesso do avesso. Afrobossanova o nome do disco que saiu esses dias por aí. Samba e jazz para além do esquematismo voz e violão. O beco das garrafas virou Sapucaí, Olinda e Pelourinho. Ipanema é New Orleans. Rua e dança e suor e cores. 
Paulo Moura cita Stravinsky, Severino Araújo e Nelson Alves e gargalha em agudíssimos para emoldurar a paixão por Luiza. A emoção ressoa no delay da baianinha de Armando e nos faz ver o Rio de Janeiro do alto de seu vôo de improvisos. 
O disco é introvertido pra fora e extrovertido pra dentro. 
Tudo samba! 

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Konstantinos Kaváfis


"A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal"

Konstantinos Kaváfis, Jura

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Poemetes araújos - V

Nega, vamos pra longe

Vamos pra onde a alegria é certa

Longe dessa gente careta

Longe da covardia, dessa treta

Vamos cantar de peito limpo e cara aberta

 

Nega, vamos pra longe

Vamos pra onde o samba impera

Longe dessas gravatas

Longe da solidão, dessas bravatas

Vamos dançar que o sol nos espera

 

Nega, vamos pra longe

Que o amor há de ser grato

Com quem ilumina uma noite dessa

Comigo não há falta, não há pressa

Tenho apenas o samba

Que tudo inicia

Que tudo irradia

Que tudo cessa


                                    Fortaleza, outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Nelson: Freire


Abaixo, um texto que escrevi em 2004 para o jornal O POVO e que falava sobre o filme, então recém-lançado, de João Moreira Salles sobre Nelson Freire. Nos últimos dias, tenho escutado repetidas vezes - e com o espírito cada vez mais assombrado - o CD em que ele executa, com dramaticidade e vigor inigualáveis, os 12 "études" de Chopin (op. 10), a "Barcarolle" e a "sonata no. 2 para piano". Daí que resolvi visitar meus discos do Nelson, bem como o documentário.  
 
Menino prodígio egresso do interior de Minas, Nelson Freire deu seu primeiro recital aos quatro anos. Aos oito, embasbacou todo o Rio de Janeiro ao solar um concerto de Mozart. Aluno de Nise Obino, Lúcia Branco e Bruno Seidlhofer, teve uma das carreiras mais vitoriosas da música erudita brasileira - com medalhas em pelo menos três continentes - e chegou ao posto de um dos mais importantes concertistas mundiais. 
Exaltar, portanto, sua arte somente a partir de seu virtuosismo (como foi o caso de filmes que abordaram outros pianistas famosos) é por demais tentador. No contexto do documentário de João Moreira Salles, porém, essa esquematização chega a parecer um tanto óbvia e beira a desimportância. Em 
Nelson Freire, o filme, o assombro dos dedos sobre o piano é apenas uma das pinceladas que o diretor usa para reconstituir em aquarela o perfil do pianista. 
O documentário tem pouco mais de uma hora e meia de duração, ao longo da qual esse decantado virtuosismo se mistura a uma série de outras perspectivas sugeridas pela figura de Nelson: sua serenidade e sua imaginação poderosa diante de uma peça erudita, o frisson que suas apresentações despertam mundo afora, seu rigor técnico e sua disciplina quase sufocantes, ou ainda seu fascínio pelos mestres Guiomar Novaes e Artur Rubinstein. 
No roteiro sinuoso do documentário, a vertigem do piano dilui-se, fundamentalmente, num sentimento de abandono e de entrega que pontua cada nota das interpretações de Nelson. É esse viés que forma o matiz mais forte do quadro pintado por Salles. Criança doente, criada no isolamento dos estudos e das partituras, longe dos primos e das brincadeiras de rua, Freire teve a música como sua principal interlocutora. E foi a partir desse diálogo solitário que conseguiu orientar e dar sentido a todo seu universo de desejos e emoções. 
Sua ética, por exemplo, não pertence ao terreno movediço da pabulagem e da fama. Para Nelson, poucas coisas são mais embaraçosas do que a badalação dos fãs nos camarins ou o burburinho da imprensa. A música é sua razão última e sem ela nada se justifica, nada se movimenta. Nem memória nem afetos. Nem mesmo o mundo verbal parece guardar algum sentido em sua vida. Na verdade, as palavras lhe são quase um não-dizer, dão-se sempre numa expressão tímida, contida. 
O verbo de Nelson é outro. Sua sintaxe se dá entre claves, compassos e colcheias. Nessa gramática, ele tenta traduzir a seu modo toda a história da humanidade em busca do sublime. No filme de Salles, esse esforço de vida inteira se dá entre o prolixo Rachmanioff e o caudaloso Villa-Lobos, entre o Chopin fundamental e o Schumann da 
Fantasia em dó maior. Entre catedrais, enfim, da cultura humana que acabaram por justificar sua própria existência. E que estão permanentemente a legitimar a nossa.



