
Sem ironia barata, se me pedissem uma sugestão de leitura para este natal, diria Deus, um delírio, do britânico Richard Dawkins. Trata-se, nada mais nada menos, de um vigoroso ensaio contra Deus e, de forma mais ampla, contra a religião.




Um livro fundamental para se entender a conformação da "música brasileira" é O século da canção, de Luiz Tatit (Ateliê Editorial). Nesse ensaio, o musicólogo e compositor paulista constata que a prática musical brasileira do século XX sempre esteve associada à mobilização melódica e rítmica de palavras, frases e pequenas narrativas cotidianas. É como se essa prática só engendrasse um sentido quando as formas sonoras se mesclam às formas linguísticas inaugurando o "gesto cancional". 
Em 2003, quando da adoção do campeonato de pontos corridos no Brasil, engrossei as fileiras dos que se opunham ao formato. Achava que era um sistema enfadonho, um deslumbre boboca com o futebol europeu (embora ainda perceba, entre nossa "crônica", um deslumbre exacerbado e risível com os campeonatos do Velho Continente - onde se pratica, com exceção do campeonato inglês, o ludopédio mais chato do mundo!); e que o torcedor brasileiro estava acostumado com os jogos decisivos, que teriam feito a glória de nossos campeonatos. Em particular, incomodava-me o fato de que a partida final, com suas dezenas de milhares de torcedores lotando os estádios, ia ser abolida do nosso calendário, dando lugar a um sistema meio insípido, onde o campeão se revelaria com rodadas de antecedência e faria do restante da tabela um rito sonâmbulo e burocrático. Salvo algum lançamento improvável de última hora, os melhores discos do ano já podem ser mapeados. Segue a relação escolhida pela “equipe” do Talabarte, que complementa a lista que havia sido feita para o primeiro semestre.
1. Balangandãs, de Ná Ozzetti. Disco-tributo a Carmem Miranda que revisita o repertório clássico de compositores igualmente canônicos, como Assis Valente, João de Barro, Synval Silva, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu, entre outros, com roupagem revigorada e delicada assinada por Dante Ozzetti e Mário Manga. O grande disco do ano para a “equipe” de redação do Talabarte.
2. AfroBossaNova, de Paulo Moura e Armandinho. Chega de saudade! O barquinho mudou sua rota. Manteve a bússola da bossa nova de Jobim, mas, em vez do macio azul do mar, fez de sua carta náutica uma aquarela étnica e percorreu o mares bravios e intensos de suas raízes negras. Do samba ao west-coast, do candomblé ao hard-bop: axé Coltrane, axé Gerry Mulligan! Wes Montogomery pede a bênção a Pixinguinha e Silas de Oliveira. Água no pote de Oxalá e música na alma do mudo inteiro!
3. Saudades do Cordão, de Guinga e Paulo Sérgio Santos. Dois outros exemplos de músicos que, sempre que lançam trabalhos novos, figuram entre os mais mais do ano. Lançando um disco em parceria, então, os dois vão para as cabeças. Para as mais inteligentes e sensíveis, naturalmente. Discão.
4. Debussy, Nelson Freire. O pianista brasileiro chegou a um ponto tal de maturidade artística e virtuosismo que qualquer registro seu entra automaticamente para qualquer lista dos melhores discos de todos os tempos. Pois bem, como lançou esse belíssimo Debussy no primeiro semestre, não poderia ficar de fora.
5. Zii e Ziê, de Caetano Veloso. Ao dar continuidade à sonoridade crua e minimalista construída em Cê, mas superando o amargor das letras do disco anterior, Caetano grava um disco corajoso, em que volta a tensionar o horizonte de nosso consumo musical e mexe mais algumas peças no tabuleiro do jogo entre a tradição e o contemporâneo.
6. Peixes pássaros pessoas, de Mariana Aydar. A promessa anunciada em Kavita 1 se confirma nesse disco com sonoridade e repertório poderosos. Um samba jovial, sem amarras, anda de mãos dadas com um pop inteligente, artigo cada vez mais raro em nossas estantes. Vide a ótima “Tá?”.
7. Live from Salzburg, de Nelson Freire e Marta Argerich. Brasil e Argentina numa tabela de titãs. Destaque para o virtuosismo em "Variações sobre um tema de Haydn", de Brahms; e para a arquitetura preciosa de "Variações sobre um tema de Paganini", do polonês Witold Lutoslawski.

8. Devoção, de Luiza Dionísio. Tarefa difícil escolher a maior cantora brasileira viva de quem o Brasil - infelizmente - ainda não ouviu falar. Luiza Dionísio tem meu voto. Seu canto é de um delicado vigor e emociona à primeira audição. Seu repertório, com belas inspirações religiosas afro-brasileiras, se espalha pelo choro-canção ("Velho amigo"), samba sincopado ("Vila do meu coração") e samba de roda ("Mar de jangada").

9. Pimenteira, de Pedro Miranda. Tradição, presente e futuro. Tudo desaguando na voz afinadíssima e cheia de suingue de Pedrinho Miranda. Sem manias de passado nem frescuras de modernidade. Um disco de altíssimo astral e de inegável "força histórica".

10.Yesterdays, de Keith Jarrett. Há os que prefiram outros trios de Jarrett, como o que contava com Paul Motian e Charlie Haden. Mas é inegável que foram Peacock e DeJohnette que consolidaram o projeto musical do pianista em relação a suas formações jazzísticas. Esse disco celebra mais uma vez essa parceria de mais de trinta anos, com standards como “Stella by Starlihgt”, “Smoke gets in your eyes” e “You took advantage of me”, que, como se espera de um disco do trio, deixam de ser clichês e viram outra coisa nas mãos endiabradas de Jarrett.


Digo Sim, Ferreira Gullar
P.S. - O grande poeta virou um articulista conservador e obtuso. A cada domingo é um suplício cada vez maior ler seus textos nos jornais. Mas ainda digo sim a muitos de seus poemas.
