sábado, 7 de janeiro de 2012

A grandeza e o silêncio




Durante a entrevista, as lembranças da família e da infância no Interior do Ceará levaram-lhe às lágrimas. A recordação da amizade e das jornadas intelectuais com Antonio Cândido, idem. Faltou-lhe voz. Minha falta de jeito diante de tão surpreendente manifestação de emotividade só não era maior do que o fascínio por meu interlocutor. Eu que, confesso, nunca rezei pela cartilha do ceticismo programático tão cara a muitos de meus pares de profissão, passava a acreditar ainda mais na grandeza intelectual de meu entrevistado: um homem sabidamente discreto e simples, mas que ali, naquele momento, se despia da frieza protocolar da academia.  
Eu estava diante de José Aderaldo Castello, o professor emérito da USP. O sucessor de Sérgio Buarque de Holanda na direção do Instituto de Estudos Brasileiros (que comandou por mais de 20 anos). O pesquisador incansável que fora um dos primeiros a usar microfilmagens em seus trabalhos. O intelectual que passara a limpo a evolução de nossa literatura e que se tornara parceiro de Antonio Candido em Presença da Literatura Brasileira. Esses e inúmeros outros predicados “oficiais”, que tanto me intimidavam na produção da entrevista. Mas eis que, depois de algumas boas horas de conversa, vem sua tocante revelação de amor ao Ceará e suas origens sertanejas.
“De que maneira o fato de ser cearense, de ter nascido no Nordeste, influiu em sua visão de literatura?”, perguntei. “Isso foi fundamental. Eu sou do sertão. O sertão tem um peso enorme na nossa formação”, respondeu já com a voz embargada pelas lágrimas. Aos 90 anos, Castello morreu em dezembro passado. Sua morte teve repercussão discreta na imprensa. Pediu que suas cinzas fossem jogadas ao mar, assim como as da filha que perdera em 2004. Desde aquele encontro, em 2001, lembro de Castello através das palavras de Rohden: “O grande homem é silenciosamente bom. É genial - mas não exibe gênio. Rasga caminhos novos – sem esmagar ninguém”.