Stefan Zweig e o banquete de brasilidade

O caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, em sua edição do último domingo trouxe uma capa que acenava com uma discussão que me ganhou de imediato: o Brasil teria deixado de ser o eterno País do Futuro, na expressão cunhada por Stefan Zweig (foto acima), e - com a conquista da sede das Olimpíadas e da Copa do Mundo, além de perspectivas econômicas virtuosas e de uma posição consolidada no cenário dos Bric - atualizado essa sua secular potência? Há chegado nossa hora? À sedução do tema do debate se somou um time de colaboradores que permitia antever uma discussão das mais produtivas: José Murilo de Carvalho, Marcelo Coelho, Hermano Vianna, Ronaldo Vainfas, entre outros.
Atravessando o dossiê, uma frustração: o jornal não entregou o que vendeu na capa. Há, é fato, uma bela retrospectiva em torno do livro de Zweig (Brasil - um país do futuro, de 1941), que disseca a percepção do autor em relação à história e à paisagem (humana e natural) brasileira e que situa a produção da obra no contexto da Segunda Guerra Mundial, evidenciando os pudores e as motivações intelectuais (e de sobrevivência) que deram publicidade mas também carregaram o livro de imprecisões e platitudes sobre o País. 
"O povo brasileiro (segundo Zweig) seria dotado de um caráter congênito em que sobressairiam a tolerância, sobretudo a racial, o espírito de conciliação, a tendência à solução pacífica dos conflitos internos e externos", pontua Murilo de Carvalho. "A essas qualidades se acrescentava o dom de uma natureza rica e generosa. Com tais atributos, o Brasil estava, segundo ele, destinado a apresentar ao mundo, sobre os escombros da Europa, um novo modelo de civilização. O Brasil era o país do futuro". 
Em temas não muito variantes ao longo do caderno, esse foi o tom da apreciação da obra de Zeig feita pela Folha de S. Paulo. Valeu como dossiê específico sobre o autor, não sobre o Brasil de hoje. Poucos descortinaram idéias sobre a proposta vendida pela capa. O mesmo Murilo - que foi mais longe entre seus pares nesse desafio de entender o Brasil do presente - destacou o cuidado para se evitar um oba-oba com um momento histórico favorável para o País. "Não haverá milagres. Nem pessimismo nem euforia levam a lugar nenhum". 
Hermano Vianna termina sua colaboração resgatando a impressão de Zweig sobre os favelados cariocas dos anos 40, a quem o embevecido austríaco havia classificado de "uma enorme reserva para o futuro". "E não é que ele estava com a razão? Hoje essa gente deixou de ter vida 'pouco influenciada pelo progresso da técnica'e virou mercado de consumo apontado até na 'The Economist' como chave para a recuperação da economia mundial pós-crise. Uma gente dinâmica e barulhenta, acostumada tanto com o metralhar de AR-15 quanto com o subgrave do forró no som automotivo, vira garantia de futuro, muito além do fim da história e de qualquer choque de civilizações", afirma Hermano.
Essas são duas senhas - pouco exploradas pelo caderno - para que o Brasil possa efetivamente se afirmar com altivez no presente: o equilíbrio entre o ufanismo e o ceticismo (algo por demais óbvio para merecer qualquer desdobramento), e o reencontro da "pátria" com seu povo real. Lembro que Glauber Rocha costumava dizer que o povo era um mito besta, alimentado pelo romantismo e pela ingenuidade de sociólogos, artistas e escritores de diversos matizes. Vis à vis com seu povo, o Brasil de hoje não é nada do que sonhou nenhum campo da expressão artística ou da intelectualidade. Eis um choque que resulta em certa intolerância por parte da nossa inteligência mais conservadora e do nosso suposto bom gosto burguês. E também no profundo incômodo que um governo como o de Lula provoca na grande mídia e nos setores mais conservadores do País. Lula, afinal, pode deixar como a principal marca de sua gestão - repleta de problemas e omissões, registre-se - o reencontro de grandes parcelas do povo brasileiro com a mesa em que se serve esse banquete amorfo (e agridoce) chamado brasilidade. 
O Brasil sempre foi refém de um futuro que poderia ter sido e que não foi. E nunca vai ser. Nem quando publicações internacionais nos chamam - como fez recentemente a revista Wallpaper - de "novo establishment". Quanto mais gente estiver sentada à mesa desse banquete de brasilidade, negociando mutuamente a forma e a extensão do etos desta nação (para adaptar uma expressão da professora Maria Alice Rezende de Carvalho, que também participa do dossiê falando do etos de cidade), aí sim, estaremos mais perto do melhor futuro. Mais perto estaremos do melhor Brasil possível. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Céu embaixo

