quarta-feira, 16 de maio de 2012

Poeira nos olhos - Vicente Barreto


"Jogo poeira nos olhos
que é pra me aventurar
caminhei muitas léguas 
sem lei e nem trégua 
que possa lembrar
procurando amor puro
que é em porto seguro
que vou sossegar

Só de pensar
se me fecham a cancela
uma fera eu posso virar
jogo o corpo
num rabo-de-arraia
que vou lhe mostrar

Mas no mais eu sou manso que dói
ajo como se fosse um herói

Andei, andei
andei por aí
andei , andei 
andei por aí"

P.S. - Essa vai para um moça lá em Istambul...


Ele é o samba*




O poeta está chegando aos 70. Mas prefere não antecipar as comemorações. “As pessoas têm falado muito sobre isso. Inclusive, já me convidaram para várias entrevistas e especiais. Eu falo: ‘Olha gente, se Deus permitir, deixa eu completar os 70 anos antes’. Festejar antes não é bom!”, explica, por telefone, aos risos. Oficialmente, o aniversário é apenas em novembro, dia 12. “Tenho evitado tocar nesse assunto. Mas, acontecendo isso, eu fazendo 70, aí vou falar à vontade”.

Até lá, Paulinho da Viola deixa a efeméride de lado e diz que prefere seguir trabalhando. Gravando – sim, há perspectiva de um novo disco em breve – e fazendo shows, como o que apresenta logo mais no Aterro da Praia de Iracema. O espetáculo foi pensado especialmente para a ocasião. Nos últimos anos, o sambista tem se apresentado num formato mais intimista, com um time de músicos mais enxuto. Resultado tanto do show acústico, que deu origem ao DVD da MTV; quanto de uma temporada que fez em São Paulo para inauguração do teatro da Fundação Álvares Penteado. O show em Fortaleza abriu uma exceção nessa rotina de perfil quase camerístico.

“É uma festa de aniversário”, justifica. Em conversa com a produção do evento, Paulinho decidiu por um show com uma sonoridade mais encorpada e com um repertório que prioriza seus grandes sucessos. Para isso, reforçou seu time de músicos: Cristóvão Bastos (piano), Mário Séve (sopros), Dininho (contrabaixo), Hércules (bateria), Celsinho Silva (percussão) e Esguleba (percussões).

Além deles, também sobem ao palco os filhos João Paulo Rabello (violão) – que substitui o avô César Farias como escudeiro de Paulinho no seis cordas - e Beatriz Faria (vocal) – destaque no elenco dos musicais Sassaricando e É com esse que eu vou, dois sucessos de público assinados pelo jornalista e escritor Sérgio Cabral.

Com quase 50 anos de carreira, Paulinho da Viola prefere falar de si no coletivo, avaliando e enaltecendo o legado de sua geração para a música brasileira. Uma geração em que alguns dos principais medalhões nasceram no mesmo ano (além dele, Benjor, Caetano, Gil e Milton, por exemplo, também são de 1942) e atualizaram, se não no campo da política e da economia, pelo menos no campo da música, a utopia do escritor austríaco Stefan Zweig – falecido em fevereiro daquele mesmo 1942 - e de seu País do Futuro.

“Fico feliz que o pessoal da minha geração, principalmente através dos festivais, tenha tido essa preocupação com as mudanças que vinham ocorrendo na cultura e no País como um todo”, afirma. “No período pós-bossa nova, houve muita mudança na música. Os festivais foram muito importantes porque eles não só deram oportunidade a toda uma geração de mostrar ideias novas, como também houve uma oportunidade de uma discussão sobre aquilo que estava acontecendo no País, na cultura”.

Maior referência viva do samba – pela qualidade, pela quantidade e pela popularidade de sua obra -, o compositor não reivindica a posição de reserva moral do gênero ou qualquer outro predicado do tipo. Em resumo, não se anima com nenhum protagonismo que lhe implique responsabilidades de preservação ou de manutenção de uma suposta pureza de nossa música.

“Preservação” e “pureza”, aliás, são expressões que considera inúteis dentro da dinâmica da música popular. “Nunca houve uma forma pura (de samba). Não dá pra ficar interferindo nas coisas e dizendo como elas têm de ser”, defende. “Eu não faço meu trabalho querendo preservar nada porque isso é uma bobagem e é desnecessário. Quem toma conta das coisas somos nós, é o nosso povo. Eu passei toda minha vida ouvindo em muitos momentos: ‘Ah, esse negócio acabou. É preciso acabar com isso. Isso é negócio de velho. E não sei o que’. E por que não acabou? Porque nosso povo não deixa”.

O sambista prefere falar em paixão pela arte do que em ativismo. “Eu sempre fui ligado a escolas de samba, a blocos de Carnaval, a música instrumental, ao choro. Isso é uma coisa da minha vida. Em nenhum momento, eu quis fazer uma revolução dentro disso. E não é porque tenha assumido uma postura de defesa disso ou daquilo. Não. É uma coisa muito simples. O que eu fiz, o que tenho feito, é uma coisa por amor”. Logo mais, Paulinho divide com Fortaleza algumas célebres canções que resultaram desse seu permanente amor ao samba e à vida. E também ao tempo presente.