"Janelas, escancaradas janelas do décimo sétimo andar, aqui vou eu, aqui vai toda essa minha nossa estúpida vontade de apagar a luz, única maneira decente de apagar a dor".
Paulo Leminski, Céu Embaixo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O planeta politicamente incorreto


"Maluf se entrega à polícia”. “Nelson Ned é o novo Menudo”. “Paulo Francis na presidência da Funai”. “Newton Cruz prende Deus”. Essas e outras manchetes esdrúxulas estampavam a capa da primeira edição do Planeta Diário, um jornaleco criado pelos humoristas Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva e auto-intitulado “o maior jornal do planeta”. Terminava o ano de 1984 e o Brasil apenas começava a sacudir a poeira da ditadura, esperando dar a volta por cima do autoritarismo, da quebradeira econômica, do obscurantismo moral, etc. Toda uma geração, que passara a adolescência debaixo das barbas dos generais, chegava à maturidade (ou quase) sem saber direito o que fazer com aquele novo clima de liberdades individuais. Os três “editores” do Planeta também não. Na dúvida, resolvem sair esculachando, literalmente, com Deus e o mundo. Para bem e para o mal, nascia um novo formato de humor no Brasil.

“Candidatos epiléticos se debatem na TV”. “Acidente nuclear: cadáveres de Goiânia estão fora de perigo”. “Cai a estabilidade no emprego: Sarney é demitido por justa causa”. “113,7% dos eleitores acham que pesquisas estão erradas”. “Afif prometeu aos que o mandaram à merda que ‘juntos chegaremos lá’”. “Até japoneses acham o mínimo ridículo”. “Mala estava vivo: Oswaldo Montenegro encontrado a salvo na bagagem do boeing”. Entre o besteirol mais cretino e o politicamente incorreto mais despudorado, esse era o tom das manchetes do jornal. Nos editoriais, algumas das bandeiras e compromissos da “instituição”: “O povo brasileiro, que já é meio burro, não está entendendo nada: o presidente não usa mais aliança e cueca, Jânio Quadros parou de beber e na União Soviética o comunismo, o pão, o açúcar e a batata acabaram”.

Já os leitores interessados em economia não podiam perder seções de serviço como “Seu dinheiro... porque o meu já acabou” ou “Economia popular: formas alternativas de sobrevivência”. Os mais descolados podiam acompanhar discussões sobre a depressão de Zé Ramalho ou o legado de On the Road (devidamente traduzido para “Abre a rodinha”).

A editora Desiderata – que tem lançado ótimos títulos de Millôr Fernandes, Ivan Lessa e congêneres – montou uma coletânea com o melhor (o melhor?) das 77 edições do Planeta Diário, que conseguiu sobreviver até 1991, quando dois de seus editores se juntaram ao Casseta Popular, outro “periódico” canastrão da época, e, numa fusão nada murdochiana, formaram o Casseta & Planeta. Cláudio Paiva virou redator da Globo. Hoje, Hubert, Reinaldo e cia. estão plenamente domesticados pelos padrões globais de produção, por seus próprios clichês e pelo “trocadilhismo”, a doença infantil do humor. Na época do Planeta Diário, no entanto, suas edições cuspiam abelha – e não raro cometiam o que hoje seriam considerados “excessos” de deixar a turma do Pânico na TV! pouco à vontade. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Água, terra, ar e Montarroyos