* Texto publicado no jornal O POVO, edição do dia 13 de abril de 2012, por ocasião da programação de comemoração do aniversário de Fortaleza.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O passado não é mais como era antigamente



Os movimentos de revisão da tradição escreveram a história da música brasileira. Hoje, com a revolução dos acervos de MP3, a tradição reinventa a modernidade. (Texto publicado na edição número 1 da revista O POVO Cenário)

Em se tratando de música brasileira, nada é tão moderno quanto o passado. No campo da canção popular, essa aparente contradição é ainda mais hegemônica. Noves fora alguns esforços vanguardistas na seara da chamada “música erudita”, a história de nossa música é contada por movimentos cíclicos de revisão da tradição que se dão à luz das noções de modernidade correntes na economia simbólica de determinada época. Desde o fim do século XIX, nossa música foi pensada (por teóricos e artistas) como uma longa suíte de temas que deságuam sempre no mesmo coda: o tempo presente emitindo notas de um mundo pretérito (re)idealizado.
Nas primeiras décadas do século XX, entre as urgências reivindicadas pela arte moderna, estava a necessidade de modernização, pelas vias de um nacionalismo atrevido, de uma cultura brasileira considerada “primitiva”. Desse prato, como se sabe, serviram-se Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade. E também Heitor Villa-Lobos e Radamés Gnattali. No caso do samba, seu “primitivismo” foi usado com bandeira de nossa nacionalidade e, sob a batuta populista de Getúlio, ganhou o estatuto de música nacional. Sobre o tema, vale conferir o belo ensaio Modernidades Primitivas – tango, samba e nação, da argentina Florencia Garramuño.
A partir daí, “modernismos” e “primitivismos” voltariam a se entrelaçar e a se reinventar em outros ciclos de nossa música. Na bossa nova, como se sabe, houve o desejo de alinhar nosso cânone a novidades harmônicas e rítmicas que chegavam do exterior. Aquele novo samba já não era mais batido na palma da mão nem costurado pelas baixarias seresteiras dos mestres do violão de 7 cordas. João Gilberto estilizou nosso batuque nas cordas de seu violão e os músicos deixaram os regionais, refugiando-se nos trios daquele meio jazz tupiniquim – ou nas salas e varandas dos convescotes nos apartamentos de Ipanema.
A tropicália recolocou narcisos na frente do espelho e espelhos na frente de recalques. O rock nacional dos anos 80 achou (quase) tudo muito feio e, ainda de ressaca pela repressão militar, renegou taxativamente o diálogo com a geração anterior e a tradição não-roqueira; embora um Cazuza mais maduro transasse Nelson Cavaquinho sem grandes grilos. Um conflito de gerações estava posto.  Eis que, em meados dos anos 90, surge Chico Science e novamente “primitivismos” e “modernidades” voltam a se comunicar. E a se justificar mutuamente. Não tardou para grupos de maracatu se espalharem pelo País, DJs internacionais incorporarem batuques afro-brasileiros em seus sets e o público jovem se reaproximar de suas músicas locais (as guitarradas paraenses, os bois e o tambor de crioula do Maranhão, o samba carioca, etc). A cultura musical brasileira foi reanimada num intenso processo de reencontro.
Chico "modernizou o passado" e fez sua "evolução musical", como anunciava em “Samba Makossa”. Desde então, a música brasileira caminha pra trás – no melhor sentido da expressão. Com as possibilidades tecnológicas da revolução dos acervos de MP3, essa sanha de modernizar nossa tradição se inverteu. Hoje, reinventamos a modernidade através da tradição e de nossos “primitivismos”. É o ponto onde estamos. Olhando pra trás, nunca fomos tão modernos. 

Poemetes Araújos - XX



Calma que
a vida não vai acabar no
próximo relatório.
O sol ainda vai estar por aqui.
Assim como os rouxinóis, os sabiás e a Grécia.
O Parque do Cocó vai estar por aqui.
A vida não vai se apagar na próxima
reunião.
Por isso, não reserve todo seu ar.
Enfrente os mesquinhos, os medíocres
e os hipócritas. Mas saiba respirar.
Há outros ares e outras cores e outros sons.
E eles estarão todos por aqui
quando você chegar.
E mesmo que você morra
Mesmo que você corra
Mesmo que você salte do décimo andar
Eles estarão por aqui.
Os domingos se renovarão nas mesas dos bares,
nos estádios e nos gritos de gol.
O mar seguirá lavando a areia de nosso espírito.
E, apesar de tanto lixo rondando nosso ouvido e nossa alma,
os discos de Clara Nunes seguirão tocando -
ou mesmo os concertos de Brahms.
A vida não vai, calma,
se encerrar na próxima planilha.
Calma que não existe método pra tudo.
A vida vai além.
Nós, não sei.
Enquanto recorrermos a alucinógenos -
deus, diabo, dinheiro, pó -
para
seguir tocando em frente, não sei.
Mas a vida vai.
O melhor que farás é encher teu peito
de amor e de bem e de paz e
dividir sorrisos e manhãs
com os teus.
Então, calma,
que não será você a estancar
o sangue que corre nos campos de batalha,
nos esgotos de Wall Street
e nos olhos da criança africana.
Mas dessa vale a pena cuidar:
porque a infância vai seguir.
Nós, não sei.
Calma.