Márcio Montarroyos (1949-2007) foi uma das grandes eminências do instrumental brasileiro. Seu estilo preciso e arrojado, além da defesa tenaz da música instrumental made in Brazil, lhe projetaram internacionalmente e chamaram atenção de músicos do quilate de Stevie Wonder, Sarah Vaughan, Carlos Santana e Ella Fitzgerald, com quem dividiu palcos e estúdios. Por aqui, seus solos figuram em discos de quase todos os grandes medalhões da MPB, de Jobim a Gismonti, Caetano a Maria Bethânia, numa extensa galeria a perder de vista. De sua discografia solo, destacam-se discos como Sessão Nostalgia (1973), Stone Alliance (1977) e Terra Mater (1989). Em 1989, Montarroyos participou do álbum duplo Concerto Planeta Terra, um registro de show antológico realizado no Parque do Ibirapuera ao lado do pianista Nelson Ayres, do guitarrista Toninho Horta e do saxofonista Nivaldo Ornelas, tendo como banda de apoio ninguém menos que Carlos Bala na bateria, Zeca Assumpção no baixo e a orquestra sinfônica de Campinas. No disco, cada músico do quarteto principal interpreta uma peça de próprio punho. Nelson ficou com "Água"; Ornellas, com "Ar"; e Toninho, com "Terra". Montarroyos, o que dá bem a medida de seu estilo, ficou com "Fogo". 

Abaixo, o homem em ação. Destaque para o baixo de Zeca Assumpção e a bateria de Zé Eduardo Nazário. 

Em busca da auto-literatura

Lançado há dois anos, é um dos grandes livros da década.  Ou pelo menos um grande livro para aqueles que, como eu, não acreditam em fórmulas mágicas de sucesso, em receitas transcendentais de felicidade nem em workshops sobre crescimento profissional ministrados por picaretas de vários matizes. Trata-se de 35 segredos para chegar a lugar nenhum, uma deliciosa coletânea organizada por Ivana Arruda Leite (e prefaciada por Machado de Assis, através de psicografia de Desdêmona de Antioquia). São 35 exemplos do melhor daquilo que Ivana define como literatura de baixo-ajuda. Um conjunto de pequenas reflexões, elaboradas com doses inclementes de ironia e sarcasmo, que arejam a vista, "desopilam o fígado" e fazem valer a máxima de Freud segundo a qual o humor é "a vingança do princípio do prazer contra o princípio da realidade". José Roberto Torero, Marcelino Freire, Fernando Bonassi, Xico Sá, Nelson de Oliveira são alguns dos autores convidados ao "empreendimento". Além do cearense Jorge Pieiro.  
Em vez do "segredo do meu sucesso", do "como se tornar um líder" e outras platitudes de espírito, o leitor vai encontrar dicas bem mais produtivas. Coisas do gênero "Como procurar trezentos espetos de picanha desaparecidos" (Cíntia Moscovich), "Como a classe média deve tratar os ricos no Brasil" (Antonia Pellegrino), "Livros de auto-ajuda: como largar este vício" (André Laurentino), "Como maximizar o uso do músculo lingual" (Jorge Pieiro), "Como não escrever um bilhete de suicida" (Xico Sá) e assim por diante. Mas bem adiante mesmo. Em "Como ser feliz sem chegar ao topo", Marcelo Carneiro da Cunha dá preciosas dicas para os milhares de homens e mulheres do nosso tempo que "sofrem com a demanda injusta e sem sentido de atingir um objetivo qualquer". 
Há também a revolucionária (mas perfeitamente factível) cartilha sobre "Como fazer sexo (seguro) na fila do banco", de Luiz Paulo Faccioli; e o produtivo manual sobre "Como escrever um cartão-postal", de José Roberto Torero, que recomenda uma missiva com péssimas recomendações sobre os destinos da viagem do que um pequeno libelo-exaltação dos locais por onde o viajante passa.  
Em resumo, à literatura de auto-ajuda - como indica Andréa Del Fuego, autora de "Como ganhar um Jabuti" (imprescindível, aliás, para aqueles que acabaram de levar o prêmio homônimo pra casa) -, prefira sempre a alta-ajuda. Ou, pelo menos, a auto-literatura. 

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Jornal Nacional: a "cadeia de comando"

Abaixo, um texto enviado por um caro colaborador deste blog e publicado originalmente no www.fazendomedia.com (já citado por essas latitudes). Uma boa provocação dentro da efeméride dos 40 anos de Jornal Nacional. O texto foi reproduzido mediante autorização de um de seus autores, o professor Denilson Botelho, da Universidade Federal do Piauí (UFPI).


JORNAL NACIONAL: A “CADEIA DE COMANDO”*

Por Redação, 25.09.2009


Visto de dentro, o JN se assemelha a um funil. Passam por ele, todos os dias, centenas de fatos e eventos do mundo inteiro. De tudo, apenas 25 notícias em média chegam aos telespectadores. A operação desse filtro constitui a essência do trabalho do JN. A qualidade da filtragem, aliada à preparação e apresentação cuidadosa daquilo que passa por ela, faz do programa o mais importante formador de opinião do Brasil. Há quatro décadas.

Bonner não decide solitariamente tudo o que vai ou não vai ao ar. Várias vezes ao dia, confabula com seu chefe direto – Ali Kamel, diretor da Central Globo de Jornalismo, que responde por todos os programas jornalísticos da Rede Globo. Kamel, por sua vez, conversa com frequência com o chefe de ambos, o gaúcho Carlos Henrique Schröder, diretor-geral de Jornalismo e Esporte da emissora. Essa é a cadeia de comando.

Lido de forma crítica, este trecho (e outros) – disponível no próprio site da Rede Globo, aqui – é uma denúncia. O Jornal Nacional é uma produção autoritária, liderada por estrategistas das Organizações Globo a serviço de seus interesses empresariais (vide matérias da TV Digital ou sobre a Rede Record/IURD, entre centenas de exemplos diários). É um instrumento ideológico clássico, que 40 milhões de pessoas que nunca leram ou entenderam Gramsci recebem diariamente (e não é preciso lê-lo para entender o mecanismo, mas vale a leitura para quem efetivamente acredita na democracia).

As matérias seguem o padrão da “obviedade” – éóbvio que os temas são X, Y, Z… -, da novidade (muitas vezes o que é “velho”, porém importante, é deixado de lado), da superficialidade e descontextualização (o texto citado denuncia isso), da rapidez (própria da economia, não da realidade social). Os temas de caráter mais político obedecem ao script ideológico de seus “donos”, como é possível visualizar neste pequeno texto. Há tantos filtros que é impossível termos qualquer busca por “imparcialidade” .

E o pior é que um dos lugares privilegiados e históricos, na sociedade civil, de crítica a estes mecanismos – a Universidade – está comprometido, sobretudo no campo de formação dos profissionais que produzem as matérias: a Comunicação. Basta notar que o Departamento de Comunicação da PUC-Rio é quase que um setor de extensão universitária da TV Globo (não é nenhuma novidade, para quem conhece) e a coordenadora de jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ é coordenadora da Globo Universidade (aqui).

Perdemos muito, como sociedade civil, ao assistir a esse show de autoritarismo no campo da informação – notavelmente, um campo muito importante para o desenvolvimento de qualquer país.


O braço acadêmico da “cadeia de comando”

Nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), também na zona sul do Rio de Janeiro, uma das mais renomadas na área da comunicação, não é diferente:  até porque parte do seu corpo docente leciona em ambas universidades. Em torno de 90% das atividades extra classe, sobretudo as palestras, são realizadas com profissionais da Globo ou algo relacionado à corporação. SeuJornal Laboratório, desativado no semestre passado, sem qualquer esclarecimento aos alunos, tinha como editor um ex-profissional de O Globo:  o projeto era regido numa dinâmica completamente empresarial, engessada, acrítica, sem levar em consideração que o jornal é feito por e para universitários, gratuitamente.

E mais: a disciplina de redação e edição em televisão, cujos formandos em jornalismo têm que cursar, quem dá a aula era editor de um programa da Globo News. Toda a sua matéria é desenvolvida em função dos vídeos que ele apresenta nos bastidores da emissora, logo nos primeiros dias de aula. No final das contas, não se trata de uma formação, mas sim instrução, quase um adestramento para um modelo pré determinado e incontestável.

Contudo, tal fenômeno não se verifica apenas na PUC-RJ e na Facha, mas também em outras universidades particulares. Talvez a diferença esteja no fato de que a PUC e a Facha ainda consigam inserir nos seus quadros docentes os “profissionais do mercado”, que é como os coordenadores e diretores chamam essas criaturas que podem até ser excelentes jornalistas, embora deixem muito a desejar como professores, na medida em que não estão preocupados em formar jornalistas com senso crítico, mas sim mão-de-obra para as grandes empresas. Os técnicos do lide!

Um aspecto grotesco dessa relação promíscua entre universidades particulares e grandes empresas é a realização de palestras ou semanas de comunicação que os cursos organizam. Existe toda uma pressão para tentar convidar repórteres ou apresentadores que metem a cara no video e são mais conhecidos. Seria uma forma demarketing junto aos alunos ingênuos: “olha, a faculdade vai trazer o fulano para falar na Semana de Comunicação!” E muitos ficam encantados e seduzidos pela proximidade com aquela mistura de jornalista e celebridade.

O problema é que muitas vezes o tal repórter global vem e… não tem nada para dizer. Assim já ocorreu com Eduardo Tchao, Gloria Maria, Sidney Rezende e outros. O Tchao certa vez defendeu que fazer jornalismo é essencialmente dar furo. Questionado sobre a ética do furo – lembremo-nos do caso Escola Base –, o mesmo não se fez de rogado e disse que “problemas acontecem e é preciso ter cuidado”. Mas pregar a ética do furo para estudante de jornalismo é inaceitável, convenhamos! Glória Maria, em outra ocasião, levou um video com trechos de reportagens que fez, os exibiu e falou “agora pode perguntar, gente!” Isso é palestra???

Essas universidades particulares ficam tentando se aproximar das grandes empresas como se jornalista só tivesse esse destino: trabalhar numa grande emissora. Ou seja, há muito tempo perdeu-se essa perspectiva de uma formação crítica nos cursos de comunicação. Virou fábrica de fazer salsicha mesmo! Lembra mesmo aquela célebre sequência do filme The Wall.

O lugar da formação crítica, quando existe, está nas públicas. Quando existe!


(*) Por Denilson Botelho, Eduardo Sá e Gustavo Barreto. Os autores são editores de educação, cultura e internacional do Fazendo Media, respectivamente. O professor Denilson Botelho se encontra atualmente no Piauí, onde dá aula na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Tatibitate espiritual


"Pode o Deus onisciente, que/ sabe o futuro, encontrar/ a onipotência de/ mudar sua idéia futura?" Karen Owens.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Céu na Terra


Logo nas primeiras canções é possível notar que Céu é uma cantora com uma rara peculiaridade: sua voz é ainda melhor ao vivo do que em estúdio. Em geral, a experiência da audição ao vivo de um intérprete é sempre mais intensa do que a audição do registro fonográfico. No caso de Céu, no entanto, sua performance amplia seu horizonte e sua extensão vocal, ressalta seu canto apurado, uma intrigante mistura de referências que vão dos vocais poderosos das divas do soul à divisão apurada de algumas sambistas. Aqueles que, como eu, sugestionados pela audição de seus dois discos, esperava ouvir os falsetes aveludados e a delicada malemolência de sua voz, se surpreendeu com uma cantora ainda maior no palco do Centro de Convenções no último sábado. 
Em vez de alguém cantando ao nosso ouvido, o que se viu foi uma artista de rara espontaneidade, dona de uma voz e de uma mise-en-scéne que transborda sua estampa angelical. Samba, reggae, jazz, o que vier ela traça. Céu canta com tal domínio de seus recursos e com tal segurança de seus gestos que o público inexoravelmente se rende a seus apelos, mesmo que eles venham embalados por um figurino meio confuso, opaco, pouco cativante; ou de passos (deliciosa e elegantemente) desengoçados, sobre os quais ela saracoteia por todo o palco  - uma mistura de reggae e samba que é simplesmente irresistível. Ah, sim, e a banda que lhe acompanha é muito, muito boa. Mas, creia-me, os músicos são a última coisa em que você vai reparar no show.

Abaixo, um trecho do show em Fortaleza no último sábado.